O sociólogo e professor universitário Alexandre Vale, em entrevista ao O POVO, discorre sobre a ambigüidade e o apelo das salas de cinema pornô, espalhadas pelo Centro da cidade
03/01/2007 23:18

O professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, Alexandre Fleming Câmara Vale, estudou o tema dos cinemas pornôs em sua dissertação de mestrado, que virou o livro No Escurinho do Cinema: Cenas de um público implícito (Editora Annablume, 2000). O estudo, que discorre sobre a sociabilidade homossexual masculina e travesti nos cinemas pornôs, foi resultado de um pesquisa antropológica no extinto Cine Jangada, sala de cinema pioneira desse tipo de exibição em Fortaleza. Em entrevista, Alexandre fala sobre as redes de significado e de sociabilidade que as salas de cinema pornô engendram. Da ambigüidade do apelo das salas, de fachada heterosexual, à configuração do Centro como espaço aglutinador desses cinemas. (Natália Paiva)
O Povo - Na sala de cine-vídeo pornô, como a performance que passa na tela se relaciona com a performance que ocorre na platéia?
Alexandre Vale - Primeiro, você tem uma ambigüidade fundamental nas experiências nas salas de cinema pornô que eu acho que é a própria ambigüidade da cultura sexual brasileira. Não sei como se configuram os cinemas pornôs atualmente, mas, até onde eu fiz a pesquisa, no Cine Jangada e nos cines-vídeo que então nasciam, você tem uma certa ambigüidade, porque se esses filmes fossem especializados em pornô gay, eles talvez não tivessem a freqüência que eles têm, porque é o tipo da sociabilidade que desfruta dessa ambigüidade, dessa ambivalência da cultura sexual brasileira. Em última instância, você pode está ali, porque tem um interesse que é hetero direcionado, mas, na realidade, no cotidiano das salas mesmo, muitas pessoas que entram em cinema não efetivamente vão pra ter contatos sexuais, mas o que você tem é homo direcionado. Esse é um dado interessante em relação à recepção desse produto. Por que então não ter um filme gay? Por que não ter um pornô gay? Também porque isso choca diretamente com um certo modelo mediterrâneo da homossexualidade, segundo o qual essa sexualidade só se exerce se tiver uma dicotomia entre o ativo e o passivo: um que seria afeminado e o outro que seria viril. A idéia, se fosse filme gay, necessariamente levaria para as salas pessoas explicitamente homo direcionadas, homossexuais, e talvez a cultura sexual brasileira se revigore mais dessa ambigüidade, da idéia de que você tem um modelo meio que ambígüo, ambivalente.
OP - Quando foi que surgiu a primeira sala de cinema pornô de Fortaleza?
Alexandre Vale - Não tem “a” primeira sala de cinema pornô de Fortaleza. Quando apareceu o Cine Jangada, ele nasceu com a pretensão de ser familiar e cult, foi ele que trouxe o cinema europeu pra Fortaleza. Então ele era uma iniciativa de um grupo de industriais locais, sobretudo o Amadeu de Barros Leal, que pretendia trazer o cinema europeu e na época quem tinha a hegemonia do circuito de cinema local era o Severiano Ribeiro. Então o Amadeu de Barros Leal monta o Cine Jangada e mais alguns cinemas, todos eles com nomes de peças de jangada, então tinha essa reivindicação do regional, do local. Era uma tentativa de trazer o cinema europeu pra cidade, só que o Severiano era muito poderoso, parece que já tinha, se não me falha a memória, mais de 100 cinemas, não tinha como se contrapor. Inclusive no discurso do Amadeu de Barros Leal de abertura do Cine Jangada, ele faz uma alegoria da jangada, das ondas, do mar revolto, que era o próprio Severiano, que em breve compraria todas as salas. Concomitante a isso você tem um processo onde o centro da cidade vai ficando cada vez mais associado à periculosidade, à violência, e também um enfraquecimento daquela idéia do ritual Belle Époque das salas de cinema: você ir de paletó e gravata, você ter aquela sala de espera. Esse ritual começa a desaparecer, o cinema começa a, entre aspas, se “popularizar” - porque na verdade não se popularizou totalmente. Então, você não tem um primeiro cinema pornô na cidade. Você tem o Jangada que, com o afrouxamento da censura, com o aparecimento da pornografia, começa intercalando filme de Kung Fu com filme pornô e vai se constituir como uma das primeiras salas de filme pornô. Isso entre 1970 e 1980.
OP - Quais são as diferenças entre o cinema pornô e um bordel, uma casa noturna?
Alexandre Vale - No cinema você tem fundamentalmente esse veículo que é a imagem, um produto cultural, a pornografia, que é feito pra excitar. E você tem uma reunião de pessoas, quer dizer, um contingente transitório de pessoas que se reúnem ali, seja pra assistir um filme, seja para um momento de diversão, seja pra uma tentativa de encontro etc. Só que o que demarca uma diferença grande, por exemplo, em relação a um cinema como o Cine Jangada, que era um cinema que ainda tinha a exibição em película, filmes já velhos, amarelados... O que vai ser fundamental para diferenciar essas salas como o Jangada é que você não tem aquela mesma configuração do cinema, você tem agora os cines-vídeo que é um outro veículo, que é o videocassete ou então o dvd. Você tem aquele coletivo que de certa forma desaparece, você vai ter uma especialização, quer dizer, as salas em pequenos cubículos, feitos para encontros, a televisão. Num bordel, por exemplo, você vai para um quarto, ali você paga a entrada e ali você tem as cabines, um bar... Eu acho que o cinema também está associado não só a isso, mas à homossexualidade, à possibilidade de encontro e tal, mas não que todo mundo que freqüente o cinema pornô seja homossexual. Até porque muitas daquelas pessoas não se entendem como tal, porque a ambigüidade brasileira permite isso, o cara pode até ter um intercurso sexual, mas se ele tiver sido ativo, ele não se vê como “viado”, ele transou com um homossexual. Essa ambigüidade eu acho que é interessante. Os cinemas de certa forma são um microcosmo dessa cultura sexual brasileira.
OP - É curioso o fato de o sexo explícito ser feito entre homem e mulher, mesmo que a maioria do público seja homossexual.
Alexandre Vale - Esse dado é interessante. Me parece que é a mesma lógica dos filmes heteros. Não pode se configurar algo identitário, tem que se manter nesse limbo, uma coisa que permite uma flexibilidade maior em relação às identidades, aos papéis. É nesse mesmo vetor interpretativo que o sexo explícito tem que ser hetero direcionado, entre um homem e uma mulher.
OP - Nas vezes que a gente visitou as salas, havia muito menos gente assistindo os vídeos, do que fazendo outras atividades.
Alexandre Vale - As outras atividades, né? (risos) Circulando... É que aí funciona como lugar de caça, de encontro, isso é muito claro, ainda mais diante de um bem cultural como a pornografia, que é feito para excitar. Então você tem um ambiente de saturação sexual, de trabalho sexual, para muita gente o cinema é lugar de trabalho sexual. Na época da pesquisa, entrevistei algumas travestis, garotos de programa etc., que tinham no cinema uma fonte de renda. Também há o cinema como um lugar de iniciação sexual, fazer 18 anos; antigamente, você tinha de fazer 18 para ir ao cinema. Então, se o cinema fosse pornô, você tinha toda uma iniciação na sexualidade que se fazia por ver essas imagens. Eu acho que o cinema funciona um pouco nesse sentido de lugar, ao mesmo tempo, de trabalho e diversão.
OP - Então, o que caracteriza o cinema pornô é que ele é um gênero que exige uma atividade, uma ação, que ele não pode se circunscrever à exibição? Esses outros valores agregados, como cabines, shows de sexo explícito etc., é o que o gênero exige?
Alexandre Vale - É porque o gênero é feito pra excitar, no escurinho do cinema. Quer dizer, o escuro do cinema, como diz o próprio Barthes, é visto como a cor de um erotismo difuso e anônimo. Já tem essa aura sexual na idéia do escuro. Quer dizer, aquele que se contrapõe à racionalidade. Essa idéia da transgressão, tudo isso está posto para qualquer orientação sexual, na idéia do cinema, do ritual do cinema. Eu acho que é próprio da idéia, do espírito do cinema, aí você juntando com imagens da pornografia é mais fácil que você faça logo um tipo de serviço que ofereça as possibilidade. Até porque dá uma certa privacidade você ter uma cabine, um leque de possibilidades que são dadas pra uma experiência sexual que nunca teve muito direito à corte amorosa, como é a homossexualidade. Esses lugares muitas vezes se colocaram como possibilidade. Eles existem porque existem também uma sexualidade compulsória que diz como as pessoas deveriam agir.
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