Juliana Girão
Especial para O POVO
O filme de terror Turistas, dirigido por John Stockwell, tem causado polêmica ao mostrar um grupo de jovens estrangeiros vítimas de tráfico de órgãos em terras brasileiras. Para comentar esse olhar estrangeiro, o Vida & Arte convidou o agente de turismo e professor universitário Gerson Linhares a uma sessão de cinema
23/02/2007 01:52

Rídiculo. Talvez seja essa a palavra que melhor define o filme de terror Turistas, dirigido por John Stockwell (de Uma Onda Perfeita e Blue Crush), que anda gerando frisson pelos cinemas do País ao apresentar um Brasil de exploração sexual, drogas, violência e tráfico de órgãos. A polêmica ganhou força quando o programa Fantástico, da Rede Globo, exibiu matéria longa apontando o impacto negativo que filme poderia causar no turismo brasileiro. Produção independente da 2929 Entretenimento e de baixo orçamemto para os padrões hollywoodianos, em torno de US$ 10 milhões, o filme teve os direitos de distribuição comprados pela Fox Atomic, da Fox, o mesmo estúdio que polemizou ao mandar a família Simpson para o Rio de Janeiro, em meio a macacos e ratos nas ruas e uma população sexualmente agressiva. Um trecho da animação está disponível no You Tube (http://www.youtube.com/watch?v=2XIn599GAmk).
Desta vez, um grupo de três turistas americanos viaja num ônibus nas proximidades do Rio de Janeiro quando o motorista, grosseiro e mal educado, entra numa discussão, perde o controle do veículo e - a tempo de todos os passageiros escaparem - cai numa ribanceira. Diante de um ônibus aos pedaços, os jovens mochileiros, Alex (Josh Duhamel), sua irmã Bea (Olivia Wilde) e sua melhor amiga Amy (Beau Garrett), fazem amizade com Finn (Desmond Askew) e Laim (Max Brown), dois ingleses sedentos por sexo, diga-se; e Pru (Melissa George), uma australiana que fala português fluente. Eles decidem descer até a praia mais próxima e aproveitar a noite por lá. O cenário é paradisíaco, as mulheres lindas e semi-nuas, a caiprinha boa e barata e a música "safada", como comenta a australiana sobre o funk carioca.
A noitada tropical termina quando os estrangeiros caem no golpe "Boa Noite, Cinderela", amanhecem atordoados na beira do mar e descobrem que foram roubados. Lá os estrangeiros azarados acabam vítimas de uma quadrilha de tráfico de órgãos, liderada pelo esdrúxulo Zamora (Miguel Lunardi), que pretende doar os órgãos dos turistas aos hospitais públicos do Rio de Janeiro, como forma de combater o imperialismo norte americano. Diante de tanta bizarrice, até que ponto pode-se levar a sério essa imagem negativa construída pelo filme?
O professor universitário e agente de turismo Gerson Linhares mostrou-se surpreso com a banalização das mazelas sociais brasileiras e as distorções que o filme constrói em cima disso. "Só reforça a imagem do Brasil como o destino da coisa ilícita, da prostituição, da jogatina, da lavagem de dinheiro", diz. Para ele a visão do Brasil construída no filme é exatamente aquela dos turistas, especialmente de sexo masculino e solteiro, em busca de sexo. "Já aqueles turistas que viajam em família ou o da melhor idade têm outra imagem do país. Eles vêem o Brasil como um país de belezas naturais", garante. "O filme mostra um Brasil que eu até desconhecia, nesse assunto de transplante de órgãos. O que a gente ouve falar é brasileiro sendo explorado pelo estrangeiro e não o contrário", argumenta.
Apesar dos exageros do filme, Linhares admite que, em parte, o filme mostra a realidade, no que diz respeito ao turismo desinformado e mal planejado. "O Brasil ainda não está preparado para o turismo internacional por conta de uma série de fatores: a problemática social, a criminalidade, a falta de educação e a falta de uma política pública comprometida com os verdadeiros interesses do povo", diz. Entre as cenas destacadas pelo professor como próximas da realidade, está a da caipirinha, quando o americano Alex pede para não colocar gelo na bebida, temeroso de ser acometido por uma disenteria. "Já aconteceu comigo um caso parecido. Estava com um grupo de estrangeiros no Museu da Cachaça e um deles se negou a experimentar um caldo de cana. Eles vêm com receio de tomar água e também coisas processadas", conta..
Quanto a repercussão do filme para o turismo internacional no País, o agente não demonstrou tanto temor, "já que o filme é um besteirol". Mas ele explica que a atividade do turismo é retrátil, quer dizer, o fluxo turístico costuma se retrair diante de calamidades, questões sociais, entre outros fatos negativos. "Que vai ter repercussão vai, só não sei dimensionar o quanto", diz. "Nós somos um destino turístico em potencial e o país vem engatinhando no incentivo à cultura e ao meio ambiente. São duas vertentes que poderiam ser trabalhadas. Se continuar do jeito que está, a gente vai matar a galinha dos ovos de ouro", completa.
Classificado como gênero de terror, o filme, produzido pelo brasileiro (pasmem!), radicado há 11 anos em Los Angeles, Raul Guterres, dá direito a cenas de corpos abertos em mesa cirúrgica, órgãos vivos, olhos furados, dedos dilacerados etc etc. Mesmo com todo esse banho de sangue, o filme não deve agradar aos fãs do gênero. O roteiro assinado por Michael Arlen Ross é confuso e sem sentido, as atuações são pífias (reparem nos figurantes mal pagos), as falas ainda piores e as cenas pouco criativas e sem continuidade. O filme é de um mau gosto sem fim.
Há ainda uma série de equívocos e clichês mais que batidos. O ônibus que leva os turistas é absurdamente ultrapassado, uma espécie de floresta repleta de cachoeiras e mosquitos fica ao lado da cidade e ainda o vilão traficante de órgãos se diz "dono" de um índio e garante que rouba órgãos de americanos para doar aos hospitais públicos do Rio de Janeiro. Os estereótipos da mulata folgosa, das praias exóticas, dos biquínis, do carnaval, do samba, do futebol e da terra de ninguém, dos sem-lei (em uma das cenas, os estrangeiros procuram polícia e não encontram. Um deles questiona: "Para que ir até os policiais? Eles são piores que os bandidos" ou ainda como explica o trailer "Parece o paraíso. Mas em um país em que tudo vale... tudo pode acontecer"). Desta vez, o filme tripudia das inegáveis mazelas sociais brasileiras (trabalho infantil, prostituição, violência, corrupção), mas é tão pobre e tão sem argumento que torna-se desnecessário tanto ti-ti-ti em torno do impacto negativo que possa causar. Talvez o filme nem seja tão rídiculo. Rículo seja o país sentir-se atingido com tamanha baboseira. Turistas não passa de uma piada de mau gosto.