Carol do Vale
Especial para O POVO
Isabel Marques e Fabio Brazil ministram, de hoje até quarta-feira, seminário e oficina abordando Arte e Educação. Ela, bailarina e pedagoga, ele, poeta e professor de Literatura, são os fundadores da Caleidos Arte e Ensino, em São Paulo
12/02/2007 01:42

Você consegue lembrar das aulas de Educação Artística na escola? De que forma o que você aprendeu nessas aulas influencia, até hoje, sua relação com a arte? Essas são, para a bailarina e pedagoga paulistana Isabel Marques, algumas perguntas que todos devem se fazer para iniciar a reflexão sobre o ensino da arte que vem sendo praticado no Brasil. Ela, ao lado do poeta e professor de Literatura e História da Arte, Fábio Brazil, vem a Fortaleza para ministrar o seminário Arte em Questões e a oficina Dança, Ensino e Sociedade: uma metodologia de ensino, promovidos pelo Centro Dragão do Mar, de hoje, 12, até quarta-feira.
As respostas mais freqüentes a essas perguntas têm sido, simplesmente, "nada" ou "de forma nenhuma", afirma Isabel, que é autora dos livros Ensino de Dança Hoje e Dançando na Escola. Sinal de que ainda há um grande vazio entre os conteúdos transmitidos na escola e as experiências cotidianas com a arte e a cultura. O efeito, muitas vezes, é contrário, em vez de aproximar, distancia. Segundo Isabel, para tentar desfazer a idéia de que estudar arte é chato, difícil, enfadonho, os professores costumam buscar saídas fáceis: "Na educação infantil, o ensino de arte está muitas vezes restrito à recreação. Para fazer sucesso entre os alunos, os professores colocam as crianças para dançar igual aos Rebeldes, ou a Xuxa", afirma. Os modismos da indústria cultural são, sim, assunto para o ensino da arte. "Porém, numa perspectiva crítica, e não de cópia, de reprodução", completa.
Atrelar o divertimento ao conhecimento é o que vem tentando a Caleidos Arte e Ensino, instituição dirigida por Isabel e Fábio, em São Paulo. O espaço promove cursos, palestras, espetáculos e presta consultoria a escolas. No local, funcionam também a Caleidos Cia. de Dança e Caleidos Cia. de Professores, grupo montado com professores de escolas públicas. "Nós pensamos a arte como um viés diferente de interpretação de mundo, assim como há o viés da Matemática, da Física, da História. O ensino da arte nas escola deve buscar estimular um diálogo crítico com a sociedade", explica Isabel.
Perspectiva que, segundo ela, ainda está bem distante da realidade das escolas. "Nós ainda estamos num estágio primário, estamos discutindo o se: se deve ou não ter ensino de arte nas escolas, se vai ter aula de dança, se vai ter aula de poesia. Deveríamos, como em outros países, estar já discutindo o como: como abordar melhor esses conteúdos, como dar uma formação consistente para os alunos", afirma. A deficiência das políticas públicas cultural e educacional - e a ausência de uma ponte entre as duas - no Brasil, é apontada como uma das causas do "atraso".
Se nas escolas tradicionais, o ensino de arte míngua, é levantado como bandeira de boa parte das organizações não-governamentais. Muitas vezes, porém, estas dão à arte atribuições de caráter exclusivamente social. "Se uma criança deixa de estar num sinal, ou de estar fazendo assaltos, para estar numa aula de dança, é claro que isso é uma coisa boa. Mas a arte não pode ser só isso. O que a menina que canta no coral ou imita os passos da professora de ballet vai trazer de transformação para o meio social em que ela está?", questiona.
Descobrir talentos, Isabel argumenta, não deve ser o objetivo principal dessas instituições. "De que adianta você descobrir um talento e levar para estudar na Europa, por exemplo? Para aquele indivíduo muda muita coisa, mas o que muda para os que ficam? Em vez de serem reencaixados em sistemas prontos, deviam ser estimulados a criar novos sistemas", defende. Sem generalizar, ela alfineta: "Muitas vezes as ONG's funcionam como uma forma que o artista tem para sobreviver. O que precisamos ter é políticas públicas que dêem condições para que os artistas consigam seus próprios meios, sem que precisem recorrer ao ensino como única saída, muitas vezes sem preparo nenhuum".
Essas questões ganham hoje maior relevância. A arte contemporânea coloca novos desafios para as escolas e professores. "É preciso conhecer a história da arte, o seu percurso, para entendermos o momento atual. Senão, o discurso que vai imperar é de que tudo isso não passa de uma chatice, que não faz sentindo algum. O conhecimento ajuda a fruição", conclui.
SERVIÇO
Oficina Dança, Ensino e Sociedade: uma metodologia de ensino. Com Isabel Marques. De 12 a 14 de fevereiro, das 13 às 16 horas, na Academia Vera Passos (Rua José Vilar, 2707 - Meireles - 3224.3963).Seminário Arte em questões. Com Isabel Marques e Fábio Brazil. De 12 a 14 de fevereiro, das 19 às 22 horas, no Auditório do Centro Dragão do Mar. Gratuito. Vagas limitadas. Informações: 3488.8600.