Antônio Carlos Nóbrega e SpokFrevo Orquestra fazem turnê pelo País, com seus espetáculos Nove de Frevereiro e Passo de Anjo, respectivamente. Fazem releituras de músicas consagradas e ampliam o repertório do gênero com novas composições
10/02/2007 15:07

Dois nomes têm sido apontados como os principais responsáveis pela renovação e maior visibilidade nacional dada ao frevo nos últimos anos. São eles: Maestro Spok, no comando da SpokFrevo Orquestra, e Antônio Carlos Nóbrega, que há muito tem se dedicado à pesquisa das mais diversas manifestações culturais brasileiras. Seus últimos discos - Passo de Anjo, do primeiro, e Nove de Frevereiro - Volumes 1 e 2, do segundo - conseguiram um grande feito, quase inédito na história do frevo, que talvez só tenha sido alcançado por Alceu Valença e Moraes Moreira: superar o estigma de música "regional" e "sazonal", tocando frevo o ano inteiro, para platéias de diversos estados do País. Os dois conversaram com O POVO, por telefone, no intervalo entre ensaios e apresentações em Recife, que a essa altura já "freve".
Inaldo Cavalcante de Albuquerque, o maestro Spok, de 36 anos, nasceu em Igarassu e começou a trajetória musical aos 12 anos, por influência, principalmente, do tio e do primo, saxofonistas, como ele viria a se tornar. Formado no Centro de Criatividade Musical de Recife, participou como músico convidado das bandas de ícones da música popular brasileira: Fagner, Alceu Valença, Antônio Carlos Nóbrega, Elba Ramalho, Naná Vasconcelos, Sivuca. Em 1996, montou, junto com outros 18 talentosos músicos, a Orquestra de Frevo de Recife, formada para acompanhar shows da turnê Na Pancada do Ganzá, de Antônio Nóbrega.
Em 2003, o grupo ressurge com o atual nome, SpokFrevo Orquestra, incrementando frevos tradicionais com novos arranjos e abrindo espaço para solos dos instrumentistas e improvisações, com clara influência jazzística, ou, como ele mesmo resume, "tocando com liberdade de expressão". Sobre as afinidades entre frevo e jazz, o maestro explica: "Para mim, o jazz deixou de ser americano há muito tempo. Então eu uso a expressão jazzístico no sentido de uma música feita com liberdade de expressão, com improvisação. Se você faz um forró com liberdade de expressão, então ele é jazzístico. Mas quem toca na Orquestra são músicos pernambucanos, que são influenciados por músicas do mundo inteiro, mas que de forma alguma querem perder sua alma, que é de Pernambuco".
O primeiro disco da Orquestra, Passo de Anjo, foi lançado em 2004. Apresentando repertório de frevo-de-rua (todo instrumental), traz releituras de obras de tradicionais compositores do gênero, como Levino Ferreira e os maestros Duda e Clovis Pereira, e de gênios da "música universal nordestina", Sivuca e Hermeto Pascoal, além de novas composições. Do disco, nasceu o espetáculo, que tem percorrido todo o País (com algumas excursões internacionais).
Saindo (provisoriamente) da rua para ocupar palcos de teatros, tocando para platéias sentadas, olhos e ouvidos atentos à performance de cada músico, ele defende que o frevo não é música apenas para ser dançada, é também para ser apreciada: "Na rua, a intenção principal é animar, então não é para ter muita atenção mesmo, porque o sentido maior, que é de diversão, se perderia. É diferente de quando nós estamos num palco, num teatro, um lugar fechado, nós estamos tocando para as pessoas apreciarem a música, prestarem atenção em cada instrumento, nas improvisações", afirma.
Em cada espetáculo, a Orquestra ensina o bê-a-bá do frevo a um Brasil que tão pouco, e mal, se conhece. "O espetáculo tem uma grande preocupação didática, principalmente porque o nosso País ainda desconhece o frevo". Para quem assiste, é surpreendente ver a riqueza do gênero, inclusive com um extenso vocabulário, nomeando estilos e passos. "As pessoas gostam muito de receber esse tipo de informação, elas ficam muito surpresas com a riqueza da nossa música", avalia.
Um novo passo que acaba de ser dado para que o Brasil possa conhecer melhor esse gênero musical é o cd duplo 100 anos de frevo. É de perder o sapato, lançado no dia 9 de fevereiro, numa parceria entre a Prefeitura de Recife e o Selo Biscoito Fino. São dois discos, um deles dedicado ao frevo-de-rua, inteiramente instrumental, e outro de frevos cantados, que contou com a participação de um time formado por alguns dos maiores intérpretes da Música Popular Brasileira. Maria Bethânia, Maria Rita, Gilberto Gil, Luis Melodia, Lenine, Silvério Pessoa, Vanessa da Mata, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Ney Matogrosso, Antônio Nóbrega, Claudionor Germano, e outros. A SpokFrevo Orquestra, responsável pelos arranjos, executa também as músicas, botando essa gente toda pra frevar. (Carol do Vale, especial para O POVO)
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