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Vida & Arte

MEMÓRIA

A gênese do Brasil moderno

Regina Ribeiro
da Redação

Há 85 anos, o Teatro Municipal de São Paulo realizava a Semana de Arte Moderna. O movimento foi uma explosão das crises social e de identidade nacional que artistas e intelectuais decidiram expor pela literatura, pintura, música


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15/02/2007 02:10

MÁRIO de Andrade, escritor,  um dos mais importantes realizadores da Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922/ FOTO DIVULGAÇÃO
MÁRIO de Andrade, escritor, um dos mais importantes realizadores da Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922/ FOTO DIVULGAÇÃO

"É todo um passado agradável, que não ficou nada feio, mas que me assombra um pouco também. Como tive coragem de participar daquela batalha! É certo que com minhas experiências artísticas muito que venho escandalizando a intelectualidade do meu País, porém expostas em livros e artigos, como que essas experiências não se realizam 'in anima nobile´. Não estou de corpo presente, e isto abranda o choque da estupidez". Esse relato do escritor Mário de Andrade aconteceu em 1942, durante as comemorações dos 20 anos Semana de Arte Moderna. Quem esteve no encontro do escritor na Biblioteca do Itamarati, em 30 de abril de 1942, dá conta de um Mário surpreso. Surpreso com o passado, com o impacto do movimento-recebido com louvação e gritos de horror - que tomou conta do Teatro Municipal de São Paulo. Na realidade, jovens, todos eles, pintores, escritores, músicos, intelectuais que, no período de 11 a 18 de fevereiro de 1922, levantaram a bandeira de um modernismo que o Brasil recebeu meio acordado, meio dormindo. Modernidade era tudo o que o País, ao completar um centenário de independência política queria e talvez, por isso mesmo, olhava para além mar e copiava os modos alheios. Os artistas modernistas, no entanto, falavam de um outro modernismo. Queriam um moderno que olhasse para as entranhas do Brasil. Foi um alvoroço. Brasil dividido. Depois, artistas apontando em direções opostas no núcleo do movimento. Mas isso já foi a história que se seguiu.

Oitenta e cinco anos depois, o movimento modernista em torno do qual Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Heitor Vila Lobos, e outros conceberam e deram à luz espichou-se pela história brasileira percorrendo a cultura, a economia, a política e definiu os rumos do discurso em torno da modernidade no País. Para o professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Milton Lahuerta, a explosão de uma crise estabelecida no País no início do século XX explodiu na Semana da Arte Moderna. E Mário de Andrade foi o anunciador desse movimento, afirma ele. Em entrevista ao O POVO, Lahuerta comenta as conseqüências da década de 20 para o País e como o "moderno" se mantêm uma constante na elaboração do discurso político e cultural no Brasil.


O POVO - Quais os elementos que tornaram os anos 20 a gênese do Brasil moderno como o senhor defende?
Milton Lahuerta - Nos anos 20 se explicita plenamente o caráter excludente da ordem republicana e ganha força um novo ângulo para se pensar o país. A decepção quanto à expectativa de que a República significaria a realização do ideal de progresso e o advento de uma sociedade nova adquiria uma dimensão explosiva (presença de greves operárias, movimentos da jovem oficialidade militar reivindicando representação e justiça, surgimento do Partido Comunista, Semana de Arte Moderna em São Paulo, etc.). Além disso, ampliava-se o dissídio que opunha as regiões mais tradicionais da federação à articulação oligárquica hegemônica em torno dos interesses de São Paulo e Minas Gerais. De modo que não apenas as concepções consagradas e os comportamentos políticos eram objeto de crítica, mas as próprias instituições republicanas - identificadas com o artificialismo de uma legalidade sem correspondência no "país real" - seriam fortemente questionadas com a elevação do "pathos" de ruptura e com a emergência de novos atores que colocam o tema da participação e dos direitos no cerne da crise oligárquica.

OP - Para o senhor, a crise da República oligárquica e a decepção com o novo regime político foram um marco desse tempo. Mas o próprio Machado de Assis - de forma mais discreta, é verdade -; Euclides da Cunha, Lima Barreto - de forma muito mais incisiva - já sinalizavam com uma abordagem dessa crise e decepção, mesmo antes dos anos 20. Qual a participação desses e de outros intelectuais no prenúncio dessa crise?
Lahuerta - A idéia de que os anos 20 representam a gênese do Brasil moderno deve ser entendida com precisão. É evidente que a insatisfação com a República era um sentimento crescente não apenas entre aqueles cujos direitos mínimos de cidadania não eram reconhecidos (o que caracterizava uma situação paradoxal, já que tínhamos uma República sem cidadãos), mas também entre setores das próprias elites oligárquicas. Intelectuais como os citados na pergunta, sem dúvida, tiveram participação importante no reconhecimento dessa crise; porém, de certo modo, foram vozes isoladas no cenário político e cultural de seu tempo. Nos anos 20, há um salto de qualidade no caráter de ruptura - política e cultural - com a ordem vigente, já que a perspectiva de mudança se espraia por todos os setores sociais. Para o que contribui decisivamente a comemoração dos cem anos da independência do país, em 1922. É nesse sentido que afirmo que os anos 20 representam a gênese do Brasil moderno.

OP - Em seu trabalho, Os intelectuais e dos Anos 20: Moderno Modernista e Modernização, o senhor mostra a teia de ambigüidades que cerca o projeto modernista brasileiro. Como o senhor explicaria esse processo e quais as conseqüências dele para a concepção de um Brasil moderno que se seguiu nas décadas seguintes?
Lahuerta - A grande ambigüidade do modernismo brasileiro está na forma absolutamente específica como suas principais manifestações lidam com a tradição. Há no movimento - especialmente em Mário de Andrade - uma preocupação em constituir uma cultura brasileira nacional, utilizando-se dos fragmentos de cultura popular autêntica (mas não nacional), que eram encontrados principalmente no Norte e no Nordeste do país. Essa idéia, de que o moderno no Brasil era algo a ser construído e que sua construção se daria através do estabelecimento de uma cultura nacional de base popular, permanece como uma referência fortíssima para a produção cultural das décadas seguintes.

OP - Pode-se dizer que o ideal modernizante, surgido do início do século no Brasil, o acompanhou em todo o século XX e início desde novo século? Nesse período tivemos o choque industrializante dos anos 50; o projeto desenvolvimentista em curso durante a ditadura militar; os choques econômicos dos anos 80; o neoliberalismo e a abertura da economia que teve início na década de 90.
Lahuerta - Sem dúvida. Se há um traço que marca a experiência brasileira no século XX é a presença simultânea de um intenso processo de modernização e de um baixíssimo compromisso com as instituições democráticas. Para além dos momentos doutrinária e explicitamente marcados por regimes políticos discricionários (1937-1945) (1964-1985), há relativo consenso na bibliografia que a história do Brasil, ainda que com exclusão das massas, é fortemente marcada por esse ideal modernizante. De certo modo, a idéia de modernidade (muitas vezes confundida com modernização) se estabeleceu como uma espécie de dogma na cultura brasileira, impondo o culto do novo como um valor quase inquestionável no âmbito do senso comum da sociedade.

OP - Quais as conseqüências, no campo cultural e político, de o Estado brasileiro ter tomado para si a tarefa de realização da obra de construção de uma Nação moderna e civilizada?
Lahuerta - A principal conseqüência de o Estado, após 1930, ter tomado para si a exigência de renovação da sociedade e a tarefa de construção da nação pode ser notada pela centralização e aparelhamento do poder público. Ao longo dos anos 30, o Estado, sem servir diretamente a um setor específico da classe dominante, faz o papel de "capitalista" mais avançado. De tal modo que a primazia da indústria e da industrialização se dá a partir de um impulso estatal que se confunde com o projeto moderno e o associa ao ideal de construção da nação. Ou seja, o protagonismo do Estado é revelador de um projeto, autoritário e modernizador, que busca consenso na sociedade, chamando-a para participar do processo e oferecendo-lhe a possibilidade de realizar a fusão de modernidade e projeto nacional. Desse modo, o desenvolvimento capitalista é concebido como uma obra de caráter público, favorecendo, nos anos 50 e 60, o florescimento de ideologias integrativas voltadas para a realização de projetos de fundo nacional popular de desenvolvimento. É por isso que a herança dos anos 30 se projeta na história futura do país.

OP - O senhor mostra ainda em seu trabalho que o escritor-intelectual envolvido no processo de modernização proposto - e imposto - no País a partir dos anos 30, escrevia para os iguais, ou seja, para um público restrito e fazia assim para elevar o "nível dos poucos leitores". Pode-se dizer que, até hoje, a grande massa da população brasileira desconhece as discussões em torno de um Brasil moderno?
Lahuerta - Essa é uma questão difícil, já que desde 1945 cresceu a preocupação de aproximar intelectuais e povo (o que pode ser notado por movimentos como os CPCs da UNE) como forma de realizar os ideais modernos presentes nos anos 20 e que haviam ficado subordinados à lógica estatal nos anos 30. A modernização imposta pelo regime militar, após 1964, diferentemente do que havia ocorrido na ditadura dos anos 30, não tinha como projeto nem afirmar uma comunidade nacional com características próprias, nem muito menos a preocupação de mobilizar os intelectuais nessa obra. Seu objetivo era essencialmente o de acelerar o processo de acumulação capitalista, com a conseqüência de ampliar a presença do mundo privado e reduzir a importância da esfera pública. Tal esvaziamento da idéia de interesse público, de interesse nacional, talvez explique porque no contexto democrático posterior a 1985 a grande massa da população brasileira tenha se afastado de qualquer preocupação com a construção de um projeto moderno para o Brasil.

OP - Tomando como base a auto-crítica feita por Mário de Andrade sobre o movimento modernista, no tocante ao afastamento do movimento do povo, podemos dizer que há uma ausência de auto-crítica dos intelectuais brasileiros da atualidade?
Lahuerta - Não creio que o problema possa ser entendido apenas como decorrendo de uma ausência de autocrítica dos intelectuais brasileiros. Nas três últimas décadas vivenciamos um processo real de emergência da dimensão privada na sociedade brasileira que reduziu muito a possibilidade de os intelectuais se pensarem como demiurgos de um projeto nacional. A especialização e a profissionalização crescentes, expressas pelo processo de institucionalização universitária, são indicadores de que cada vez há menos espaço para uma aproximação entre intelectuais e povo. Fenômeno que só foi aprofundado pelo chamado processo de globalização e pelo esvaziamento da idéia de nação. A única similaridade que vejo entre a atualidade e os anos 20 diz respeito, exatamente, ao esgotamento de um padrão produtivo e à emergência de novas formas de relacionamento entre economia, política e cultura. Hoje, inclusive, é até difícil falar-se em intelectuais, já que vivemos sob a égide da especialização e da crise da idéia de projeto nacional.

OP - Desde os anos 90, talvez um pouco antes, a modernidade, enquanto movimento de estabelecimento da técnica e da ciência como parâmetro para a vida humana tem recebido críticas de teóricos como Anthony Giddens, Alain Touraine, entre outros. É possível fazer essa crítica num país como o Brasil dotado de tantas desigualdades que o torno um caldeirão onde o moderno convive de forma tão próxima de práticas feudais e escravistas?
Lahuerta - Esse é o grande paradoxo do Brasil desde sempre. Somos e não somos contemporâneos do presente moderno. Conforme já se dizia nos anos 50, vivemos uma espécie de "contemporaneidade do não coetâneo". Ou seja, diferentemente do que muitas vezes se pensa em nosso país, não se trata de seguirmos passivamente uma agenda modernizadora, com a esperança de que um dia atingiremos o ideal de modernidade ocidental. Talvez, o grande desafio esteja em pensar nosso país e suas mazelas não exatamente como decorrentes de uma condição "atrasada" que será superada pela modernização, mas sim como expressão de uma modernidade específica, periférica, que em seus problemas antecipa questões que serão vivenciadas em algum momento pelos países considerados desenvolvidos.


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