Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Vida & Arte

MÚSICA

Para lembrar quando for ouvir jazz

Valdo Siqueira
Especial para O POVO

O videomaker Waldo Siqueira passeia pelas trilhas do jazz mostrando aos amantes e iniciantes do gênero como esse estilo musical atravessou o século XX e chegou ao século XXI envolvendo sua longevidade numa rica história


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

09/02/2007 01:09

CHARLIE Parker se destaca nos jazz dos anos 40 nos Estados Unidos, berço do gênero que correu o mundo
CHARLIE Parker se destaca nos jazz dos anos 40 nos Estados Unidos, berço do gênero que correu o mundo

De tempos em tempos ouvimos teóricos tentando tatear alguma legitimidade na cultura norte-americana no que diz respeito à sua originalidade, caracteres identitários, realmente originais. Quase sempre se recruta da música, especificamente no jazz, um traço consensual, sobre o qual recai a responsabilidade de ser legítimo representante de tal cultura. Não por coincidência, e a despeito de toda a pressão que a hegemônica indústria americana impõe aos meios de comunicação de todo o mundo, se percebe que esse gênero musical não se encontra massificado. Ao contrário e à margem, subsiste ante os modismos, o que, de fato, surpreende tais teóricos.

Para além de toda compreensão, esse estranhamento parece ser sinal vital de uma trajetória histórica de coerência, onde o contraponto é parada obrigatória. Um caminho como condiz a essa música, onde letra e paisagem não se repetem nunca, mesmo que sejam refrão. No jazz, transgressão significa pulsão, sempre bem vinda, é um fenômeno de vitalidade mental e criativa que se inicia no século XIX, travessa todo o XX e adentra o XXI com o mesmo fôlego. Para merecer essa avaliação em tamanha longevidade, sempre se tem exigido um retrospecto à sua rica história de ruptura com o continuum.

Subjaz de suas raízes blueseiras, misturadas ao canto gospel e também à tradição européia, uma enorme flexibilidade, que pode fazer encontrar numa esquina, instituições formais escolásticas e a "sapientia populi". Prediz, por assim dizer, a necessidade da contradição, que numa época dessa o poetinha não quis que fosse dito. Se forma ele, jazz, positivo na contradição, crônico em antagonismo, um gênero de múltiplas perspectivas, onde cada esquina-paradoxo é também sua própria afirmação. O termo "jazz" demorou a aparecer, dizem uns que pelas mãos de Scott Joplin, pianista que se auto-proclama como "fundador e pai do jazz". Não é bem assim. Ora, se até hoje não é possível defini-la, essa música em constante conflito de identidade, herança crítica de tantos predecessores, pior é admitir que se tenha marcado um lugar e hora para acontecer sua fundação, muito menos, apenas um músico como seu criador. O fenômeno jazz surgiu, isso está provado, em vários lugares ao mesmo período, embora saibamos que frutificou mais rápido em New Orleans, onde costuma-se atribuir como verdadeiro berço. Já se podia sentir um som estranho, calcado no piano, carregado de influências múltiplas, em pelo menos três cidades americanas. Quem se deparasse desavisadamente com o jazz pelo caminho nessa época, talvez, à maneira do público à frente das primeiras telas impressionistas (que por lançarem traços despojados de contornos e cromatismo), só podia interpretar o quanto era algo novo e estranho. Amplo e estrito, unívoco e equívoco, o que não podia ser visto na tela nem dito na onda dessa nova sonoridade.

A plenos pulmões, o sopro jazzístico cruzava uma fronteira secular, desafiando a si mesmo, mudando de lugar o tempo todo, ora em Nolins, ora em Chicago ou em Kansas. Diz-se Ragtime ao primeiro estilo jazzístico, este enfraquecido pela solidão do piano. Não por coincidência, é da mesma época em que se funda uma nova arte: o cinema. Este jazz é aquele que alimenta a ainda silente sala escura. Com a chegada dos outros instrumentos formaram-se os chamados combos, que demarcavam a alegre entrada dos blocos carnavalescos nessas cidades, como também acompanhavam os cortejos fúnebres dos desvalidos. Mas, como o jazz lançava suas bases e as detonava à medida que cresciam, criaram-se áreas de tensão entre os lugares, em busca de maior reconhecimento, o que acabou naturalmente fazendo surgir vários novos estilos: New Orleans, Dixieland, Chicago etc. Até chegar ao Swing, talvez um dos maiores fenômenos musicais do século passado, anterior ao rock and roll, quando as Big Bands tornaram o som inteiro partícipe do estilo. Ele se torna extremamente popular em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, nos anos 30, quando o fenômeno radiofônico dominava a comunicação. Antídoto ao escorregadio fluxo mercadológico que dominou este período, o nervoso Bebop do saxofonista Charlie Parker e do tropetista Dizzy Gillespie se oxigena nos 40, criando anticorpos ao jazz de salão, tentado ao óbvio. Se inicia um período negro, à margem do senso comum e no centro das atenções de quem estivesse aberto ao que era ainda mais novo. Os músicos dessa época viravam objeto de adoração por alguns e de repúdio por outros tantos, tamanha era a diferença entre o que tocavam e pregavam. A tensão constante entre tradição e novidade se dá por toda a história jazzística, mas teve nesse momento um marco mais profundo. O bebop valoriza a subjetividade, não como nas Big Bands, mas não a subjetividade irresponsável e individualista, ao contrário, estimula o diálogo entre os poucos músicos. O jazz já era extremamente aberto ao improviso, mas aqui se determina à potência máxima. A fórmula: Jazz = mais notas por segundo. Improvisar era procurar um texto escondido que se conhece pouco, para mostrar aos outros. Ele é seu, tanto quanto é dos outros. Isso vira um jogo, eu te apresento a mim e você me apresenta a ti.

Como se o horizonte à frente se deslocasse junto conosco, à maneira nietzscheana, nesse meio de tamanha inconstância, aparece uma das personalidades mais fundamentais para a toda a história da música, não somente o jazz: Miles Davis.

Contrapondo a si mesmo, músico surgido dentro do bebop, Miles desafia os mitos hedonistas e libidinais de Bird para fundar um simbólico silêncio: o Cool Jazz. A nossa bossa nova surge no Brasil muito pela contribuição do cool, inclusive, mais especificamente pela voz macia de Chet Baker.

Músico mais limitado do que Parker, Miles propala sua primeira sentença com a rascante voz rouca: less is more. A partir daí, nada mais soaria longe das ordens de Davis, até sua morte no final da década de 80. Miles é capítulo à parte. Poucos músicos revolucionariam a música tão fortemente quanto ele. Assim, o imaginário poema é a metáfora da palavra que não se necessita dizer, simplesmente se ouve, como se um inconsciente se tornasse linguagem, uma gramática de sons suaves escapavam da tablatura nervosa de Charlie Parker. Enquanto também se funda o West Coast, Miles vai gestando novas ondas na década de 50, fundindo jazz com tudo o que encontrava pela frente. Ele cria o elemento para depois isolá-lo, gerando e diluindo todas as instituições míticas no novo estilismo jazzístico, participou do Free Jazz, criou o Jazz Rock e o Acid Jazz. Repudiando o conformismo e o culto ao academicismo europeu, percorre o caminho forçoso a aspirar um futuro que nunca chega, à última nota.

Cheio de herdeiros, hoje o jazz parece ser mais um impasse, um período de aquecimento indispensável para que uma nova fase se funde, subjacente ou superposto aos dramas da sociedade americana atual, indicado por uma nova atitude ambiental. Disposto a desobedecer regras, ele nos lega, no que de melhor se faz no presente, a capacidade de antever os caminhos estéticos para a música. Como narrado em Walter Benjamin, um pássaro de sonho que choca os ovos da experiência.


VALDO SIQUEIRA, videomaker, produziu e apresentou, junto com José Lemenhe e Henilton Menezes, o Programa de Jazz na FM Universitária. valdosiqueira@gmail.com


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato