Felipe Gurgel
da Redação
A banda cearense Plastique Noir foi escalada para o WGT, o maior festival gótico do mundo, em Leipzig, Alemanha. O quarteto segue atrás de patrocínio até lá - quando se apresenta em maio de 2007. Ao O POVO, o vocalista Airton S conta o que representa o Plastique e seu acento na subcultura gótica
02/01/2007 23:54

O nome é francês ("plástico negro") e a estética soa estranha aos olhares mais puros. O Plastique Noir, rara banda de estilo gótico dark new wave - vertente do rock originária do punk, ganha boa projeção em pouco mais de um ano. Airton S (vocalista) conversa, em entrevista ao O POVO, sobre o convite para o Festival Wave Gotik Treffen (WGT). O evento é o maior festival gótico do mundo e será realizado durante os próximos dias 25 a 28 de maio de 2007, em Leipzig, Alemanha. Mais de 150 artistas de todo mundo, adeptos e simpatizantes do goticismo se reúnem entre palcos e barracas de produtos medievais, góticos e culturais.
O Plastique Noir busca apoio público para bancar as passagens de avião até lá. "Eles (do WGT) confirmaram o convite há um mês. Havia um edital do Ministério da Cultura para custear passagens de artistas que fossem para fora, mas fecharam as inscrições logo quando a gente foi convidado", situa Airton.
De fato, o convite parece corroborar para que o release da banda seja devidamente respeitado. Airton S (voz), Márcio Benevides (guitarra), Danyel Fernandes (baixo) e Max Bernardo (teclados e sintetizadores) estão no grosso das manifestações culturais de Fortaleza que não se bitolam em clichês e penam para conseguir bons espaços. Parte da imprensa local deve correr atrás agora.
Antes do WGT, o Plastique Noir estará na Bahia em março de 2007, na maior festa do gênero no Nordeste: a Darktronic. O vocalista conta das origens do grupo até a oportunidade alemã. Pontua a ocupação do tecladista Max Bernardo - na linha da própria estética da banda. Max é agente funerário. "Ele vende a possibilidade de você jazer, faz seguro de vida. Costuma dizer que prepara o último desejo da pessoa em vida", diz, entre tantos assuntos. Obscuros ou não.
Até o estranhamento local: "no show de abertura que fizemos para o Engenheiros do Hawaii, as pessoas riram, houve um certo esvaziamento à frente. Mas todo show da gente aparece um cara de sobretudo para dizer 'vocês salvaram a minha noite'. A gente ri muito disso também. Nossos ensaios são bem engraçados".
O POVO - Qual foi o caminho até o convite para tocar no Festival?
Airton S - Sempre foi vontade do Max. Uma meta que ele estabeleceu. E a gente sempre quis produzir material e jogar para fora daqui. Sem menosprezar o local. Ele mandou material e já vinha martelando isso há dois meses com eles (a produção do WGT). Nossa primeira demo (Offering) chegou na mão deles. E a gente já tinha referências de lá por contato com o Elegia (SP), banda que já tocou duas vezes no Festival.
OP - Vocês têm informações do Festival a respeito do público? É um perfil mais curioso ou é aquele tipo de platéia que só acolhe os headliners (grandes atrações)?
Airton S - A coisa é bem democrática. É a celebração de uma subcultura. Por ser um festival temático, antes das pessoas irem porque vai tocar essa ou aquela banda, elas vão para o WGT. Gostam do novo. O festival tenta trazer um certo exotismo. Para eles, uma banda do Brasil é inusitada.
OP - O release da banda começa com uma observação sobre o tédio da cena local em relação a algumas possibilidades artísticas que não seriam bem exploradas por aqui. Hoje vocês vêem uma tendência diversa rolando ou a coisa continua estagnada nesse sentido?
Airton S - Com certeza temos outros ares. A gente tem que, inclusive, reformular aquele texto. O problema é que a base do release é a mesma desde o início da banda, só nos preocupamos em atualizar as conquistas que tivemos. O boom da tríade Karine (Alexandrino)-Montage-Cidadão (Instigado) não havia ainda. Temos referências novas. O ano de 2006 foi divisor de águas. Todo mundo está viajando - antes todos sabiam quando uma banda daqui viajava para fazer show. Hoje não. Sendo de maior ou menor porte, muitas bandas conseguem viajar com seu trabalho. Isso é ótimo.
OP - O fanzine Guilda começou e despertou uma idéia de montar uma banda tal qual o perfil do Plastique Noir. Como anda o trabalho com a publicação?
Airton S - Parada. Completou um ano e só saiu o número zero. A procura é grande. Tem lojas em São Paulo que têm disponibilizado. Era para sair de dois em dois meses. Todos escrevem para o zine. Tem ensaios sobre a cultura gótica beirando o academicismo... Mas a gente já está começando a fazer o número 1. Demora porque somos muito perfeccionistas. O número zero foi lançado na quinta edição da (festa) Dança das Sombras. Na próxima, a Rebel Rockets (grupo cearense já extinto) vai fazer uma reunion - eles foram a primeira banda gótica daqui. Devo cantar com eles agora. A gente costuma dizer que continuamos de onde eles pararam.
OP - É notável que a proposta da banda dialoga com o mundo de forma universal - e absorve isso de forma convicta. Vocês percebem um estranhamento local?
Airton S - Sim. Mas já foi pior. O que a gente sempre quis deixar claro é que houve um equívoco de algumas gravadoras para tentar vender o doom metal como se fosse gótico. Então a primeira coisa que a gente fez foi procurar comunidade (no orkut) de góticos em Fortaleza. Começamos, sem arrogância, a “doutrinar” esse público que é mais teen (jovem), influenciado por bandas como o Nightwish. Muitos passaram a investir na drum machine (bateria eletrônica que a banda usa). Até o George Belasco (músico local) comprou uma (risos). A nossa (Sister Hurricane) é maravilhosa. Porque baterista é uma raça ruim, reclama de tudo. Já ela não discute nada e não erra o tempo das músicas.
OP - Ao que parece, o circuito de festivais independentes tem definido um calendário forte de eventos com bandas que têm algum compromisso com a carreira, não apenas com a questão comercial. Vale dizer que o Plastique Noir já surgiu desde o início direcionado a esse mercado?
Airton S - Sim e não. Sim, porque isso vem como conseqüência, ao meu ver. Mas sempre tivemos cuidado em focar na subcultura gótica. E a gente não vê isso como uma bitola estilística. Ela tem uma infinidade de possibilidades. Mas nos festivais rola sempre mídia, que é bem vinda, a gente não nega essas possibilidades. Sou meio temeroso de público, mas a galera costuma elogiar. A gente tá fazendo um clipe de Silent Shout. Em animação. A gente brinca dizendo que vai ser o primeiro clipe surrealista do Ceará. Busquei uma figura humanóide se debatendo sem boca.
OP - O estereótipo aponta que o dark é uma pessoa negativa - pois aborda a morte de forma natural e essencial. Qual é o maior equívoco dessa impressão?
Airton S - O (equívoco) central de todos é essa relação que não existe. Pois somos pessoas que rimos à beça, por exemplo. E gostamos muito de música melancólica e outras formas de obscurantismo porque há algo de belo nisso. Me sinto bem ouvindo. A gente não confunde fazer música gótica com ser gótico. O gótico até tem um pouco disso. São pessoas meio recatadas, não se definem como góticas. Esse estereótipo se deve em certa parte por ignorância, porque o nascimento da palavra surge de maneira sarcástica. Sempre foi divertido celebrar isso. A gente não procura a solidão para se esconder.
SERVIÇO
Plastique Noir - Para contatos e informações da banda: (85) 3225.1097. Email: airtonoir@gmail.com. Site: www.plastiquenoir.kit.net. Mais informações e imagens do Festival WGT: www.wave-gotik-treffen.de
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