Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Vida & Arte

ENTREVISTA

Realidade e ficção

Ao lado de João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Veríssimo e Carlos Heitor Cony, o gaúcho Moacyr Scliar faz parte do seleto grupo de cronistas que ainda colaboram para jornal no Brasil. Em entrevista ao O POVO por e-mail, Scliar fala sobre o gênero que o instigou a conciliar o real com o imaginário


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

03/02/2007 14:18


Em 1974, o escritor gaúcho Moacyr Scliar escreveu sua primeira crônica em jornal, no Zero Hora, de Porto Alegre. A princípio, Scliar encarou o ofício de cronista apenas como espaço para escrever "cartas" para os amigos. Aos poucos, ele começou a aprender que criar crônicas para jornal significa ser objetivo, conciso e, sobretudo, atento ao que se passa ao redor. "Trata-se da necessidade de vincular-se à realidade imediata, cotidiana, tentando entendê-la e tentando dar-lhe um sentido através desta forma literária", afirma.

A atividade instigou Scliar a colaborar em outros grandes veículos da mídia impressa, como Folha de São Paulo, onde a partir de 1993 foi convidado a escrever semanalmente textos de ficção a partir de notícias publicadas no jornal. Selecionando as matérias que apresentavam maior conteúdo humano, o escritor começou a observar no real as possibilidades para o imaginário. As crônicas acabaram sendo compiladas no livro O Imaginário Cotidiano (2001). O exercício do gênero lhe rendeu a publicação de mais cinco livros de crônicas: A Massagista Japonesa (L&PM, 1984); Um País Chamado Infância (Sulina, 1989); Dicionário do Viajante Insólito (L&PM, 1995); Minha Mãe não Dorme Enquanto eu não Chegar (L&PM, 1996) e A Língua de Três Pontas: Crônicas e Citações sobre a Arte de Falar Mal (Artes e Ofícios, 2001).

Filho de imigrantes judeus russos que desembarcaram no sul do Brasil, Moacyr Scliar alimentou o gosto pela arte de narrar, desde pequeno. O escritor cresceu ouvindo histórias narradas por seus pais, como relatos sobre a vida deles na Europa ou do choque cultural que tiveram em contato com o País. A herança do judaísmo acabou marcando suas principais obras, que também absorveram a reflexão sobre a realidade social da classe média urbana brasileira, descoberta com o exercício da medicina. "Diante do médico, as pessoas se revelam como são, sem máscaras". Em entrevista por e-mail ao O POVO, o escritor fala sobre sua relação profissional e afetiva com a crônica. (Camila Vieira)


O POVO -
O senhor já chegou a afirmar que "escreve pelo prazer de criar situações e personagens (nesta ordem, infelizmente)". O que o motiva a escrever crônica em jornal, já que em geral ela acaba se reportando aos acontecimentos do cotidiano?
Moacyr Scliar - Escrevo em vários gêneros, romance, conto, ensaio, ficção juvenil. Cada um deles corresponde a uma necessidade e também a um modo específico de tratar o tema: alguns temas, por exemplo, exigem conto, outros expandem-se até o romance. No caso da crônica, trata-se da necessidade de vincular-se à realidade imediata, cotidiana, tentando entendê-la e tentando dar-lhe um sentido através desta forma literária. Porque é, sim, uma forma literária: literatura combinada com jornalismo.

OP - O senhor já colaborou como cronista em grandes jornais da mídia impressa (Folha de São Paulo e Zero Hora, por exemplo) e agora escreve para a Agência Carta Maior. Como iniciou sua aproximação com o jornalismo e o que esse contato acrescenta à sua literatura?
Scliar - Comecei no jornal Zero Hora de minha cidade, Porto Alegre. Minhas raízes porto-alegrenses e gaúchas são muito fortes e era como se eu estivesse escrevendo "cartas" para amigos. Mas o contato com jornal ensina muito ao escritor. Ensina-o, em primeiro lugar, a estar atento ao que se passa a seu redor. Ensina-o a ser objetivo, conciso e rápido (recentemente, premido pelo tempo, escrevi uma crônica de 40 linhas em 8 minutos...). Não é de admirar que muitos grandes escritores, a começar por Machado de Assis, tenham sido também cronistas.

OP - Qual o principal desafio de escrever crônica para um jornal, diferente da crônica apenas meramente atrelada à literatura?
Scliar - O principal desafio é corresponder ao interesse e ao gosto do público, mas sem fazer concessões. É bem difícil, mas vale a pena.

OP - Em toda sua obra, dois principais temas são recorrentes: a realidade social da classe média urbana (apreendida no convívio com a medicina) e o judaísmo (influência que veio da família). Que relações o senhor faria entre o papel da crônica jornalística de se reportar ao real e o fato de sua literatura estar associada a episódios que fizeram parte de sua vida?
Scliar - Como médico, e como descendente de um grupo humano que praticamente deu testemunho de boa parte da história da humanidade, sou obrigatoriamente ligado ao real. Conciliar o real com o imaginário é o que tenho feito ao longo destes anos. É uma tarefa complexa: na ficção, o real (sob a forma de informação em excesso, por exemplo) pode matar a ficção. Na crônica, o devaneio ficcional pode parecer inadequado para jornal. Dosar é questão fundamental. Sabem disso os médicos - e os escritores...

OP - Alguns dos seus romances exploram personagens históricos, como Oswaldo Cruz, Noel Nutels e Espinosa. E na crônica, qual seria o limiar entre realidade e ficção?
Scliar - A crônica tem de conferir prioridade ao real. Claro, dá para fazer crônicas ficcionais, contos-crônicas, mas isto é a exceção. A forma pode ser literária, poética até, mas é preciso responder à pergunta: de que, afinal, esse cara está falando?

OP - Em 2001, o senhor publica O Imaginário Cotidiano, com textos ficctícios feitos a partir da leitura de notícias da Folha de São Paulo. Como era o processo seletivo dessas notícias? Em que tipo de notícias, o senhor visualizava a possibilidade de reinvenção?
Scliar - No começo, era o editor quem me mandava as notícias, mas às vezes elas não eram "inspiradoras". Pedi então para que eu próprio fizesse a seleção e aí funcionou. Mas é difícil dizer que tipo de notícia dá um texto ficcional. Certamente não é, por exemplo, a cotação do dólar... Quanto mais interesse humano, quanto mais curiosa a notícia, melhor.

OP - Como o senhor interpreta a ficcionalização da realidade na mídia brasileira?
Scliar - Ficção é uma constante "tentação" para o jornalismo, e o "novo jornalismo", praticado por Truman Capote (em A Sangue Frio) e outros, era em grande parte, isso. Mas o equilíbrio é essencial. Eu diria que, como regra, é melhor manter as coisas separadas.

OP - O senhor acredita que a crônica deve exercer uma crítica da realidade?
Scliar - Crítica, não. Isto corresponde ao colunismo. Mas um comentário da realidade, sim. Um comentário que pode, e deve, ter uma medida de subjetividade (desde que o cronista não fique girando em torno ao próprio umbigo, falando só de si...).

OP - Apesar da crônica perder cada vez mais espaço na imprensa brasileira, vários jornais costumam aproximar a escrita das notícias e reportagens do estilo literário, principalmente nos cadernos de cultura. Como o senhor analisa essa tendência?
Scliar - Acho que o refinamento da linguagem é um progresso, que eleva o nível cultural do país e torna as pessoas melhores. O risco é o da sofisticação excessiva, da obscuridade. Algumas pessoas parecem achar que, quanto menos compreensível o texto, maior o prestígio. Bobagem.

OP - Que cronistas o senhor admira e quais o influenciaram?
Scliar - Machado, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlinhos de Oliveira, Nelson Rodrigues, Luis Fernando Veríssimo (aliás, um grande amigo).

OP - Sua mãe, professora imigrante, o alfabetizou em casa. Que recordações o senhor tem desse primeiro encontro com as palavras?
Scliar - Esta iniciação condicionou a minha trajetória de escritor. Ler e escrever eram coisas impregnadas pelo afeto de minha mãe, que era uma grande pessoa, grande professora e grande leitora. Até hoje tenho a impressão de que escrevo só para mostrar a ela: "Olha só, mãe, o que eu escrevi".

OP - Nascido de uma família de imigrantes judeus, o senhor cresceu ouvindo histórias narradas por seus pais. Qual personagem ou história mais o marcou na infância?
Scliar - O meu próprio pai, que era um grande contador de histórias.Ele era imigrante, veio da Rússia, e suas primeiras impressões do Brasil eram fantásticas.Ele nunca tinha visto uma banana até chegar ao Brasil. Depois de uma longa viagem desembarcou no cais, em Porto Alegre, um menino tão magrinho que até dava pena olhá-lo. Um homem se apiedou do garoto e ofereceu-lhe uma banana. Meu pai suspeitou que se tratasse de uma coisa para comer, mas não sabia como fazê-lo - e não podia perguntar, porque não falava português. Finalmente, descobriu que dava para descascar a banana. Fez isso e encontrou algo que identificou como o caroço da fruta. Esse "caroço" ele jogou fora, e comeu o resto, ou seja, a casca.

OP - O senhor pertence ao rol dos escritores médicos, como Pedro Nava e Guimarães Rosa. De que maneira as duas atividades dialogam entre si?
Scliar - De várias maneiras. Medicina representa uma experiência humana transcendental; diante do médico as pessoas se revelam como são, sem máscaras. No caso da saúde pública, minha especialidade, foi uma descoberta da realidade brasileira. A linguagem científica da medicina ajuda o escritor a ser objetivo. E a sensibilidade que a gente adquire na leitura de textos literários é um grande instrumento para a compreensão do drama do paciente. Eu sempre digo para jovens médicos que leiam textos como A Morte de Ivan Illich, de Tolstoi, para entenderem melhor a relação médico-paciente.

OP - Para finalizar, que papel a crônica exerce hoje no jornalismo brasileiro?
Scliar - A crônica é um gênero eminentemente brasileiro, resultante da própria maneira de ser de nossa gente. A crônica não tem a erudição do ensaio, a crônica não tem a objetividade do artigo; a crônica é a continuação, no texto, da conversa de mesa de bar que é tão característica de nosso país como o Carnaval e o futebol. É um gênero que tem evoluído. Se considerarmos a crônica clássica, aquela que vai, digamos, de Machado de Assis a Rubem Braga, não há dúvida de que houve uma mudança. Era um gênero intimista, uma lírica, poética, meditação sobre o cotidiano das pessoas. A imprensa sempre tinha espaço para a crônica e a revista Manchete, em especial, caracterizava-se por sua notável equipe de cronistas. Mas a mídia mudou: tornou-se mais objetiva, mais "dura", privilegiando a notícia, a análise, e o comentário sob forma de coluna. Perdeu espaço, como outros gêneros, que praticamente sumiram dos jornais: o folhetim, o conto, a poesia. E é dirigida para um público obviamente restrito. Apesar disso, continuo achando que a crônica precisa de espaço nos grandes veículos. Trata-se de um respiradouro, de uma brecha na massa não raro sufocante de notícias. E é um gênero literário eminentemente brasileiro, que nas mãos de grandes cronistas, deu verdadeiras obras-primas. A crônica, com seu característico de mensagem pessoal, humaniza o veículo.


MOACYR SCLIAR
O escritor gaúcho Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre, no bairro Bom Fim, no dia 23 de março de 1937. Com pais imigrantes russos judeus e formado em Medicina, Scliar tem obra literária extensa, que compreende romances, contos, crônicas, ensaios e ficção juvenil, já traduzidos para mais de 20 países. Entre suas obras, estão: O Exército de um Homem Só (1973); Mês de Cães Danados (1977); O Centauro no Jardim (1980); A Orelha de Van Gogh (1988); e A Mulher que Escreveu a Bíblia (1999).


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato