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Vida & Arte

CENTENÁRIO

Vai frever!

Carol do Vale
Especial para O POVO

Ao atingir a marca de gênero musical centenário, o frevo mostra que ainda caminha com passos firmes e grande habilidade. Diversos artistas brasileiros fazem incursões no ritmo nascido nas ruas de Recife, Pernambuco, em meio à euforia das folias carnavalescas


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10/02/2007 15:07

(Foto: Roberta Braga)
(Foto: Roberta Braga)

Dia 9 de fevereiro, o frevo completou 100 anos de existência, e de resistência. A data oficial toma por base o primeiro registro do termo encontrado na imprensa. Bem antes, porém, uma multidão já lotava as estreitas ruas de Recife, no período do carnaval, aos gritos de "Vai frever!", corruptela do verbo ferver, que deu origem à palavra. De lá para cá, frevo deixou de significar apenas esse movimento de euforia coletiva, dando nome a um gênero musical definido, formado pela mistura entre elementos das marchas, dobrados, maxixes e polcas. Ao período de auge, nas três primeiras décadas do século XX, seguiram-se momentos de decadência, em que chegou a ser tachado de coisa do passado, dos antigos. Tentativas de retomada vieram, de tempos em tempos, com algum sucesso. Agora, atravessando o século, parece acertar o passo, usando mil e um malabarismos para ganhar maior espaço no cenário da música brasileira.

Com a aproximação do centenário, poder público e diversos artistas organizaram ações comemorativas, buscando tirar do esquecimento compositores tradicionais e abrir espaço para a renovação do gênero. A Prefeitura de Recife, que concentrou as comemorações oficiais, promove durante o mês apresentações de orquestras, concurso de música carnavalesca, lançamento de livro e CD'S, além de enfeitar a cidade com protótipos de passistas, feitos por artistas plásticos em fibra de vidro. Esperam, com isso, atrair um público recorde para o Carnaval deste ano.

Outras iniciativas foram além do período carnavalesco e cruzaram as fronteiras pernambucanas. O multiartista Antônio Nóbrega saiu na frente, e antecipou em um ano o lançamento do seu disco Nove de Frevereiro, que logo deu origem também a um espetáculo. Com ele, percorreu vários estados do País, durante todo o ano. Em janeiro de 2007, lançou o segundo volume do disco, incluindo um número maior de compositores, passeando pelos diversos tipos de frevo, e atraindo conceituados intérpretes da música brasileira para seu projeto. E não pára por aí. Já estão previstas a gravação de um DVD, em março, e a realização de oficinas em São Paulo e Recife.

A SpokFrevo Orquestra também percorreu o País com seu Passo de Anjo, conquistando platéias diversas, dando um tratamento jazzistico ao frevo, abrindo espaço para improvisos e solos dos instrumentistas. Silvério Pessoa, ex-integrante da banda Cascabulho, fez sua incursão pelo gênero, no CD Batidas Urbanas - Projeto Micróbio do Frevo, em que revisita a obra carnavalesca de Jackson do Pandeiro nas décadas de 50 e 60.

Daí o frevo estar sendo apontado como um dos gêneros da música popular brasileira em expansão, que deve contaminar, no melhor sentido, o pop, o rock, a música instrumental. O pesquisador Júlio Vila Nova, autor do livro Panorama de Folião: o Carnaval de Pernambuco na voz dos Blocos Líricos, é um dos que defendem a tese. Para ele, o frevo tem potencial para causar uma revolução na música brasileira. A adesão de jovens músicos, a conquista de novos públicos e o surgimento, a cada ano, de mais blocos carnavalescos mostram, para ele, que está no caminho certo.

Apesar do ânimo, ainda são muitas as queixas de artistas e pesquisadores quanto à dificuldade para ter acesso a composições e informações sobre o frevo. A resistência de grande parte das rádios, inclusive pernambucanas, em incluir o gênero no seu repertório; o descaso das gravadoras, que possuem acervos de grandes compositores e mantêm fora de catálogo; a falta de institutos de pesquisa que documentem a história do frevo. Eis algumas dificuldades para uma maior disseminação do frevo pelo País.

Obstáculos que, para serem driblados, só mesmo com a habilidade de grandes passistas, como afirma o pesquisador Leonardo Dantas, autor do Carnaval do Recife: "Carecendo de uma política de divulgação e conscientização da sua importância, musical e coreográfica, o frevo, mesmo assim, resistirá às mudanças de costumes por ser uma manifestação única - no sentido musical e coreográfico - diferente de tudo que se criou no panorama cultural brasileiro".

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