Natália Paiva
Da Redação
Pedro Rocha
Especial para O POVO
Quem costuma freqüentar o Centro de Fortaleza, já deve ter notado a presença dos cine-vídeos pornôs, localizados entre livrarias, bares e lojas de departamento. O Vida & Arte foi ver o que há nessas salas de exibição - e por trás das telas
03/01/2007 23:18

Passear pelas ruas do Centro é mergulhar no caos visual e sonoro do emaranhado de gente que circula, dos milhares de pontos comerciais que esperam, das centenas de ambulantes que abordam. Mas não precisa ser um flâneur - aquela figura que caminha pelas ruas, fruindo cada detalhe da paisagem citadina - para percebê-los: os cinemas pornôs se inscrevem no Centro da cidade de forma clara, precisa. É um ponto comercial que aborda quem passeia ou anda apressado pelas calçadas das avenidas Major Facundo, Floriano Peixoto, General Sampaio. Nas paredes, pôsteres dos filmes a serem exibidos, cartazes com promessas de cabines individuais, ambientes climatizados e performances de sexo explícito ao vivo. "Eu encaro isso como uma coisa normal. Porque se tu vem passando em frente à livraria, tu tem fome de quê? De cultura. E em frente ao restaurante? Tem fome orgânica. Mas passando em frente ao cinema pornô tem fome de quê? É mais uma", resume Ricardo ("só Ricardo mesmo"), um dos proprietários dos cinemas Star, Majestick e Novo Jangada. No início dos anos 1990, ele trabalhava numa loja de móveis, perto do extinto Cine Jangada. Espiava o movimento. Quando a sala fechou, ele pensou na possibilidade de "abrir um parecido". Veio o Star, em 1992.
Ali, Cleber Cavalcante, 33, trabalha há quatro anos (já está no ramo há dez). Ele fica na bilheteria, a maior parte do tempo. Do cubículo, registra os ingressos, recebe dinheiro e dá troco, além de comandar dois aparelhos de DVD e dois de som. Do monitor pequenininho, ele acompanha o que se passa nas duas salas de exibição. Casado e pai de uma menina de cinco anos, Cleber passa o dia inteiro ouvindo os gemidos das telas - os filmes, aliás, é ele quem seleciona: todas as terças-feiras, vai à locadora e escolhe 20 títulos, "quatro homossexuais e 16 'normais'". "Eu vendo um filme desse aqui é mesmo que tá vendo um desenho animado. Acho que o Pernalonga tem mais fundamento que isso", brinca. Na sala principal de exibição, cadeiras de plástico onde alguns homens se masturbam; passando por ela, há três ambientes: uma "sala gay" (também de exibição), uma série de cabines com monitores de 14 polegadas ("para entrar só ou acompanhado") e um jardim (para fins diversos, dentre eles jogar uma partida de cartas). O chão do hall das cabines e do corredor que leva ao banheiro e à "sala gay" é grudento.
O Cine Star, de acordo com Cleber, recebe uma média de 80 pessoas por dia. O público é majoritariamente formado por homens: num mês, entram no máximo três, quatro mulheres, apesar da fachada de apelo heterossexual. Um deles quase sempre é Marcos (nome fictício), 46, "cliente cativo". Mas ali, além de cliente, como ele próprio se define, Marcos ganha de R$ 900 a R$ 1.000 por mês, em programas de no máximo 15 minutos cada - mas não se considera "michê" ("profissional tem que sair com gato e cachorro, e eu só saio com quem tenho tesão"). Marcos freqüenta o Star desde 2001, quando faliu - era comerciante. Ele ainda acrescenta que a maioria do público dali é casada e vai com o intuito de fazer sexo. Quando conversou com a reportagem, às 15 horas de uma segunda-feira, Marcos já havia feito três programas no dia, todos agendados previamente. Essa é sua média diária.
Neudo (nome fictício), 30, freqüentador do Cine Novo Jangada, tem média mais elevada: são sete ao dia. "Tem dia em que eu consigo gozar quatro, cinco vezes. Tem cliente que exige isso. Aí pronto. Passando das cinco, já não agüento mais, vou-me embora". Neudo, que também é professor de ginástica ("aqui é só dinheiro extra"), diz que a idéia de fazer programas veio da rotina. "Aqui tem muita pegação, o povo pegando a gente nas pernas, no rosto, quer beijar na boca. Eles vão passando pela gente e perguntando quanto é o programa. E a gente cobra". Os programas são feitos nas cabines ou num motel (neste, o preço sobe). "Só hoje, apurei R$ 150. Cheguei com R$ 1 na carteira", admira-se. Neudo, que em Aracati ouvia o pai dizer "ruim é roubar, mas o resto...", freqüenta o Novo Jangada às quintas, sextas e sábados.
O Novo Jangada abriu suas portas em dezembro de 2003. Da sala principal de exibição (177 poltronas), pode-se subir uma escada para o bar. Lá em cima, às 18h30 das quintas, sextas e sábados, mais de 50 homens se apinham na platéia ao redor de um divã sobre um tablado. Ali, a mulher espera. É o show de sexo ao vivo. Um homem da platéia sobe no divã, na mulher e tenta ejacular. O público participa e vaia ("Sai daí, 'Tony Ramos'!", "Nem levanta, ó!"), ora dá gritos de força ("Vira ela!", "Esse come!"). Se o homem não consegue, vai um segundo. Se este não conseguir, podem tentar até cinco homens.
Seu Everardo Ferreira, de 42 anos, além de gerente, faz o serviço de narrador. Com o microfone em punho, tenta se manter imparcial. Por trás do bar, estão as cabines, apertadas. É ali onde Kelly (nome fictício) trabalha há um ano. Ela começou a fazer programa com 16 anos, quando ainda morava em São Luis, no Maranhão, de onde veio em 1994. Hoje, pode chegar a fazer 20 programas por dia. "Logo, logo a gente dá um ponto final nisso, se Deus quiser. Tem certo tempo que a gente tem que parar. Imagina chegar aos 50 anos fazendo programa? (risos) Esse dinheiro que a gente consegue durante tantos anos de prostituição tem que investir em alguma coisa, para se estabilizar", explica.
Kelly afirma que alguns clientes ainda pedem para não usar camisinha, o que "se torna uma confusão" porque ela não aceita de jeito nenhum. "Há três meses, eu levei um tiro, aqui (aponta pro rosto, lado direito). Ainda tô em tratamento. Ele (o cliente) não quis me pagar, disse que eu iria com ele de um jeito ou de outro". Apesar de ter prestado queixa, Kelly diz que seu ex-cliente continua a ameaçando. "Ele fala que matar um travesti é o mesmo que matar um cachorro, que um cachorro vale mais. A sociedade exclui, tira a gente do meio deles, mas é a sociedade que procura a gente". Ainda existe preconceito? "Com certeza, sem sombra de dúvida", afirma um pouco antes de dizer que já teve namorado, mas que hoje não quer mais. "Já me decepcionei muito. Quero só terminar de conseguir as coisas pra abrir um salão".
As mulheres estampadas nos cartazes da entrada são embalagens ambíguas. Afinal, nos cinemas elas só existem na tela ou no palco - pelos corredores, apenas homens, em relações com outros homens. No erotismo difuso e anônimo do escuro-breu de salas e cabines, uma possibilidade de livre-expressão? "Aqui, eu tô vendendo o quê? Sonho. O cara vai ver um cena que não vê em nenhum outro canto", afirma seu Ricardo, quando questionado sobre a diferença entre seus cinemas e os bordéis - estes, em sua opinião, "vendem apenas sexo". Seja como for, uma coisa é certa: quando um cliente entrar na sala de exibição principal do Star, cercada por pôsteres de mulheres semi-nuas, e Marcos lhe notar certo desconcerto, este talvez avise: lá atrás, há uma sala gay.
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