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Pesquisador do frevo e folião de carteirinha, o pernambucano Júlio Vila Nova acaba de lançar o livro Panorama de Folião: o Carnaval de Pernambuco na Voz dos Blocos Líricos, em que investiga a importância das letras dos frevos-de-bloco para a criação de uma identidade cultural pernambucana
10 Fev 2007 - 15h07min
O autor defende a tese de que o frevo-de-bloco é um gênero fortemente marcado, em suas letras, pelo desenvolvimento de estratégias discursivas próprias da linguagem da propaganda, exaltando os valores da cultura pernambucana. Além de pesquisador, Julio Vila Nova é também folião de carteirinha.
Fundador do Bloco Carnavalesco Lírico Cordas e Retalhos, ele falou, em entrevista ao O POVO por e-mail, de seu otimismo com o atual momento vivido pelo frevo, com a adesão de novos compositores e a conquista de um público jovem. (Carol do Vale, especial para O POVO)
O POVO - O senhor acaba de lançar o livro Panorama de Folião: o Carnaval de Pernambuco na Voz dos Blocos Líricos. Gostaria que explicasse o que caracteriza um bloco lírico e em quê ele se diferencia dos demais blocos do Carnaval pernambucano.
Júlio Vila Nova - Para identificar os blocos, é preciso distinguir as outras agremiações do Carnaval de Pernambuco, já que existe a tendência a usar o nome "bloco" de maneira muito abrangente, como se faz na Bahia, por exemplo, com os agrupamentos de foliões que pagam caro para acompanhar os trios elétricos. Em relação ao frevo, temos em Pernambuco os clubes, as troças e os blocos. Esses, inicialmente se chamavam Blocos Carnavalescos Mistos, pelo fato de abrirem espaço para a participação feminina. O carnaval de rua do Recife no começo do século XX era palco de forte rivalidade entre os defensores das primeiras bandas militares, que executavam o frevo, e essa rivalidade não raro descambava para a violência. De modo geral, a participação feminina no Carnaval se dava nos salões dos clubes sociais, o que custava bem caro. Assim, o bloco misto é responsável por esse importante dado sociológico do Carnaval do Recife: o início da efetiva participação da mulher (sobretudo da classe média) no Carnaval de rua, acompanhada pelos maridos, irmãos, pais, namorados e amigos, que formavam então as orquestras, popularmente denominadas de "orquestras de pau-e-corda", devido ao predomínio de instrumentos de cordas (violões, cavaquinhos, banjos, bandolins) e de sopro leves (flautas, clarinetes, saxofones). A música executada pelos blocos é o frevo-de-bloco (ou marcha-de-bloco, como preferem alguns) e ela é bem distinta do frevo-de-rua, instrumental, de andamento rápido. O frevo-de-bloco nasceu a partir de influências das manifestações natalinas do Pastoril e dos Ranchos de Reis, além da música dos saraus e serenatas promovidos pelas famílias dos bairros centrais do Recife, em princípios do século XX, e configurou-se como música de caráter sentimental, profundamente lírico. Com a evolução social, a mulher ocupando todos os espaços na vida cotidiana, perdeu um pouco o sentido a denominação "misto" (ainda mantida por várias agremiações). Sobretudo a partir dos anos 90, passou-se a denominar os blocos de "Blocos Carnavalescos Líricos".
OP - Dos primeiros blocos, quais permanecem até hoje? Eles mantêm as mesmas características?
Júlio Vila Nova - Alguns dos blocos mais antigos ainda atuantes são o Bloco das Flores, o Batutas de São José, o Madeira do Rosarinho, o Banhistas do Pina, o Pirilampos de Tejipió e o Flor da Lira do Recife, dentre outros. Eles integram o que chamamos de primeira geração dos blocos líricos. Ainda há uma segunda geração, impulsionada pelo surgimento do Bloco da Saudade (1974), formada, por exemplo, pelos Pierrots de São José, Flor da Lira de Olinda e Bloco das Ilusões. Uma terceira geração surge com os blocos Eu Quero Mais, Nem Sempre Lily Toca Flauta, Aurora de Amor, Olinda Quero Cantar e, mais recentemente, o Cordas e Retalhos, o Flor da Vitória-Regia, Confete e Serpentina, Alvorada dos Clarins, Bloco Esperança, Bloco da Amizade, Paraquedista Real, Um Bloco em Poesia, Me Apaixonei por Você, Com Você no Coração, dentre outros. Pode-se registrar como marco histórico dessa geração a criação do Encontro de Blocos (evento já consagrado no calendário da cidade, realizado no Recife Antigo, na segunda-feira de Carnaval), cuja primeira edição ocorreu em 1992. Basicamente, todos mantêm as mesmas características: orquestra de pau-e-corda e coral feminino entoando as canções, desfilantes fantasiados segundo um tema definido. Nesse ponto, a nova geração parece ter se aprimorado, porque a maioria dos blocos contrata figurinistas e equipe especializada para a confecção de sua indumentária.
OP - O senhor divide os blocos em três gerações. Quais foram, ao longo da história, os momentos de auge e de crise desses blocos?
Julio Vila Nova - Até os anos 30, os blocos existiam em número considerável, pelos bairros centrais e também pela periferia da cidade. A partir daí, e até o final dos anos 60, o período é marcado pelo desaparecimento de muitas agremiações, num momento em que o próprio Carnaval de rua perdia um pouco do seu brilho, as pessoas então preferindo os salões dos clubes sociais. Em homenagem a mais de vinte blocos extintos, o compositor Edgard Moraes (1904-1973) escreveu Valores do Passado, que vem a se tornar o hino do Bloco da Saudade, fundado em 1974 em homenagem ao próprio Edgard. Podemos considerar que o período iniciado a partir do Encontro de Blocos (1992) tem sido de grande revigoramento dessa manifestação carnavalesca. Desde então, praticamente todos os anos registra-se a fundação de novos blocos, inclusive de cidades da região metropolitana do Recife e do interior, a exemplo dos blocos Sintazul (Paulista-PE), Flor do Eucalipto (Moreno-PE) e Linda Flor da Mata (Paudalho-PE).
OP - Esses novos blocos têm trazido renovações significativas para o frevo?
Julio Vila Nova - Podemos considerar que a principal renovação dos blocos está no seu público admirador e participante. Nos eventos chamados de "acertos-de-marcha" (ensaios abertos das agremiações), verifica-se a presença de grande número de jovens, o que tem contribuído para se rever a posição de que o bloco é uma manifestação essencialmente voltada para o passado, formada por pessoas de idade mais avançada. Há, inclusive, blocos formados apenas por crianças, como o Eu Quero Maizinho e o Sonho e Fantasia. Outra grande renovação diz respeito à produção musical dos blocos, quase todos já tendo registrado suas próprias composições em CD ou DVD. Todo ano, o mercado local é abastecido com lançamentos das agremiações ou dos próprios compositores de Frevo-de-bloco.
OP - As letras dos frevos fazem referência, freqüentemente, ao Carnaval, a Recife, a Olinda. Até que ponto essas letras ajudaram (e ajudam) a moldar uma identidade cultural pernambucana?
Julio Vila Nova - Sem dúvida, o Frevo-de-bloco tem contribuído de maneira decisiva para a reafirmação da identidade cultural pernambucana, através da manifestação popular mais importante do país, que é o carnaval. Costumou-se associar o Frevo-de-bloco unicamente à temática da saudade, sobretudo devido à obra do genial Edgard Moraes e ao papel importantíssimo do Bloco da Saudade, como uma espécie de reinaugurador da tradição. A saudade é, de fato, tema inerente à própria vivência do folião durante os dias de festa, antecipando a melancolia anunciada pela quarta-feira. No entanto, sobretudo na produção mais recente, as canções têm se desenvolvido a partir de outros eixos temáticos, e aí nos deparamos com letras elaboradas a partir de recursos típicos da linguagem da propaganda. Há, por exemplo, o emprego de verbos, adjetivos e advérbios que convidam o folião a participar e se deleitar com a festa; a descrição poética de paisagens das cidades (sobretudo Recife e Olinda), a exaltação a personalidades da nossa história.
OP - Essa forte auto-referencialidade das composições dificultou a expansão do frevo para outros estados do País?
Julio Vila Nova - Não creio que a dificuldade de propagação do Frevo-de-bloco (como aliás, das outras modalidades do Frevo, de rua e canção) se deva a essa auto-referencialidade a que você alude. Tanto é que os dois frevos-de-bloco que alcançaram maior sucesso nacional são composições elaboradas a partir de inúmeras referências locais. A primeira, de Nelson Ferreira (Evocação nº1, de 1957), foi a música de carnaval mais tocada do Brasil, segundo vários registros ("Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê teus blocos famosos ?..."). A outra, de João Santiago (Sabe Lá o que é Isso), teve algumas regravações importantes, como a de Martinho da Vila e Banda de Pau e Corda, nos anos 70 ("eu quero entrar na folia, meu bem, você sabe lá o que é isso? / Batutas de São José, isso é, parece que tem feitiço..."). O problema está mesmo nos esquemas de divulgação das rádios, sobretudo as FMs que têm programação pré-definida por interesses comerciais a partir do sudeste. Aqui, somente a Rádio Universitária FM, vinculada À UFPE, tem programação dedicada ao frevo. Na televisão, mesmo as emissoras locais estão rendidas aos modismos e à apelação do brega e do forró estilizado, em que proliferam bandas de qualidade sofrível, com forte apelo sexual. Ainda assim, nomes como Antônio Carlos Nóbrega, Alceu Valença e o maestro Spok têm ocupado espaços midiáticos, aqui e ali, com música de qualidade.
OP - Além de "música regional", outro estigma que o frevo carrega é o de "música sazonal", restrita ao período do Carnaval. Como o senhor acredita que esses estigmas podem ser superados?
Julio Vila Nova - A falta de espaço para a divulgação de nossa música a nível nacional tem impedido que o grande público tenha acesso, ao longo do ano inteiro, à produção de novos artistas que têm imprimido suas marcas ao Frevo, com releituras muito interessantes. Torcemos, porém, para que essa barreira se quebre aos poucos (e é um trabalho de resistência mesmo!), para que o Brasil conheça, além desses artistas já citados, o trabalho da Oquestra Popular da Bomba do Hemetério, do Grupo Sa Grama, dos bandolinistas Beto do Bandolim e Marco Cezar, de Walmir Chagas, de Edson Rodrigues, Bráulio de Castro, Romero Amorim e outros. São todos frevistas que fazem um trabalho para se ouvir o ano inteiro.
OP- Na sua opinião, qual o papel do frevo da música brasileira?
Julio Vila Nova - Acho que o Frevo tem potencial para engatilhar uma revolução na música brasileira, pela sua energia e vibração, pela riqueza de sua elaboração técnica, propícia ao improviso e à recriação constante. É uma música tão fundamental quanto o choro, por exemplo, embora guarde peculiaridades ainda mais salutares. Basta lembrar que o Frevo também é dança, das mais completas. E é uma música que pode ser potencializada, conjugada com outros ritmos, expandida para outras linguagens. Em síntese, é Mário de Andrade quem diz: "A vibração paroxística do frevo é realmente uma coisa assombrosa. É, enfim, um verdadeiro allegro num presto nacional. É, sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca mais dionisíaca da nossa música nacional."
OP - Falando um pouco do processo de produção do seu livro. Em que momento o frevo se tornou objeto de estudo?
Julio Vila Nova - O livro nasceu de minha dissertação de Mestrado em, Lingüística pela UFPE, intitulada Panorama de Folião: cultura e persuasão no discurso do Frevo-de-Bloco e defendida em junho/2006. Como professor de línguas, sempre me interessou a riqueza da canção popular como fonte de estudos para a compreensão de nossa cultura e da identidade brasileira. Nessa perspectiva, então, o Frevo-de-bloco se apresentou como objeto de estudo sedutor, pela própria riqueza dos discursos aí elaborados. Parti então da hipótese de que as letras do Frevo-de Bloco são elaboradas com base no discurso persuasivo que marca a linguagem da propaganda.
OP- Dentre os muitos compositores que você pesquisou, quais lhe chamaram mais atenção?
Julio Vila Nova - Dos compositores recentes, impressiona a qualidade da obra de Bráulio de Castro e Fátima de Castro, Edson Rodrigues, Romero Amorim, Getúlio Cavalcanti e Heleno Ramalho. Mas o interessante é que pude comprovar minha hipótese mesmo entre os da velha guarda, muitos já falecidos, como Edgard e Raul Moraes, João Santiago, Luiz Faustino e Luiz de França.
SERVIÇO
O livro Panorama de Folião: o Carnaval de Pernambuco na Voz dos Blocos Líricos estará à venda na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br) e pode ser encomendado diretamento ao autor, através do e-mail juliovilanova@ig.com.br
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12/03/2009
16:53
Como apreciadora do carnaval pernambucano, gostei muito deste saite, principalmente, por ter conhecimento do livro do Júlio Vilanova. Vou tentar adquirir o livro dele. Inez.
Maria Inez Matoso Silveira
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