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RESENHA

Batendo tambor

O jornalista e músico Marcos André assina a organização do livro/CD Jongos do Brasil, que registra a cultura afro-brasileira de quilombolas do Vale do Paraíba, praticantes desta música performática feita de vozes e sons de tambor. O projeto foi um dos selecionados no segundo edital nacional promovido pela empresa de cosméticos Natura

Eleuda de Carvalho
da Redação

02 Mar 2007 - 23h00min

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LIVRO traz à tona dança de origem africana que ainda persiste em quilombolas em várias regiões do Brasil/ FOTO REPRODUÇÃO
São oito mulheres e um homem, pretos velhos todos, à frente de uma casa de adobe, coberta com firme sapé, feita para durar. Eles miram o leitor, na capa do livro/CD Jongos do Brasil, com seus rostos enrugados e um leve sorriso, trajados de branco - à exceção de dona Santa Sarapião, vestidinha de encarnado. Sejam bem vindos, parecem convidar, neste olhar coletivo, a esta festa de resistência, beleza, improviso e umbigada, proporcionada pelos descendentes de escravos da antiga fazenda São José, atual Quilombo São José, encravado na serra da Beleza, município de Valença, Rio de Janeiro. O organizador do livro, o jornalista e músico Marcos André, explica na introdução que se encantou, ainda menino, pelo batuque do tambor. Garoto da Zona Sul carioca, foi o avô quem o iniciou na cultura negra, levando-o ao seu terreiro de umbanda, no subúrbio. Depois, no boêmio bairro de Santa Tereza, o jovem encontraria o "lendário Mestre Darcy", que o convidou para seu grupo de jongo. Foi assim que começou esta pesquisa-vivência sobre esta espécie de avozinho do samba.

O livro, apesar de falhas que uma revisão resolveria, é redondinho: tem um texto onde ele conta a história do jongo, também chamado de caxambu, um ritmo trazido para cá pelos negros da nação banto, mão de obra escravizada pelos senhores dos engenhos de cana de açúcar, cafezais e mineração do Vale do Paraíba - rio que se encontra na fronteira dos estados do Rio, São Paulo e Minas Gerais. É o jongo, duplo: dança profana, brincadeira de terreiro, e também música religiosa e sagrada, já mesclando os orixás da África ao panteão católico do Brasil. Os pontos do jongo, repletos de mensagens cifradas, também serviram de código secreto para a organização de fugas e resistência dos negros. Em torno de uma fogueira, no meio do terreiro, os jongueiros esquentam a pele dos tambores - o de som grave, chamado caxambu ou tambu, e um agudo, o candongueiro. O nome africano do tambor é angoma. O mestre entoa a frase, em geral, dois versos, que os demais repetem, e então entra o som percutido do couro e o frenesi das palmas. No centro da roda, os dançadores se revezam até a noite acabar.

O livro, como dito, traz o serviço completo. Além do texto inicial, a bibliografia utilizada como referência e, em seguida, o mapeamento dos jongos - o do Quilombo São José, de Valença; o jongo de Pinheiral, de Quissamã, Santo Antônio de Pádua, Barra do Piraí, Angra dos Reis e Campos dos Goytacazes, todos no Rio de Janeiro. O jongo de Miracema, Porciúncula, Piquete, Campinas e Guaratinguetá, em São Paulo. Tem a história de cada um, os principais mestres, as datas das festas, as comidas e bebidas (como a "canelinha", uma cachaça temperada com paus de canela), as festas derivadas - o Boi Pintadinho e o Mineiro-Pau, além de telefones de contato e dicas de como chegar em cada lugar. As fotografias de Bruno Veiga e do autor mais que ilustram e enriquecem o projeto gráfico: permitem um mergulho visual nestes rostos, no que há para além deles - estas almas encantadas dos pretos velhos jongueiros, convocados à roda pelos 28 pontos enfeixados no CD anexo. Jongos do Brasil foi viabilizado através do segundo edital nacional do projeto Natura Musical. "Tava durmindo/ angoma me chamou/ disse: levanta, povo/ cativeiro já acabou...".


SERVIÇO
Jongos do Brasil - CD/Livro que mapeia esta tradicional dança de roda de origem afro-brasileira, em comunidades quilombolas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Organização: Marcos André. Fotos: Bruno Veiga. Patrocínio: Natura. Realização: ONG Brasil Mestiço. R$ 45. À venda pelos telefones (21) 3852.0053 e (21) 3852.0043 ou pelo e-mail brasil@brasilmestiço.com.br

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