Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Vida & Arte

PONTO DE VISTA

A Cultura de suspensórios

Regina Ribeiro
da Redação


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

02/01/2007 23:54

O nome do novo Secretário da Cultura do Estado, o doutor em Filosofia, professor da Universidade Estadual do Ceará e jornalista, Francisco Auto Filho, saiu no dia 31 no pacote com a relação dos últimos integrantes do secretariado, divulgado em doses homeopáticas no aperreio entre o Natal e o Ano Novo. Foi uma surpresa. Ele não estava cotado na bolsa de apostas que havia em torno do nome que iria substituir a antropóloga Claudia Leitão, ex-secretária. Ela deixa como principal legado uma forte interiorização das ações da Secretaria da Cultura no Interior do Estado, um lastro de 85% de secretarias de cultura criadas em todo do Ceará, um mapeamento do patrimônio cultural estadual e críticas severas em torno da formação para as artes abandonada pela ex-gestora e justificada por ela em termos de opção. "Não dava para fazer tudo e tive de fazer escolhas", afirmou Cláudia Leitão em várias ocasiões.

Fechou-se o Instituto Dragão do Mar, enterraram-se propostas como a formação de um Pólo Audiovisual. Chegaram os editais num alinhamento com o Ministério da Cultura, em nível federal, e os eventos culturais que giraram em torno da cultura oral do povo cearense, da música clássica, dos livros, que subiram a serra e estenderam-se pelo mar e sertão Ceará afora. O novo secretário terá ainda de administrar uma pasta que precisa urgente de renovação de pessoal. A Secretaria de 40 anos, completados no ano passado não renova seus quadros há anos e uma boa parte dos funcionários está prestes a se aposentar.

Agora, as ações para uma política cultural cearense estão nas mãos do filósofo, professor e jornalista de linha marxista. Ele é petista, foi o primeiro presidente do PT em Fortaleza. Ligado à prefeita Luizianne Lins, coordena o Movimento de Conselhos Populares de Fortaleza (MCP), contribuiu como consultor nas discussões da Lei Orgânica do Município sancionada no fim de 2006 e está ligado ao Plano Diretor Participativo da Capital. Há mais de 20 anos ele criou e coordenadou na Uece um grupo de estudo sobre Marx. Ficou na coordenação por pouco tempo, mas o grupo seguiu com a leitura crítica do clássico O Capital, de Karl Marx, que rendeu o livro Pensando com Marx, de Francisco José Soares Teixeira, um dos membros do grupo, ao lado do filósofo Manfredo de Oliveira (UFC), Meneleu Neto (Uece), entre outros. É membro do Conselho Editorial da Revista Crítica Marxista. É filiado ao PT e nunca exerceu cargo da administração direta.

É um homem do debate, tem fluência de idéias, é conhecido como de fôlego curto para muita conversa, mas tem experiência com grupos populares e movimentos sociais, e é dono de uma formação humanista de primeira linha. É comum encontrá-lo nas poucas livrarias dessa cidade vestindo jeans e suspensórios e carregando sempre o cachimbo. O que só a prática vai dizer é se o pensador Auto Filho atenderá ao critério básico apontado como primordial para o cargo: saber lidar com as demandas da arte ao mesmo tempo em que tem jogo de cintura política para lidar com os jogos iniciáticos da burocracia e um orçamento apertado.

Tudo isso sem contar com o desafio de promover uma política cultural que atenda as necessidades do projeto do atual governo e que esteja em sintonia com a nova visão de cultura que impera hoje no Brasil e no mundo. Uma cultura com nuances tão próximas do mercantil que seja capaz de contribuir com a geração de emprego, renda e desenvolvimento, sem esquecer de ser alimento para a alma. Em suma, promover a cultura como um negócio, o que torna a discussão um prato cheio para o marxismo, mesmo o remoçado após o enfrentamento da revisão crítica a que vem sendo submetido.

Leia mais sobre esse assunto


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato