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O MESTRE

Notícia de um encontro

A jornalista e escritora Socorro Acioli conta a história de uma experiência ímpar: a participação na oficina Como Contar um Conto, ministrada por ninguém menos do que o escritor Gabriel García Márquez, em Cuba

Socorro Acioli
Especial para O POVO

15 Jan 2007 - 01h17min

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GABRIEL GARCÍA Marquéz:: há 20 anos ministrando oficina de conto em Cuba (Banco de dados)
Gabriel García Márquez é apaixonado por cinema. Foi estudante de direção no Centro Sperimentale di Cinematografia de Roma. Abandonou a idéia de ser diretor por preferir a solidão e independência do ofício de escritor. Mas, a partir da experiência na Itália, traçou as linhas gerais do projeto de construir um centro de formação de profissionais de cinema, preparados para falar da América Latina em suas produções cinematográficas.

Em 1985, García Márquez, ao lado de Fernando Birri e Julio Garcia Espinosa e com a colaboração de Nelson Pereira dos Santos e Orlando Senna, entre muitos outros, inaugurou a Fundação do Novo Cine Latino americano e, um ano depois, a Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los BaÀos, EICTV, ambos sediados em Cuba.

Além do sonho de criar uma escola para cinema latino americano, o dinheiro do Prêmio Nobel recebido por García Márquez e o apoio de Fidel Castro foram decisivos para que, em dezembro de 1986 a escola fosse instalada em San Antonio de Los BaÀos, em um sítio cercado de laranjeiras, a uma hora de Havana.

A EICTV oferece cursos regulares de cinema, com duração de três anos, além de oficinas internacionais, seminários, encontros e outras atividades. Porém, o curso mais comentado é a oficina de roteiro Como Contar um Conto, ministrada pelo próprio Gabriel García Márquez uma vez por ano, há vinte anos.

Para minha felicidade, fui uma das selecionadas para a oficina de dezembro de 2006, depois de muitos meses de suspense e espera e de uma seleção dificílima, feita pelo próprio García Márquez. O curso, hospedagem e alimentação são custeados pela EICTV. As passagens foram concedidas pelo programa de apoio a participação de eventos da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. O que tenho a contar nesse artigo é a notícia de um encontro, o mais importante de minha vida profissional.

A primeira aula estava marcada para o dia 04 de dezembro, dez horas da manhã. A coordenação acadêmica da Escola pediu que nos reuníssemos na entrada principal para receber o nosso ilustre professor. Éramos nove alunos de países diferentes: Espanha, dois da Colômbia, México, Peru, Cuba, República Dominicana, Costa Rica e eu, a única brasileira. Dos nove, cinco trabalham com cinema, três com televisão e eu, com literatura. Uma turma especialíssima, escolhida a dedo por García Márquez. O professor assistente da oficina foi o cineasta espanhol Fernando Leon de Aranoa, que colaborou com a condução dos trabalhos.

Na oficina só quem tem permissão para entrar são os nove alunos, os dois professores e o técnico de gravação. Todos os dias haviam jornalistas rondando a porta da sala e um repórter do jornal espanhol El País tentou muito uma entrevista sobre a oficina. Mas não conseguiu. No primeiro dia de aula, assinamos um termo cedendo os direitos de tudo o que é dito na oficina e somos orientados a não divulgar publicamente os assuntos discutidos lá dentro. Esse artigo está sendo publicado com a expressa autorização da Coordenação Acadêmica da Escola, com o compromisso de respeitar as normas de não escrever sobre os conteúdos das histórias apresentadas.

Todo o curso é gravado, transcrito e por três vezes já foi editado em livros, intitulados Como contar um conto, Me alugo pra sonhar e A bendita mania de contar. Os dois primeiros foram traduzidos para o português e lançados pela Casa Jorge Editorial. Foi por um deles que tomei conhecimento da oficina e alimentei por muitos anos o sonho de participar de uma delas.

A dinâmica do curso é contar histórias e ouvir a opinião de Gabo sobre elas. Um exercício prático e quase mágico de criar junto com Gabriel García Márquez. Cabia a todos levar uma idéia de roteiro inacabado para apresentar aos professores, ouvir a apreciação do mestre e, se ele gostasse, começar o desenvolvimento da trama em grupo.

O primeiro a contar a sua história foi Joaquim Casasola, mexicano, autor de novelas na Espanha. Depois dele, aos poucos, todos foram contando um pouco das idéias que traziam. Gabo é um professor sem meias palavras, não tem paciência para muitas divagações, ele quer saber qual é a história a ser contada. Escutava os relatos atentamente, em silêncio, no máximo pedindo para repetir uma palavra e brincando com sua deficiência auditiva. Caso ouvisse a história e não lhe agradasse, batia na mesa e dizia com um sorriso:

- Outra!

Quando havia algum interesse, tinha toda paciência em tentar entender e buscar soluções. Alguns propuseram mais de uma trama, quando a primeira não era bem aceita, e aos poucos estávamos completamente envolvidos com os personagens de cada um, com seus mistérios e, ao mesmo tempo, hipnotizados com a experiência de ter Gabo como professor.

Uma das coisas que mais impressiona é sua facilidade em encaixar a história em um eixo e testar se ela se sustenta. Isso foi um dos seus maiores ensinamentos. Gabo tem uma incrível habilidade para prever possíveis desdobramentos, apontar lacunas, incoerências e por vezes, mostrar a diferença clara entre uma boa idéia e uma boa história. Ele não segue nenhuma estrutura pré-estabelecida de roteiro. Sua atenção é centrada na alma dos personagens e nos perguntava muitas vezes sobre eles, quem eram, porque faziam o que faziam, onde viviam e, principalmente, para onde iriam.

Apesar da idade, de uma certa dificuldade auditiva e do peso dos anos de tratamento contra o câncer linfático, o senhor de andar vacilante, alinha a coluna, aproxima-se da mesa e parece ganhar energia quando uma história lhe agrada. Comenta e julga os personagens como se os conhecesse da vizinhança, acredita nos enredos, acredita nas pessoas e nos ensina que a profissão de escritor é a mais séria do mundo, dificílima e que só vale a pena ser seguida "quando o corpo nos obriga" e quando "sai das tripas", como repetia sempre.

Entre suas opiniões sobre o nosso trabalho, Gabo nos presenteava com alguns detalhes de seu próprio processo de criação literária, por vezes negando o que já foi publicado em entrevistas e até no livro de memórias. Por falar nele, Gabo disse claramente que não vai mais perder tempo com o que chama de "memórias de velho" e que está trabalhando em dois textos que faziam parte da versão inicial do seu romance Memórias de minhas putas tristes.

Assim passaram, muito rapidamente, cinco dias intensos e inesquecíveis onde era difícil desviar a atenção daquele senhor seguro, experiente e generoso, que reservou cinco manhãs de sua vida para nos ensinar a criar. No dia seguinte, ao final da oficina, fomos convidados a uma festa, onde ele estava presente, juntamente com o ator inglês Ralph Fiennes e outros profissionais de cinema. Foi então que nos despedimos de forma definitiva. A única coisa que eu gostaria de dizer a ele no último encontro era agradecer, por tudo. Sua resposta foi pedir, fortemente, que eu seguisse com a história que levei para a oficina. E pediu um beijo, fotografado por, no mínimo, seis câmeras fotográficas de convidados da festa.

Depois da oficina com García Márquez, estou grata e completamente modificada, sigo escrevendo a história e penso que nunca mais vou conseguir escrever sem ouvir o tempo todo a voz de Gabo nos perguntando em seu castelhano claro e pausado:

- Pero cual és el eje de tu historia?

SOCORRO Acioli é jornalista e escritora. O diário de sua participação no curso com Gabriel García Márquez está no blog http://as-borboletas-de-fevereiro.blogspot.com

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