Vida & Arte
TOM JOBIM 80 ANOS
Para lembrar do Tom
Em comemoração aos 80 anos de nascimento de Antonio Carlos Jobim (1927-1994), o Vida & Arte conversa com a irmã do compositor, Helena, e com a filha, Elizabeth. Para além do Tom Jobim músico, elas relembram o Tom irmão e pai
Camila Vieira
da Redação
25 Jan 2007 - 00h29min
http://multimidia.opovo.com.br/25.01-tom-chega-de-saudades.mp3
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Aos 14 anos, Tom Jobim começava a se aproximar do piano alugado por sua mãe Nilza. Nessa época, o futuro compositor ainda era Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, que gostava de passear pela Praia de Ipanema para tomar sol e, ao voltar para casa, costumava deitar-se no chão frio para amenizar o calor que sentia. Sentado em frente ao piano Bechstein, Tom experimentava as primeiras notas, ao lado de sua irmã Helena, que também aprendia a tocar. "Lembro que minha mãe tinha acabado de abrir um colégio. No canto da garagem lá de casa, ela colocou esse piano alugado e gostava de cantar e nos chamar para tocar. Sempre depois que o Tom voltava da praia, ele costumava tirar notas só de ouvido", recorda Helena, quatro anos mais nova que seu irmão, chamado por ela de Tom-Tom. "O pessoal reclama que o nome dele era muito americanizado, mas o Tom veio daí. Como eu ainda era muito pequena, não sabia falar direito Antônio Carlos".
Criado pela mãe, o avô e os tios maternos, o garoto Tom Jobim logo entraria em contato não só com a música, mas também com a literatura. "Meu avô materno, Azor, tinha uma biblioteca enorme em Ipanema e adorava fazer saraus lá em casa. Adorávamos conversar sobre grandes autores brasileiros. A gente lia demais. Tanto que parte da garagem foi transformada em escritório, porque a casa já não comportava tanto livro", comenta Helena. Se o gosto pela literatura vinha do avô, Tom herdava também o dom pela música e o "ouvido absoluto" - habilidade de identificar notas musicais com precisão - semelhante ao da avó materna Emília. "Como ambos escutavam muita música, não era difícil reconhecer cada som", afirma Helena.
Enquanto a irmã se inclinava cada vez mais para a literatura, Tom aproximava-se da música, embora desejasse ser arquiteto para sustentar a família. Por conselhos do padrasto Celso Frota Pessoa, Tom resolveu dedicar-se às partituras, acordes e compassos. "Então, procuramos juntar as duas coisas: a música e a literatura. Ele me apoiava bastante em tudo que escrevia e também pedia para ler as letras das canções dele. Costumava perguntar: 'O que você acha dessa palavra?'", recorda Helena. A troca de idéias acabou resultando na única parceria musical entre os dois irmãos: a canção Não Devo Sonhar, celebrada na voz de Ângela Maria. "A parceria não foi muito longe, porque eu queria escrever romances e me dedicar à construção de personagens. Meu irmão já tinha talento pra escrever letra, que não é a mesma coisa que poema. O Tom mesmo vivia dizendo que o Carlos Drummond de Andrade era tão perfeito que não precisava acrescentar música", acrescenta.
Com o incentivo da família, Tom começou a estudar música, auxiliado por professoras contratadas pela mãe. Elas ensinavam os princípios básicos de piano e as primeiras noções de harmonia e composição. "O Tom passava dez horas por dia estudando música. Até que uma das professoras viu que ele tinha talento para compor e perguntou se ele não queria ser concertista. Foi aí que ele começou a dar valor ao que fazia", comenta Helena. Não demorou muito para que Tom aprendesse a tocar também violão, flauta e harmônica de boca. Entre pequenos shows em casas noturnas e encontros com artistas da boêmia, Tom Jobim tornou-se um dos maiores compositores da história da música popular brasileira e nem tinha noção de sua própria genialidade. "Mas o Tom tinha fé nele mesmo. Como tanto talento, ele sabia que não iria enveredar por um caminho difícil".
Sete anos mais nova que o primeiro filho de Tom, Paulo Jobim, a artista plástica Elizabeth Jobim começou a ter forte envolvimento com o trabalho do pai na década de 80. "Nessa ocasião, meu pai (Tom) recebeu um convite para tocar na Áustria e começou a organizar um grupo para acompanhá-lo", lembra Elizabeth. Em 1984, Tom Jobim montou a Banda Nova, formada por Jaques Morelenbaum, Paulo Jobim, Danilo Caymmi, Tião Neto, Paulo Braga e o quinteto vocal feminino formado por Paula Morelenbaum, Maúcha Adnet, Ana e Elizabeth Jobim e Simone Caymmi, que acompanhavam o compositor em shows e gravações. "Na verdade ele gostava de tocar em família, e trouxe esse espírito para a Banda Nova que tinha também grandes músicos profissionais", afirma Elizabeth.
O grupo se apresentou em alguns dos principais palcos do mundo, como o Carnegie Hall, em Nova Iorque, que levou Tom rumo ao sucesso. "Desde pequena, convivi com a admiração das pessoas por ele. Na banda, tive oportunidade de compreender mais sobre sua música e viajei com ele por muitos lugares. Ele gostava de ficar no quarto do hotel vendo a TV local e conversando com todos que encontrava. Ele tinha um interesse inesgotável nas pessoas e nas coisas", acrescenta Elizabeth. A filha de Tom encontrava no pai alguém amoroso e intenso. "Ele amava a vida e me mostrou como as coisas podem ser belas e também como ser simples na sofisticação". Ainda em sua participação na Banda Nova, Elizabeth mostrou seus dotes como artista plástica ao fazer a capa do LP Passarim (1987). "Discretamente ele sempre deu força para meu trabalho como artista plástica, mas gostava de saber que eu também estava na banda", diz Elizabeth, que fez mestrado em Belas Artes, na School of Visual Arts de Nova Iorque.
Quando Tom Jobim começou a fazer sucesso, a irmã Helena Jobim recorda que sua casa sempre ficava cheia de amigos, que tocavam e cantavam. "O Tom sempre foi muito engraçado. Seu senso de humor era fantástico e adorava conversar. Chegava em qualquer lugar para falar sobre qualquer coisa. Era bonito, talentoso e generoso. O que mais me marcou no convívio como irmã e amiga era a elegância moral dele e a disposição para ouvir os mais jovens", recorda Helena, que mora em Belo Horizonte há sete anos. Em novembro de 1996, as memórias de Helena acerca de seu irmão Tom são reveladas no livro Um Homem Iluminado, que em breve será transposto para o cinema, em documentário dirigido por Nelson Pereira dos Santos, com roteiro adaptado de Miúcha. "Como comecei a escrever o livro próximo à morte do Tom (em 1994), lembro que fiquei muito abalada. Depois que já passou vários anos, a saudade fica cada vez maior", confessa Helena, que lançou no ano passado o CD Areia do Tempo, com 33 poemas de sua autoria, dedicados ao irmão.
Cultura e meio ambiente
Em comemoração aos 80 anos de nascimento de Tom Jobim, o Rio de Janeiro comanda hoje uma série de eventos para lembrar o compositor. Entre shows de intérpretes como Nana Caymmi e abertura de exposições com fotos e vídeos, a programação aproveita a recém-inauguração da Casa do Acervo, próximo ao Espaço Tom Jobim Cultura e Meio Ambiente, no Jardim Botânico. Capitaneado por Paulo Jobim, pelo ambientalista João Augusto Fortes e pela diretora de arte Biza Vianna, o espaço disponibiliza acervo digital vasto de Tom Jobim.
São 27 álbuns de carreira, mais de três mil fotos, 800 manuscritos, 700 partituras, 90 vídeos com gravações e entrevistas, além de centenas de desenhos e anotações. "Estamos em constante processo de organização e pesquisa de material, que sempre nos traz surpresas. Temos projetos de digitalização de acervos de outros músicos, como Dorival Caymmi e Chico Buarque", confirma Elizabeth Jobim. Materiais sobre o arquiteto Lúcio Costa e sobre o cineasta Sérgio Bernardes também farão companhia ao acervo.
Saiba mais
Sites - www2.uol.com.br/tomjobim (site oficial do compositor, com biografia, informações sobre discos e fotos) / www.jobim.com.br (site do Clube do Tom, fã-clube do compositor) / www.antoniocarlosjobim.org (site do Instituto Antonio Carlos Jobim, coordenado por Paulo Jobim).
Livros - Um Homem Iluminado (memórias de Helena Jobim sobre o irmão. 443 pág. Nova Fronteira. Preço médio: R$ 62,00)/ Ensaio Poético Tom e Ana Jobim (coleção de fotografias do compositor, feitas por Ana Jobim. 164 pág. Editora Jobim Music. Preço médio: R$ 148,00)/ Três Canções de Tom Jobim (expressivos nomes da crítica musical - Lorenzo Mammi, Luiz Tatit e Arthur Nestrovski - exploram a literatura, a tradição erudita e a música popular na obra do compositor carioca. Cosac Naify. 93 pág. Preço médio: R$ 39,00).
DVD - Caixa Maestro Soberano. Três DVDs, dirigidos por Roberto Oliveira, que destacam aspectos fundamentais formadores da obra de Tom Jobim. Pré-venda na Biscoito Fino (www.biscoitofino.com.br) por R$ 129,90.
CD - Tom Jobim Inédito. Em 2005, a Biscoito Fino relança o álbum gravado originalmente em 1987 como brinde institucional da Odebrecht, com produção de Jairo Severiano e Vera Alencar, e participação da Banda Nova. Preço: R$ 34,00.
Televisão - A Globo exibe domingo (28), após o Big Brother Brasil, o especial Tom Jobim: Eu Sei que Vou te Amar. Camila Pitanga apresenta o programa, gravado no Jardim Botânico do Rio, lugar preferido de Tom, e com cenas de arquivo da trajetória do compositor.
http://multimidia.opovo.com.br/25.01-tom-aguas-de-marco.mp3
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