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DISCOS

A força das bolachas

Natália Paiva
da Redação

Quem foi que disse que o disco de vinil morreu? No rastro da crise de formato que assola o mundo da música - e questiona o CD como formato hegemônico -, a cultura em torno do vinil se fortalece


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02/03/2007 23:00

ILUSTRAÇÃO: CARLUS
ILUSTRAÇÃO: CARLUS

Da bela capa de papelão, retira-se o Long Play, em toda sua majestade de 31 centímetros de diâmetro e 33 rotações por minuto. O LP é posto sobre o prato do toca-discos. Ali, pode-se escolher a música olhando diretamente para as linhas que compõem o registro sonoro. Com cuidado, deixa-se a agulha pousar no sulco do disco. Shhhh... Logo, um som gordo, denso e maravilhosamente analógico enche o quarto - chiados e estalinhos fazem parte do charme. No início dos anos 1990, com a consolidação do CD como formato hegemônico de reprodução de registro sonoro, espalhou-se a crônica de uma morte anunciada: os discos de vinil seriam deletados do mundo da música. Bobagem. Evidentemente, os bolachões perderam espaço. Mas vive-se, neste início de século, um momento tal de quebra de paradigmas, no que diz respeito aos formatos de execução da música, que, nessa brecha, a cultura vinil só se fortalece. "A idéia de fazermos o vinil novamente é para suprir a falta que o suporte físico faz para algumas pessoas. Quem gosta de colecionar a música material, com encartes, fotos etc., pode ter essa opção nos nossos discos. Os mp3s são outra coisa em que pretendemos investir. Imagino que daqui a uns cinco anos o CD vai ficar tão velho quanto a fita cassete. Mais feio que o vinil e menos prático que o mp3. Estamos vivendo uma época estranha, sem dúvida. Transição", avalia Arthur Joly, do selo paulista Reco-Head.

No ano passado, ele lançou seu primeiro título em vinil: Arthur Joly apresenta: Jamjolie Orquestra, que pretende ser o primeiro de uma série. A tiragem do LP foi 10% da tiragem do álbum em CD (2.000 unidades). Mas a decisão pelo formato é sintomática e revela uma postura de mercado, mesmo porque a Reco-Head apenas segue postura adotada por outros selos independentes, como o goiano Monstro Discos e o carioca Gravadora Discos. Em 2006, a Poly Som, única fábrica de discos de vinil do País, prensou 23.100 unidades - 28% menos que no ano anterior. No entanto, "ainda é muito cedo para prever aumento ou redução do número de prensagens", afirma, ainda otimista, Luciana Carvalho, gerente-geral da Poly Som. A fábrica, criada em 1999 em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, não apenas produz LPs de bandas independentes de pequenos selos, mas também prensa edições de luxo de álbuns de grandes gravadoras, como os últimos de Nando Reis, Caetano Veloso e Los Hermanos, objetos de fetiche de audiófilos e de fãs. "Acho que o vinil é um objeto, além de uma mídia musical. É bonito, é interessante e charmoso colecionar discos de vinil. E, depois que inventaram o mp3, o CD passou a ser mais antiquado que o próprio vinil", avalia Arthur.

O fato é que o vinil nunca morreu, como se insistiu em anunciar. Mário "Vinil", dono da loja de discos Bolacha Preta, é exemplo de quem nunca deixou de acreditar no chiado analógico. Mário compra LPs desde os 19 anos - era muito Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, no fim dos anos 1970. Hoje, seu acervo pessoal contabiliza mais de 1.200 discos - numa caixinha de papelão, ele guarda todo seu acervo de CDs: 16, da escocesa The Incredible String Band e da banda norueguesa Folque. E só. Saudoso, Mário lembra que o bacana da cultura vinil, nos anos 1980, era a possibilidade de troca de idéias e de discos. "Se eu tinha dois do Black Sabbath repetidos, eu ia na casa de um amigo que tinha dois do Deep Purple, e aí a gente trocava. Eu tinha uns 25, 30 colegas, todo fim de semana a gente se encontrava. Tinha essa coisa de reunir a galera, bater papo na praça e falar sobre rock'n'roll". A loja na Soriano Albuquerque foi aberta em 1999, quando chegou a vender até 1.500 LPs por mês. Hoje, são míseros 60 mensais. "A procura de LP está pouca. Sai mais MPB, bossa nova, jazz e rock, dos anos 1960 e 1970. Hoje, quem tem discos bons não quer passar, e quem tem e quer passar pede muito caro". "Vinil", o Mário, culpa a internet. "Tenho um freguês que deixou de comprar e diz assim: 'Não, Mário, tudo o que eu quero eu vou no computador e boto tudinho em mp3. Vou comprar LP pra quê?'".

Mas não é assim com todo mundo. Não mesmo. Vladimir Sales, geógrafo e audiófilo, 31 anos, faz uso da internet para caçar mais e mais vinis e para alimentar esse espírito de "troca de idéias e de discos", próprio da cultura vinil, vivenciado por Mário nos anos 1980. "Com o Orkut e esses outros sites de relacionamento, a gente encontra muita gente com o mesmo gosto. Se alguém tem um disco que eu quero, e eu tenho um que ele quer, a gente troca. Tenho um amigo de Minas Gerais com quem sempre troco. Aí a gente paga só a postagem. Tenho uns colegas também que sempre compram e combinam de se encontrar pra ouvir som", conta. De fato, basta pesquisar "vinil" no Orkut, no Google e no Youtube para ver que o disco de vinil é cada vez mais cool e indie. Também pudera. Lá fora, bandas novinhas como Arctic Monkeys, The White Stripes, Ranconteurs, Primal Scream e Keane seguem o rastro de artistas como Beck, R.E.M., Radiohead, Metalica e Madonna e lançam seus álbuns em maravilhosas edições em vinil. Vladimir é um dos que, com a chegada dos CDs, começou a colecionar os disquinhos compactos e se desfez dos velhos LPs. "Só que chega um ponto que a gente vê que a arte não é a mesma coisa, o CD minimiza. A gente começa a dar valor à arte mais antiga, com capa bonita. Fora o som. Apesar de o CD ter um som mais limpo, o vinil tem um som mais encorpado, mais grave. E os audiófilos gostam mais desse som". Agora, resta a Vladimir correr atrás dos LPs dos quais se desfez.

Além dos colecionadores, outro público cativo dos discos pretos são os DJs. "Muitos dos DJs preferem trabalhar com vinil porque tem essa relação tátil com o disco. Muitos se baseiam pelo som do vinil, onde tem a batida da música, fica uma coloração diferente. Você controla melhor a música num toca-discos do que num CD player", pontua o audiófilo e colecionador Ricardo Jorge, também professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará (UFC). Seu primeiro LP foi Ghost In The Machine, do Police, em 1981 - mil cruzeiros muito bem investidos. Para o professor, o vinil traz uma série de vantagens simbólico-afetivas que 'justificam' a paixão acesa pelos bolachões. A primeira é a capa, que pela dimensão sempre possibilitou que os artistas gráficos ousassem esteticamente. No CD, até mesmo a embalagem de plástico restringe esse aspecto. "Tem uma série de elementos adicionais que você curte; por exemplo, no encarte, a letra é grande. Tudo isso conta, de certo modo. E você até vê vinil sendo usado em cenários". E mais: a durabilidade e o preço são outros elementos favoráveis. Enfim, o que mais se pode dizer? O disco de vinil é que nem a vida. Extremamente real, peremptoriamente imperfeito - e sempre tem dois lados.

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