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CENA MUSICAL

Trilha sonora das compras

Supermercados e shoppings centers oferecem música ao vivo como um diferencial, estabelecendo um novo serviço, além de dar visibilidade a novos e músicos, e explorar um espaço cultural inovador

Andressa Back
Especial para O POVO

29 Jan 2007 - 01h17min

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TONY ABREU começou a cantar em supermercados há três anos (Foto: Mauri Melo)
Um carrinho, um violão, este amor, uma canção, para fazer feliz a quem faz compras. Muita calma para escutar, e ter tempo para comprar. Dos corredores formados entre as gôndolas do supermercado, ouve-se uma voz cantante. Nada de som mecânico. A música é ao vivo. Voz e violão, a dupla indefectível de inúmeros barzinhos, é um curinga, uma carta na manga que, atualmente, é jogada em supermercados e em praças de alimentação de shoppings.

A iniciativa não é recente. O cantor Tony Abreu divide os créditos da idéia de cantar em supermercados com a então parceira. Ele começou em 1994 e não parou mais. "Foi feito tipo um happy hour, os clientes comprando e ouvindo uma boa música brasileira, o gerente perguntou se daria certo e eu disse: 'vamos tentar'. Com um mês, várias lojas estavam implementando música ao vivo também", conta. Há sete anos, canta no Pão de Açúcar. Todo sábado, acorda os clientes, como gosta de dizer. Tony e o teclado, que ele atesta tocar de uma maneira bem artesanal, sem programação eletrônica, estão sempre na mesma loja.

Ele aponta vantagens em cantar pela manhã: "não tem bebida, é mais tranqüilo, além de terminar cedo". Tony considera o supermercado uma vitrine, de onde surgem contatos para outros trabalhos. O repertório é variado, "abrange mais a Aldeota, então só entra forró de qualidade, tipo pé de serra, bossa nova, MPB, música instrumental, música romântica". Contudo, a trilha sonora do supermercado costuma fazer mais sucesso entre pessoas da "jovem guarda", como diz Tony.

"Os clientes mais carinhosos são os mais idosos, eles sempre pedem boleros, Nervos de Aço, Índia, Marina, são os eternos clientes românticos", explica. Para o aposentado J. Cícero Magalhães, as músicas são agradabilíssimas. "Eu só compro aqui", comenta, empurrando o carrinho ao som da voz de Tony. A advogada Lurdinha Andrade completa: "esse repertório agrada a minha mãe, ela gosta muito. Eu acho legal, distrai um pouco, quebra o stress." Entretanto, o ambiente de supermercado tem uma clientela diversa e nem todos aprovam a iniciativa.

A empregada doméstica Roseli Geffer não gosta do barulho. "Você não está aqui para ouvir o cantor, mas para escolher as compras." Já Lurdinha confessa entrar, às vezes, cantarolando no mercado. Tony afirma não receber reclamações, mas nota a indiferença: "já me acostumei, porque, eu não posso comparar o público de um teatro com o de mercantil". Mas ele não desanima, e contabiliza o sucesso: "a pessoa fica mais tempo no supermercado, vai comprar três coisas e sai com o carrinho cheio".

O Grupo Pão de Açúcar procura diferenciais e diz "garantir aos consumidores a melhor experiência de compra em cada uma de nossas lojas". Tony, paraibano de Campina Grande, radicado em Fortaleza desde 1984, espera que a parceria com o mercado continue. "É onde eu transformo o imaterial no material. O imaterial é o dom que Deus dá pra gente cantar, que eu transformo no material, que é o dinheiro, para sobrevivência."

Dos 52 anos, 40 foram cantando. Inspirado pelos Beatles e Roberto Carlos, se apaixonou pela música, e a sentença foi dada: dela viveria. Com a ressalva: "tem que ser guerreiro e não ser tão materialista". Até 1989, ele fazia um trabalho autoral, chegando agravar um CD "alternativo, para os amigos", com músicas românticas. Mas as dificuldades apareceram e ele começou a cantar em bares. "Aí foi quando surgiu essa idéia do mercantil."

Noite de sábado, um grupo de jovens canta e balança. Aplausos e assovios ecoam após cada canção. O local, um shopping. E as pessoas não estão ouvindo a banda por ocasião do jantar, um lanche ou um chopinho. O palco está montado em outro piso, que não o da praça de alimentação. Mais que em supermercados, o espaço dos shoppings, proporciona uma interação maior entre público e artista. Os mais tímidos observam de camarote, dos andares superiores, outros cantarolam baixinho chacoalhando as sacolas.

O repertório é variado, e depende do horário. Para o cantor Ricardo Barsotelli, o encanto da música reside na flexibilidade em poder cantar de tudo. A concorrência no meio é grande, e ele vê, na diversidade do público, uma possibilidade de atingir pessoas que não freqüentam bares. Um amigo de Ricardo teve um imprevisto e não pôde cantar no North Shopping, então pediu a Ricardo que o substituísse: "pra mim, sorte é o encontro da preparação com a oportunidade". Assim, ele começou.

Esse belenense de 31 anos, "há 20 agarrado no violão", diz que toca "o que está na boca do povo". O repertório "funciona a partir do poder de percepção do artista, é sentir o público". É basicamente "o antigo e o novo da MPB". Inclui Caetano Veloso, Zeca Baleiro e Alceu Valença. "A música ao vivo provoca várias sensações, como viajar no tempo, saudade", exclama. Porém, Ricardo acha que o ambiente prejudica a interação. Ele acredita que muitas pessoas se sentem inibidas de pedir músicas.

Mas nem sempre é assim: "uma senhora parou na minha frente, quando eu estava tocando Alma Gêmea, do Fábio Jr., e ela disse que se arrepiou toda, que cantei lindo". Ele, que já vendeu carros para sobreviver, valoriza o trabalho. Diz que cantar no Shopping Aldeota "está pagando meu carro todinho". Lara Montenegro, assistente de marketing do Shopping Del Paseo afirma que "o retorno é muito positivo e as pessoas fazem questão de vir ao shopping para prestigiar os músicos".

Para Nicole Jales, gerente de marketing do Shopping Aldeota, as pessoas ficam mais tempo no shopping. Ela conta que "as pessoas ligam perguntando quando cada cantor vai estar no lá e pedem para contratarem certos cantores". Explica que os artistas são variados, para dar oportunidade a outros músicos. Mas há um problema acústico, que incomoda pessoas como o estudante universitário Bruno Pontes: "hora de comer é hora de silêncio. As pessoas acabam falando alto por causa da música e aí piora tudo".

A estudante universitária Milena Ribeiro considera "a música instrumental ideal porque é atrativa para todos os gostos, e dá para tocar de clássicos à música mais atual. A música de praça de alimentação tem que ser tranqüila, agradável, e servir mais como uma música de fundo". Para Ricardo, não é problema. Entre um café expresso e outro, que costuma beber depois de cada apresentação, ele declara ser eclético. Quanto à formação, ele diz que é "popular, de ouvido, toques dos amigos, pesquisa musical, o dom, o talento, e o resto a gente desenrola".

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