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Vida & Arte

Violino. E por que não?


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10/02/2007 15:07

Antônio Nóbrega: músico (Banco de dados)
Antônio Nóbrega: músico (Banco de dados)


Quem também conseguiu trazer para o frevo um time de figurões da MPB foi Antonio Carlos Nóbrega, em seu segundo disco inteiramente dedicado ao gênero, Nove de Frevereiro - Volume 2 (o nome é uma brincadeira com a data oficial do centenário do frevo). Na faixa chamada Florilégio (termo que ele prefere ao estrangeiro pout-pourri)estão reunidos nomes como Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Claudionor Germano, Ná Ozzetti, Silvério Pessoa, entre outros. Eles interpretam uma série de frevos-canção, indo de Dia azul (Capiba) a Evocação (Nelson Ferreira).

Além desta, outras 15 faixas compõem o disco, mais autoral e diversificado que o primeiro, Nove de Frevereiro - Volume 1, lançado em 2006. Do frevo, o Nóbrega extrai o máximo: explora todas as modalidades do gênero (frevo-de-rua, frevo-canção e frevo de bloco), reúne compositores de diferentes épocas e estilos, compõe novas músicas, experimenta arranjos e orquestrações as mais diversas. Faz ouvidos desatentos surpreenderem o frevo onde nem imaginavam. Seu violino, inseparável, está lá. Por que não? "Eu trago renovação para o gênero quando eu uso o violino para tocar frevo. Ou quando eu incluo a música Melodia Sentimental, de Heitor Villa-Lobos, no repertório", afirma.

Nas letras dos frevos, vai além dos temas mais recorrentes, como Carnaval, Recife, Olinda. "É uma tentativa de dar uma abrangência maior ao frevo. Assim como acontece em outros gêneros, como o samba, que é muito auto-recorrente, mas que também enseja para que se fale de qualquer outro assunto", afirma. Esse redirecionamento do frevo é fruto de escolhas pessoais, em que a sensibilidade é determinante. "Não é a direção melhor nem a pior, nem a certa ou a errada, muitos artistas podem optar por outros caminhos, mas essa é a que eu escolhi", conclui.

A liberdade com que trata o assunto é justificada pela trajetória do artista. Nascido em Recife, em 1952, teve formação erudita: estudou violino clássico e canto lírico. Até ser visto por Ariano Suassuna, executando um concerto de Bach, em 1971. Foi então convidado a integrar o Quinteto Armorial - braço musical do movimento criado por Ariano, que preconizava a criação de uma música de câmara erudita com base em referências populares. A partir daí, movido pelo encanto com as artes dos homens do povo e por uma curiosidade intensa, vem pesquisando as manifestações culturais brasileiras. Dentre elas, sim, já estava o frevo.

Em sua carreira solo, que inicia em 1976, o gênero musical pernambucano vai ganhando ainda mais espaço. Em todos os cinco primeiros discos (anteriores ao Nove de Frevereiro) o frevo está presente, recriado, reinventado, imerso no caldeirão fervilhante da cultura brasileira. O centenário do frevo foi o motivo que faltava para pôr em prática o desejo antigo de dedicar um disco inteiro ao gênero. Desejo que, como tudo em Nóbrega, ganhou dimensões maiores: não um disco, mas dois, que também resultaram em espetáculos, e ainda vão desaguar em um DVD, oficinas de dança e música e encontros com compositores, a serem realizados em São Paulo e Recife.

Comumente chamado homem-espetáculo, cada disco ou apresentação de Nóbrega é uma experiência multisensorial: o artista transita pelos diversos campos da cultura popular, cantando, dançando, brincando, rabequeando, contando histórias, interpretando, com desenvoltura e habilidade impressionantes. "O frevo casou muito bem com essa minha característica de artista, de criador. Porque ele é multidisciplinar, me deu muitas possibilidades". Utilizando todo o universo rítmico, cênico e cultural que envolve o frevo, o artista (re)cria seu próprio corpo, em conexão direta com a vida. E tudo o que nela "frevilha". (CdV)

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