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NA PRAÇA

Arte bruta

Quebra-Coco, Faísca e Chucky dividem as atenções do público, disposto em roda no meio da praça José de Alencar. Eles são alguns dos muitos artistas mambembes que ganham a vida exibindo suas habilidades, em troca de poucas moedas

Eleuda de Carvalho
da Redação

23 Fev 2007 - 01h52min

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FOTO PATRÍCIA ARAÚJO
É um circo mínimo. Nem lona, nem picadeiro, só a platéia de curiosos, em círculo, e no meio da roda o artista mambembe. Domingo, na Beira Mar, do Náutico em direção ao Mucuripe, três ajuntamentos, apupos, aplausos, a gaiatice no mundo - bem cearense, e os olhos espantados dos turistas. Em ação, o sarado Quebra-Coco, fazendo jus ao apelido. Adiante, pintado de tinta prateada, um tufo de cabelos crespos escapando da faixa na cabeça, facas enfiadas nas narinas, o Faísca está em ação. Enquanto isso, de nariz falso vermelho, peruca e calções bufantes, o palhaço Colorau espera a vez de entrar em cena. Durante a semana, os artistas de rua batem ponto na praça do Ferreira e na José de Alencar. Ao lado da herma em homenagem ao autor de Iracema, plenas quatro da tarde de uma terça-feira nublada, o show está começando.

“Agora vou endoidar! Você, não tenha medo não”, diz o Quebra-Coco, enquanto descasca um coco verde no dente. Adverte a fotógrafa, “ó, pra não molhar a lente... É 1, é 2, é três”, e fura o coco com o dedo em riste. “Quer que eu faça outro número? Adoro uma câmera...”, diz o artista, a roda aumenta, o burburinho. “Vou quebrar no pé, tá?”, e parte mais um fruto sobre o pé encaliçado. “O que vou fazer agora é perigoso. Vou abrir estes seis cocos no ar”, adverte, não sem antes rondar a platéia, até agora sem dar nenhum agrado. “Uma moeda não vai quebrar ninguém. O que vale é a sua consciência, fique à vontade. Se você só tem o dinheiro do ônibus, me dê”. O povo acha graça.

Finda a apresentação, Quebra-Coco agradece, “que Deus abençoe a todos”, pede “uma salva de palmas pra Jesus Cristo” e conta o apurado. Moedinhas somadas, dez reais. Edson Wagner, 38, o Quebra-Coco, é carateca. “Comecei de brincadeira, tem 16 anos. Observei os colegas, como eles ganhavam a vida na rua... Rapaz, é difícil, tem que ter força e coragem. Este do pé, comecei ontem. Chego em casa, passo uma pomada, um creme, fica tudo ok”, explica ele, fora da roda, enquanto a turma se ajunta adiante, para o próximo show. “Estive no Faustão, tô louco pra ir de novo, com outros números diferentes”, diz, e vai enumerando os programas de tevê por onde andou, o do Luciano Huck, mais de uma vez, o do Ratinho, do Márcio Garcia...

Ele quebra garrafas no braço, 60 telhas em menos de 30 segundos, pilha de tijolos, entorta barra de ferro. “Puxo um carro no maxilar, um carro popular, com cinco pessoas dentro. Deus é que me fortalece em tudo. Deus é maravilhoso. Sou uma máquina de Deus”. Quebra-Coco costuma fazer sua arte além da capital, em Sobral, Maranguape, Baturité, Redenção. Domingo de dia, feira da Messejana. À noite, é a vez da Beira Mar. Com sua exibição de força, cria os dois filhos, um de 13, Felipe, e o bebê Edson. “A dificuldade é pra todos”, reflete. Reparo as mãos dele, tantos calos, calombos. Como você supera a dor? Ele pensa um pouco. Diz: “A dor que sinto mais, vou ser sincero. É quando vejo um jovem tirar a vida de um pai de família. Detesto este negócio de violência”.


O ARO DE FACAS, O FOGO
Mal a roda se desfez aqui, outra se forma adiante. A platéia - vendedores ambulantes, meninos curiosos, trabalhadores, donas de casa que vêm das compras - torna a fechar o círculo para o próximo espetáculo.

Faísca é João Filho, natural do Tocantins, 33 anos. Magro, miúdo, o corpo tisnado de prata, o tufo de cabelos crespos escapolindo da faixa acima das orelhas, os olhos enraivecidos - faz parte do personagem. “Tá com três anos que tô por aqui”, diz ele, que já rodou meio Brasil . Ele mora ali pelo Centro mesmo com a mulher e dois filhos, um de cinco anos, outro de sete meses. “Meu sonho é montar meu próprio circo, desde os dez anos tenho este sonho”.

João Filho ‘Faísca’ vai enumerando suas habilidades. “Mastigo e engulo garrafa, enfio 18 facas no nariz, passo 150 metros de sacola pelo nariz e tiro pela boca. Sou trapezista também”. Aí ele faz os números iniciais, revira os olhos, vai enfiando as facas narinas adentro, nove em cada uma; engole um caco de vidro deste tamanho, como é que pode? Agora, vem o número mais ousado. Dois caras da platéia seguram o aro velho, rodeado de facas, por onde o artista vai saltar. Um palmo, pra ele espremer o corpo miúdo, “arriscando a vida”.

Faísca escorrega entre o aro, depois passa o chapéu. “Só pela coragem de passar no meio das facas, isso não é pra qualquer um”. É pouco, o que ele consegue. Faísca não desanima. “Eu digo que dá pra se manter da arte”, diz ele, que também faz seu show na Beira Mar e na feira de Messejana. “Ninguém faz o que faço. No Brasil, ninguém, não tenho concorrência, só eu”.

Outro circo se faz, agora com dois artistas em cena. No chão, os apetrechos necessários, um prato com chumacinhos de algodão, dois bastões, uma garrafinha de querosene, cacos de vidro dispostos sobre um pedaço de pano - o material do Chucky. Para o Reginaldo, que retesa os músculos e faz caretas horríveis, bastam estes cocos no chão. Francisco Reginaldo de Melo, o Reginaldo, é “o homem mais bonito da praça José de Alencar”, diz um gaiato. “Abre a roda, vou quebrar no chute”, avisa Reginaldo, depois de fazer, a pedidos, 30 apoios de frente. “-Este cara é um animal, discípulo do Quebra-Coco”, fala outro. Reginaldo faz seu show, mais algumas caretas, estraçalha os cocos no ar.

“Faço duo mortal, equilíbrio e engulo fogo”, enumera Francisco Eduardo Barros Costa, o Chucky, que foi artista de circo durante muitos anos. Magrinho, tatuagens pelo torso nu, ele acende as tochas, o fogo vai lambendo sua pele, ele parece não sentir coisa nenhuma. Com uma das tochas, acende os chumacinhos de algodão que estão no prato de ágata. “Agora vai merendar”, fala um engraçadinho. Depois, deita-se sobre o vidro, pede que subam nele. Um sobe, Chucky diz que é leve demais, manda um rapaz forte pisar em suas costas, de costelinhas de fora. “Assim você espoca ele”, a voz preocupada de mulher. “Que é que este vidro tem, que não fura?”, pergunta o velho incrédulo. E assim a tarde vai passando, animada, neste circo de meio de rua.

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