Camila Vieira
da Redação
Dirigido pelo canadense Jean-Marc Vallée, o longa-metragem C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor acaba reconstituindo os ambientes e os comportamentos das décadas de 60, 70 e 80, mais do que abordar o conflito do protagonista em assumir sua homossexualidade. O filme é o destaque de hoje, às 10h45, da mostra Panorama 2007, no Cinema de Arte
12/01/2007 22:47

Embalado por trilha sonora recheada de clássicos de Patsy Kline, Pink Floyd, Rolling Stones e David Bowie, o longa-metragem C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor assume a função de retrato da cultura pop dos anos 60, 70 e 80, reconstituindo ambientes e comportamentos das três décadas. Mais do que explicitar o drama do protagonista Zachary Beaulieu (Marc-André Grondin) ao assumir sua homossexualidade, o sexto filme do canadense Jean-Marc Vallée narra a trajetória de Zac, da infância à juventude, seu comportamento em relação aos modismos da época e sua relação familiar. A trama é pontuada por imagens simbólicas que dão conta do estado psicológico do protagonista ao se confrontar com as situações: câmera lenta e acelerada, montagem clipada, travellings velozes, truques fotográficos que agregam fetiche à imagem. Ou seja, a roupagem estética "simpática", onírica e despretensiosa certamente pode agradar os espectadores.
Sucesso de bilheteria canadense em 2005, C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor aborda o cotidiano dos Beaulieu, uma família de classe média de Montreal. O protagonista Zac é o quarto dos cinco filhos de Gervais (Michel Cote) - o pai fã de Patsy Cline, e da mãe Laureanne (Danielle Proulx). Além de fazer referência à famosa música homônima escrita por Willie Nelson e imortalizada na voz de Patsy Cline, cada uma das letras do título (C, R, A, Z e Y) representa a letra inicial, em ordem cronológica, do nome dos irmãos da família: Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan. Todos os membros da família assumem personalidades estereotipadas: o pai conservador, a mãe superprotetora, o filho roqueiro, o atleta, o intelectual, o rebelde e o pestinha.
Na busca por sua identidade sexual, Zac trava uma batalha diária contra a intolerância do pai e transfere seus desejos e angústias para a música, que assume papel de destaque na narrativa. Só para se ter uma idéia do quanto foi investido em direitos autorais, a trilha sonora custou à produção cerca de 530 mil dólares. Para introduzir no filme todos os trechos musicais necessários, o diretor Jean-Marc Vallée precisou reduzir seu cachê. C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor também foi impedido de ser exibido nos Estados Unidos pelo alto custo dos direitos locais da trilha-sonora. Em uma das cenas marcantes do filme, Zac imita o estilo glam rock do cantor David Bowie, cantando Space Oddity. A direção de arte dimensiona a atmosfera da década de 60, 70 e 80, com mudanças nas roupas, nos penteados, nas músicas, nos objetos.
Inspirado nas experiências vividas pelo co-roteirista François Boulay, C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor não cai na fácil armadilha de reduzir seu roteiro à jornada de um rapaz rumo à descoberta de sua homossexualidade. Os conflitos são sutilmente pontuados ao longo da relação familiar e o filme acompanha a vida dos personagens entre amores e desafetos, sempre a partir do ponto de vista de Zac, que nasceu no Natal de 1960. A subjetividade do protagonista é claramente exposta em uma das seqüências do filme: a briga em câmera lenta com seu rebelde irmão Raymond, em plena ceia de Natal.
Candidato oficial do Canadá a uma vaga para o Oscar de melhor filme em língua estrangeira, C.R.A.Z.Y.- Loucos de Amor levou 33 prêmios internacionais, entre eles o de melhor filme nacional no Festival de Toronto e melhor filme estrangeiro pela Associação de Filmes Francesa. Apesar da competente direção de arte e das boas atuações, o filme pode parecer longo demais, mas consegue entreter o público.
SERVIÇO
C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR (C.R.A.Z.Y., CAN, 2005) De Jean-Marc Vallée. Com Michel Cote, Marc-André Grondin, Daniele Proulx e Émile Vallée. 127min. Cartaz de hoje da Mostra Panorama 2007 do Cinema de Arte no Multiplex Iguatemi 4, às 10h45. 16 anos.