Vida & Arte
LANÇAMENTO
Crônica e reportagem de João Rio
Em seu livro A Crônica Reporteira de João do Rio, o professor Ronaldo Salgado dá conta de um contexto de transformações em que jornalismo e literatura começam a imbricar suas linguagens
19 Jan 2007 - 23h49min
Em seu livro A Crônica Reporteira de João do Rio, o professor do curso de Comunicação Social da UFC, Ronaldo Salgado, dá conta de um contexto de transformações em que jornalismo e literatura começam a imbricar suas linguagens. Essa relação será tratada, a partir da figura do escritor carioca João do Rio, de forma homogênea e sempre sob a perspectiva da contexto histórico. Não por acaso a idéia de modernidade perpassa todo o livro de forma central. Ronaldo está sempre a referenciar a obra de João do Rio a partir do momento histórico, mais especificamente das transformações ocorridas no espaço urbano e na imprensa do Rio de Janeiro.
Corre o começo do século XX. Os jornais mudam de cara, começam a usar mais imagens, privilegiando a reportagem e a notícia em detrimento dos artigos opinativos. É nesse contexto do desenvolvimento da imprensa e do jornalismo que se insere o cronista reporteiro - segundo conceito cunhado por Ronaldo Salgado - João do Rio que irá ser marco no jornalismo brasileira do diálogo entre jornalismo e literatura, crônica e reportagem.
A relação principalmente funcional entre jornalismo e literatura - ou melhor, entre escritor e imprensa -, na qual muitos escritores buscaram sustento e projeção nas redações, irá marcar o século XIX e o começo do XX. Depois daí, com a intensificação da modernização da imprensa, seja em seu maquinário, em sua diagramação ou, o que interessa mais ao livro, em seu texto, aprofundará essa relação. João do Rio será o marco desse momento em que o caráter doutrinário dos jornais dará lugar aos informativos sob uma gestão empresarial.
A modernização da própria cidade do Rio é outro fator essencial para a compreensão da obra de João do Rio, especificamente a do Rio de Janeiro, então capital federal, que enfrentava o “Bota Abaixo!” do prefeito Pereira Passos, uma tentativa de modernizar o Rio aos moldes de Paris. João do Rio será o principal cronista dessa época, irá às ruas, conversará com seus freqüentadores.
Na rua, usando métodos inovadores de apuração como a entrevista, aliando ao texto literário a experiência vivida deliberadamente e a informação, João do Rio será precursor da reportagem moderna Seu flanar pela cidade significará o desvendamento de outras tantas cidades dentro de uma maior e elitista que as esconde. Repórter, claro, mas que para além de furos factuais traz outras realidades, a alteridade que permeia o espaço urbano: um rombo.
O conceito de “crônica reporteira” que funde a partir de João do Rio serve para explicitar o hibridismo do texto do escritor. A crônica, gênero que se desenvolve de forma singular na imprensa brasileira, a grosso modo marcada pela subjetividade e pelo cotidiano do autor, se confundirá com a reportagem, gênero que se transformará no carro chefe, pelo menos teoricamente, do jornalismo. Nesse ponto sente-se falta de um aprofundamento no desenvolvimento da reportagem como gênero, como se faz com a crônica, assim como a uma pincelada de outros escritores e jornalistas que seguira os rumos de João do Rio. Faltas compreendidas por não serem fundamentais à delimitação dada ao tema.
O livro serve para refletir o atual momento da imprensa que, na maioria dos casos, anda metamorfoseada esquizofrenicamente em internet, em busca de textos curtos e velocidade. Apesar de muita coisa feita por telefone e e-mail, o repórter ainda busca a rua. O problema é que de forma superficial e rápida, sem tempo para mergulhar em facetas da realidade que se revelam apenas com observação paciente e acurada. Coisa feita por João do Rio no começo do século, reunida em livro - várias de suas reportagens foram reunidas em obra com o escritor ainda em vida - e que permanece como retrato de uma época que vivemos, de forma exacerbada, ainda hoje.
SERVIÇO
A Crônica Reporteira de João do Rio, do professor do curso de Comunicação Social da UFC, Ronaldo Salgado. O livro é uma edição do Laboratório de Estudos da Oralidade UFC/Uece e custará R$ 10,00.
Corre o começo do século XX. Os jornais mudam de cara, começam a usar mais imagens, privilegiando a reportagem e a notícia em detrimento dos artigos opinativos. É nesse contexto do desenvolvimento da imprensa e do jornalismo que se insere o cronista reporteiro - segundo conceito cunhado por Ronaldo Salgado - João do Rio que irá ser marco no jornalismo brasileira do diálogo entre jornalismo e literatura, crônica e reportagem.
A relação principalmente funcional entre jornalismo e literatura - ou melhor, entre escritor e imprensa -, na qual muitos escritores buscaram sustento e projeção nas redações, irá marcar o século XIX e o começo do XX. Depois daí, com a intensificação da modernização da imprensa, seja em seu maquinário, em sua diagramação ou, o que interessa mais ao livro, em seu texto, aprofundará essa relação. João do Rio será o marco desse momento em que o caráter doutrinário dos jornais dará lugar aos informativos sob uma gestão empresarial.
A modernização da própria cidade do Rio é outro fator essencial para a compreensão da obra de João do Rio, especificamente a do Rio de Janeiro, então capital federal, que enfrentava o “Bota Abaixo!” do prefeito Pereira Passos, uma tentativa de modernizar o Rio aos moldes de Paris. João do Rio será o principal cronista dessa época, irá às ruas, conversará com seus freqüentadores.
Na rua, usando métodos inovadores de apuração como a entrevista, aliando ao texto literário a experiência vivida deliberadamente e a informação, João do Rio será precursor da reportagem moderna Seu flanar pela cidade significará o desvendamento de outras tantas cidades dentro de uma maior e elitista que as esconde. Repórter, claro, mas que para além de furos factuais traz outras realidades, a alteridade que permeia o espaço urbano: um rombo.
O conceito de “crônica reporteira” que funde a partir de João do Rio serve para explicitar o hibridismo do texto do escritor. A crônica, gênero que se desenvolve de forma singular na imprensa brasileira, a grosso modo marcada pela subjetividade e pelo cotidiano do autor, se confundirá com a reportagem, gênero que se transformará no carro chefe, pelo menos teoricamente, do jornalismo. Nesse ponto sente-se falta de um aprofundamento no desenvolvimento da reportagem como gênero, como se faz com a crônica, assim como a uma pincelada de outros escritores e jornalistas que seguira os rumos de João do Rio. Faltas compreendidas por não serem fundamentais à delimitação dada ao tema.
O livro serve para refletir o atual momento da imprensa que, na maioria dos casos, anda metamorfoseada esquizofrenicamente em internet, em busca de textos curtos e velocidade. Apesar de muita coisa feita por telefone e e-mail, o repórter ainda busca a rua. O problema é que de forma superficial e rápida, sem tempo para mergulhar em facetas da realidade que se revelam apenas com observação paciente e acurada. Coisa feita por João do Rio no começo do século, reunida em livro - várias de suas reportagens foram reunidas em obra com o escritor ainda em vida - e que permanece como retrato de uma época que vivemos, de forma exacerbada, ainda hoje.
SERVIÇO
A Crônica Reporteira de João do Rio, do professor do curso de Comunicação Social da UFC, Ronaldo Salgado. O livro é uma edição do Laboratório de Estudos da Oralidade UFC/Uece e custará R$ 10,00.
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