Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Vida & Arte

ARTE BRASILEIRA

Sinal dos novos tempos

Juliana Girão
Especial para O POVO

A historiadora e crítica de arte paulista Aracy Amaral lança hoje, logo mais à noite, o livro Textos do Trópico de Capricórnio: artigos e ensaios (1980-2005) no Seminário Arte Pensamento Contemporâneo, na sede da Funcet. Nesta entrevista, a pesquisadora comenta as contradições da produção artística contemporânea brasileira e os possíveis caminhos dessa geração


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

26/02/2007 23:53

ARACY AMARAL, pesquisadora de arte contemporânea brasileira é autora de vários livros sobre o tema/ FOTO JUAN GUERRA/ DIVULGAÇÃO
ARACY AMARAL, pesquisadora de arte contemporânea brasileira é autora de vários livros sobre o tema/ FOTO JUAN GUERRA/ DIVULGAÇÃO

A historiadora e crítica de arte Aracy Amaral é um dos nomes mais respeitados da área de museologia no Brasil, cuja contribuição foi reconhecida em 2006 pelo prêmio Fundação Bunge (antigo prêmio Moinho Santista). Suas obras sobre o modernismo são clássicos de leitura obrigatória. Graduada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), mestre em História e doutora em História da Arte, pela Universidade de São Paulo (USP), Aracy foi diretora da Museu de Arte Contemporânea da USP (1982-86) e da Pinacoteca do Estado de São Paulo (1975-79). Publicou Blaise Cendrars no Brasil e os modernistas (1970), Artes plásticas na Semana de 22 (1970), Tarsila, sua obra e seu tempo (1975), A Hispanidade em São Paulo (1981, prêmio Jabuti de 1982) e Arte e meio artístico: entre a feijoada e o x-burger (1983). Professora titular aposentada de História da Arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU - USP), Aracy tem-se dedicado a estudar a arte brasileira e latino-americana.

A pesquisadora paulista tem encontro marcado com o público fortalezense hoje à noite, no Teatro Antonieta Noronha, integrando a programação do Seminário Arte Pensamento Contemporâneo da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza (Funcet). Na oportunidade, ela conversa sobre crítica de arte e lança o livro Textos do Trópico de Capricórnio: artigos e ensaios(1980 a 2005) (Editora 34). A publicação reúne 150 artigos, ensaios e entrevistas, realizados pela autora entre o início da década de 80 e 2005, em três volumes: Modernismo, arte moderna e o compromisso com o lugar, Circuitos de Arte na América Latina e no Brasil e Bienais e artistas contemporâneos no Brasil.

Nesta entrevista, concedida por e-mail, a pesquisadora comenta a produção artística contemporânea brasileira, a interlocução do País com o Primeiro Mundo e a (des)preocupação social dos artistas brasileiros diante do seu tempo. Segundo conta, artistas do Oriente Médio, Europa e Estados Unidos sentem-se afligidos com o mundo de hoje, enfocando as guerras, o racismo, o meio-ambiente, a violência. "Mas, curioso, o Brasil tem uma propensão para o sonho, para o alheamento da realidade cotidiana de uma forma poética [...] É o nosso perfil. E ninguém diz, vendo arte brasileira de hoje, que vivemos num país que vivencia uma guerra civil não declarada", avalia.

Feito antena parabólica de seu tempo, a pesquisadora questiona a inclinação da nova geração de artistas brasileiros para a especulação das novas "media" (vídeo, projeções, fotografias, cinema e pintura). "Pode ser um sinal dos tempos, a ênfase no efêmero, no trabalho precário com materiais descartáveis... Um sinal mesmo da sociedade de consumo regida pelo valor do dinheiro, e do descarte e obsolescência programada dentro da qual vivemos. [...] Que nem sabemos quanto tempo durará como tendência. Será que é mudança sem retorno? Me pergunto", observa. Quanto aos possíveis caminhos dessa nova safra de arte brasileira, a crítica de arte se diz sem respostas, mas aponta contradições. "Ele (o jovem artista) é conceitual ou trabalha dentro da precariedade em termos... Porque na verdade, de que vive esse artista? Dando aulas, fazendo camisetas, trabalhando em publicidade, artesanato, fazendo sites para outros?", indaga-se mais uma vez.

O POVO - A senhora aponta em seus livros para um divórcio do artista com a sociedade, a partir do século XIX, com a Revolução Industrial, que acabou despojando gradativamente a arte de uma função. No século XX, a polêmica marcante foi justamente entre aqueles a favor da integração do artista e daqueles recusando-se a aceitar uma perspectiva utilitária para a arte. "Fazer arte parece ter-se tornado um diletantismo que confere status a quem a pratica", constatava a senhora, no livro Arte para Quê (Nobel, 1984). Nesse início de século XXI, esse dilema das relações do artista com a sociedade e da (des)função da arte continua vivo?
Aracy Amaral - Fazer arte é uma "necessidade vital de expressão" e só como tal se justifica. Do contrário, pode ser uma forma de sensibilidade poética, ou artesanato, ou atividade lúdica, sem maiores transcendências. Acho positiva toda atividade artística, seja ela teatral, musical, visual. É uma tendência natural do homem, em qualquer tempo: é uma forma de expor sua fantasia, seu sonho, sua personalidade. E independe de idade ou nível cultural. Reflete antes uma vocação. Agora se o que a pessoa faz tem valor "artístico" ou que permaneça, é outra história. O importante é ela se expressar. Nessa linha, vemos que há formas de expressão utilitárias e outras que não o são.

OP- Entre os anos 30 e 70, verificou-se no Brasil uma preocupação social por parte dos artistas, muito influenciados pela revolução soviética, pelas agitações sociais na Era Vargas e pelo muralismo Mexicano, refletindo-se em suas criações plásticas. Com o "milagre brasileiro", as produções artísticas ficaram cada vez mais individualistas, voltadas para a especulação visual, seja no campo experimental ou no mercado. Dentro da contemporaneidade, que posturas os artistas brasileiros têm tomado diante de seu tempo?
Aracy - Na verdade, vemos hoje muitos artistas, principalmente na Europa, Estados Unidos e Oriente Médio afetados, afligidos, digamos assim, com o mundo de hoje, e expressando visualmente essa preocupação em seus trabalhos, vídeos, etc. Vejo então um enfoque do meio-ambiente, de guerras, de racismo, migrações, violência, muito mais do que vejo no Brasil de hoje (claro que estou ciente do trabalho de uma Rosana Palazian, Rosangela Rennó, por exemplo, artistas que admiro muito). Mas, curioso, o Brasil tem uma propensão para o sonho, para o alheamento da realidade cotidiana de uma forma poética (Rivane Neuenschwander, por exemplo) do que de uma maneira mais incisiva. Tudo bem. É o nosso perfil. E ninguém diz, vendo arte brasileira de hoje, que vivemos num país que vivencia uma guerra civil não declarada, com uma quantidade de civis morrendo de forma violenta mais que no Oriente Médio (e longe, muito longe, da Colômbia). Pode-se dizer também, e é certo, que o artista brasileiro não percebe a tragédia da educação neste país, a problemática insolúvel (?) da droga, da ausência de planejamento governamental num país tão vasto como o nosso, onde vivemos de improvisações. Claro, que ao artista cabe fazer arte. Mas queiramos ou não, a arte também se torna hoje em dia internacionalmente uma visão antropológica do mundo, e estamos dentro desse universo nós também.

OP - No texto Arte Brasileira: Real e Ficção, disponível na Internet, a senhora comenta a produção artística do Brasil no mundo e fala do preconceito do Primeiro Mundo com a produção artística de países da África, Ásia e América Latina, comumente vista pelos críticos de arte e marchands como política e exótica. Nesse sentido, o Brasil continua distante da interlocução com o Primeiro Mundo? O que é produzido aqui permanece ignorado? Que artistas brasileiros tem conseguido visibilidade internacional hoje?
Aracy - Realmente, eu acho que são relativamente raros os artistas brasileiros realmente "globais", reconhecidos internacionalmente. Hoje em dia Oiticica e Ligia Clark o são, graças a um critico como o britânico Guy Brett. Cildo Meireles também é sem dúvida alvo de reconhecimento, assim como Ernesto Neto. E quem mais? Não é porque uma Tate Modern adquire em Londres uma obra de artista brasileiro que isso significa que ele é conhecido internacionalmente. Pode sê-lo em meios de estudos latino-americanos, como em certa universidade da Inglaterra, ou nos Estados Unidos, em Austin, Houston, ou em Paris pela direção da Maison de l´Amérique Latine, em Paris. Mas é limitado o alcance de artistas brasileiros ou sua possibilidade de penetração. Um Vik Muniz é excepcional, pois ele desenvolveu sua carreira fora, se formou fora, praticamente, tendo deixado no meio sua formação na FAAP em São Paulo, para viver em Nova York, onde, ele mesmo conta, começou de baixo.

OP - A senhora foi coordenadora do projeto Rumos Itaú Cultural Artes Visuais 2005-2006, intitulada Paradoxos Brasil, que procurava exibir um retrato da arte contemporânea no Brasil. Na época, a senhora comentou que a seleção espelhava as contradições de uma geração que, mesmo sendo nova no mercado local e não dispondo de obras ainda totalmente maduras, já se aventura em exposições internacionais, integrada "ao nomadismo globalizante que hoje em dia povoa currículos de artistas que ainda nem têm 35 anos". Qual seria então esse retrato brasileiro? Que vertentes, que inquietações, que contradições?
Aracy
- Eu acredito que os artistas brasileiros, principalmente os da nova geração, se inclinam muito pela especulação de novas "media" (vídeo, som, projeções, fotografias, cinema, instalações) procurando se desapegar de formas tradicionais como o desenho, a gravura e a pintura. Pode ser um sinal dos tempos, a ênfase no efêmero, no trabalho precário com materiais descartáveis... Um sinal mesmo da sociedade de consumo regida pelo valor do dinheiro, e do descarte e obsolescência programada dentro da qual vivemos. Afinal, em nosso mundo de hoje tudo parece fadado a ter breve existência, e assim até a violência se torna um lugar comum para os que não refletem sobre isso, pois mesmo a banalização da vida e do sexo indicam uma alteração grave de valores morais. Que nem sabemos quanto tempo durará como tendência. Será que é mudança sem retorno? Me pergunto.

OP - Diante disso, que perspectiva se pode vislumbrar na arte contemporânea brasileira? Que movimentos artísticos? Para onde vamos e aonde podemos chegar?
Aracy - Talvez como conseqüência vemos que a direção que as novas gerações de artistas tomam, de realizar trabalhos conceituais e/ou precários aparentemente sem pretensões comerciais é também contraditória, pois, na verdade, mesmo o jovem artista quando pensa em sua trajetória para a frente e não como um instante, aspira a ter suas obras em museus e/ou galerias, ser convidado para eventos, poder possuir um currículo, ser alvo um dia de um livro sobre seu percurso, etc. Assim, ele é conceitual ou trabalha dentro da precariedade em termos... Porque na verdade, de que vive esse artista? Dando aulas, fazendo camisetas, trabalhando em publicidade, artesanato, fazendo sites para outros? Tudo bem, a vida é difícil em particular para artistas, mas esta é uma solução ainda difícil de encontrar. Pois não vivemos em pais como a Holanda, que dá uma mesada para artistas se manterem, como o faziam paises socialistas... Sem resposta esta questão.

OP - O que a senhora conhece da produção artística cearense? A senhora poderia comentar?
Aracy - Acho que já disse, por ocasião de Rumos, do Itaú-Cultural, que dois Estados se sobressaíram do penúltimo Rumos para este de 2005-2006 : Santa Catarina e Ceará. Porque terá ocorrido essa animação ou intensificação em seus meios artísticos? Claro que no caso de Fortaleza, a existência de um Centro Cultural como o Dragão do Mar desempenhou um papel importante na articulação de vários grupos em Fortaleza, assim como Cristiana Tejo assinalou com interesse a existência de vários centros diversificados de cidades no Estado sulino : como Tubarão, Joinville, Blumenau, alem de Florianópolis. Mas o Ceará já possui, por certo, dois artistas no século XX que pertencem à historiografia da arte brasileira de nosso tempo: Antonio Bandeira e Sérvulo Esmeraldo. Ambos, curiosamente, com uma parte significativa de sua produção realizada na França. E com trânsito nacional. Daí porque essa animação atual do panorama cearense não se constituir em algo excepcional, porém, continuidade de um meio artístico que se preza e se auto-valoriza.


SERVIÇO
Lançamento do livro Textos do Trópico de Capricórnio: artigos e ensaios (1980-2005), de Aracy A. Amaral, dentro do Seminário Arte Pensamento Contemporâneo da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza. O livro está disponível em três volumes. Cada exemplar custa R$ 42 e será vendido com 20% de desconto. Hoje (27), a partir das 19 horas, no Teatro Antonieta Noronha, na sede da Funcet (Rua Pereira Filgueiras, 04 - Centro) Informações: 3226-0838 e 3253-7879.


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato