Eleuda de Carvalho
da Redação
O escritor e jornalista Fernando Morais é o convidado desta edição do programa Literato, do Centro Cultural Banco do Nordeste. Em pauta, o mais novo livro de Morais, Montenegro - As Aventuras do Marechal que Revolucionou os Céus do Brasil (Planeta)
27/02/2007 23:28

Ele cascavilhou a vida do mago das comunicações dos anos 50 e 60, Assis Chateaubriand. Foi fundo para resgatar a história de Olga Prestes. Está prestes a lançar uma biografia sobre um dos autores brasileiros mais conhecidos na atualidade, o escritor Paulo Coelho. Seu primeiro sucesso, neste estilo que o consagrou, o romance-reportagem, foi A Ilha, sobre a Cuba de Fidel, claro. No finalzinho do ano passado, Fernando Morais deu ponto final em Montenegro - As Aventuras do Marechal que Revolucionou os Céus do Brasil, em que resgata a longa trajetória do militar cearense que foi pioneiro no Correio Aéreo Nacional e criador, em 1950, do famoso ITA - Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Para falar sobre este personagem histórico, o escritor vem a Fortaleza, convidado do programa Literato, do Centro Cultural Banco do Nordeste, para um debate que será mediado pelos jornalistas Augusto César Costa e Socorro Acioli. A viúva do marechal, dona Antonietta Montenegro, 81 anos, estará presente.
O biografado, Casimiro Montenegro Filho, nasceu aqui em Fortaleza, em 29 de outubro de 1904. Aos 19, foi embora para o Rio de Janeiro, onde se formou engenheiro militar. Viveu uma longa vida, repleta de aventuras, audácia e determinação. Morreu em Petrópolis, no Rio, em 26 de fevereiro de 2000. O biógrafo, Fernando Morais, é mineiro de Mariana, nascido em 1946. Começou a vida como jornalista, aos 16 anos. Trabalhou na Veja, Folha de São Paulo, TV Cultura e portal IG. Recebeu três vezes o Prêmio Esso e quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo. Exerceu mandato de deputado estadual em duas legislaturas e também foi secretário da Cultura (1988-1991) e da Educação (1991-1993) em São Paulo. Em seu currículo, a participação no Conselho Superior da Telesur, a TV pública latino-americana implantada em julho de 2005 pelos governos da Argentina, Cuba, Uruguai e Venezuela. Em 2003, tentou uma vaga na Academia Brasileira de Letras, mas perdeu para o ex-senador e ex-vice presidente Marco Maciel... O primeiro livro que ele escreveu foi em parceria com Ricardo Gontijo e Alfredo Rizutti, a reportagem Transamazônica (publicada pela Brasiliense, em 1970).
Cinco anos depois, 1975, após uma viagem a Cuba, Fernando Morais publica A Ilha (reeditado pela Companhia das Letras em 1993. O livro virou best seller, apesar de a época ainda estar marcada pela censura dos governos militares). Entre outras obras do escritor destacam-se Chatô, o rei do Brasil (Companhia das Letras, 1994), Corações sujos (Companhia das Letras, 2000 - premiado com o Jabuti), Cem quilos de ouro (Companhia das Letras, 2002) e Na toca dos leões (Planeta, 2004). Agora, está às voltas com a biografia de Paulo Coelho, além de outros dois projetos biográficos: a vida do político baiano Antônio Carlos Magalhães e um livro em que o ex-ministro José Dirceu destrinça sua passagem pelo primeiro governo Lula. Nesta conversa por e-mail, Fernando Morais revela seu desejo de enfocar outra figura brasileira paradoxal: o médico baiano Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero.
OP - O incrível marechal Montenegro estava, desmerecidamente, no limbo. Aí vem você, com este belo livro sobre ele. Curioso é que saiu, quase no mesmo momento, outro livro sobre o personagem, assinado pelo Oziris Silva. Você viu?
Fernando Morais - É, eu também me surpreendi com o lançamento do outro livro, sem entender direito o que levou os autores a publicá-lo, já que pelo menos o coronel Ozires Silva sabia que eu estava escrevendo a biografia do Marechal Montenegro, por sugestão da família. Até que li, recentemente, uma resenha no site da Associação dos Ex-Alunos do ITA (http://www.aeitaonline.com.br/lerArtigo.php?ID=330
OP - O que fez você decidir escrever esta biografia?
Fernando Morais - O que me fez escrever este livro foi o personagem. Em um país com auto-estima tão baixa, foi um trabalho estimulante exumar um herói contemporâneo, de carne e osso. Um homem que sonhava o Brasil como potência aeronáutica 60 anos atrás, quando ainda importávamos penicos e bicicletas. Hoje o resultado de seu trabalho está aí, para quem quiser ver: o ITA, criado por Montenegro, é o maior centro de produção de tecnologia do país. E a Embraer, nascida de uma costela do ITA, é a terceira maior produtora mundial de aviões civis, perdendo apenas para duas potências, a Boeing e a AirBus. Mandei um exemplar para o presidente Lula e disse,brincando, que ele deveria obrigar seus ministros a lê-lo. Não porque foi escrito por mim, claro, mas porque retrata alguém que nos orgulha a todos de sermos brasileiros. E na verdade não sou só eu quem pensa isso, pois o livroestá aí, nas listas de mais vendidos.
OP - A vida do Montenegro, longa vida, acompanha os eventos mais importantesdo século 20. O fato de você ter escrito obras como Chatô ou Olga de alguma maneira encurtou algum caminho da pesquisa? Você guarda o material pesquisado? Ele serve depois para outros trabalhos? Você guarda como, em cadernetinhas, fitas cassete?
Fernando Morais - Eu guardo todo o material utilizado em minhas pesquisas. De A Ilha até Montenegro, está tudo armazenado em computador: entrevistas, depoimentos, documentos, ilustrações, tudo. Agora mesmo há um grupo de empresários pensando em criar um pequeno centro de pesquisas em Mariana, MG, onde nasci, onde todo esse material ficaria depositado e à disposição do público tanto fisicamente quanto por meio da Internet. Eu sinto especial atração pelo Brasil republicano, mas muito especialmente pelo período Vargas. Você haverá de notar que Olga, Chatô, Corações Sujos e Montenegro são livros ambientados mais ou menos na mesma época.
OP - Seu trabalho como escritor trafega entre o jornalismo e a literatura.Mas você se sente tentado ou, melhor, surge alguma ficção, algumahistória, a partir do personagem real? Como você lida com isto, estes desvios de rota? Uma figura como o Montenegro: a vida aventurosa, os amores... - às vezes, até parece um personagem de romance.
Fernando Morais - Mas esses ingredientes que você cita - e que a Folha de S. Paulo chamou de “o lado Indiana Jones do Montenegro” - contribuíram também, e de forma importante, para que eu me decidisse por escrever a história desse grande brasileiro. Não vejo porque mergulhar na ficção, com a riqueza da realidade que nos cerca. Há pelo menos vinte personagens e episódios da vida brasileira que dariam grandes livros, grandes filmes, e que estão aí para quem quiser pegar. Como dizia o inesquecível Darcy Ribeiro, o Brasil é ótimo, o que falta é gente pra contar isso. Em não-ficção.
OP - Que personagem histórico, mas não muito conhecido, você tem vontade de biografar?
Fernando Morais - São tantos... Uma vez, numa livraria de Nova York, vi dezenove biografias diferentes de Jacqueline Kennedy-Onassis. Dezenove! Aqui não temos uma boa biografia de Getúlio, de Jânio, do Padre Cícero. Há trabalhos bons, alguns muito acadêmicos, outro focados em um determinado período da vida dos personagens.
OP - Quais os percalços que você precisou superar, enquanto escrevia esta história? Como foi seu contato com os familiares do marechal? Especialmente com o filho mais velho e dona Antonietta.
Fernando Morais - No início houve um certo mal-estar entre um grupo pequeno de oficiais da FAB, ex-iteanos, que temiam que um autor “ligado a Fidel Castro, Hugo Chávez e Iasser Arafat” pudesse manipular a história de Montenegro, mas o resultado final parece ter posto uma pedra sobre o assunto. No lançamento do livro em Brasília havia onze altos oficiais da FAB presentes, todos extremamente cordiais. Com a família só tive satisfações, tanto dona Maria Antonietta, a viúva de Montenegro, como todos seus filhos foram extremamente colaborativos. Deram-me diários pessoais dele, fitas de vídeo gravadas em casa, com longos depoimentos do Marechal. Foi uma pena que seu primogênito, Fábio Montenegro, o maior entusiasta da biografia, não tivesse vivido para ver o livro pronto, pois faleceu de câncer em fevereiro do ano passado. É a ele que dedico o livro.
OP - Sobre o novo livro que você está escrevendo... Penso que muita gente deva estar torcendo o nariz para o Mago...
Fernando Morais - Quem torce o nariz para o Paulo Coelho são os críticos, não os leitores. Nelson Rodrigues dizia que a sorte dos dramaturgos é que a crítica não consegue levar nem uma bactéria aos teatros. Pelo jeito, nem às livrarias: enquanto a crítica chia, esperneia e range dentes, Paulo Coelho está chegando perto dos 100 milhões de livros vendidos, número jamais alcançado por qualquer outro brasileiro. A vida de Paulo Coelho é um presente para um biógrafo. A primeira metade é a tragédia: drogas, internações forçadas em hospícios, magia negra, sofrimento atrás de sofrimento. Depois vem o interlúdio roqueiro, a imortal experiência dele com Raul Seixas e Rita Lee.E, finalmente, o retorno à fé e a chegada do sucesso. Paulo Coelho hoje vende livros em países cujos nomes mal sabemos pronunciar. É lido por gente do povo e por chefes de estado dos países mais importantes, como Bill Clinton, Jacques Chirac, Shimon Peres, Vladimir Putin e Osni Mubarack. Jornalista que disser que não se interessa por um personagem como este deve mudar de profissão.
SERVIÇO
Montenegro - As Aventuras do Marechal que Revolucionou os Céus do Brasil - Mais novo livro de Fernando Morais, que lança a obra, publicada pela editora Planeta, e em seguida participa de debate com o público, no programa Literato, do Centro Cultural Banco do Nordeste. Nesta quarta-feira, às 19h, no cineteatro do CCBNB (rua Floriano Peixoto, 941 - 2º andar, Centro). Participação dos jornalistas Augusto César Costa e Socorro Acioli. O evento será gravado em DVD. Inf.: 3464.3108