Após muitas especulações e uma boa demora, o nome novo secretário de Cultura finalmente veio a público. No último sábado, o jornalista e professor de Filosofia da Uece, Francisco Auto Filho, foi anunciado para o cargo. Na bagagem rumo à Secult, ele traz o pensamento marxista e o envolvimento com os movimentos sociais
02/01/2007 23:54

Na contramão do burburinho político, a gestão da Secretaria de Cultura (Secult) acabou ficando nas mãos do professor de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Francisco Auto Filho. A indicação foi feita na tarde do último sábado e pegou o próprio professor de surpresa. Ele é um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores - o primeiro presidente da sigla no Estado - e chega à Secult sob influência da prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT). Enquanto isso, a Capital está à espera da criação de uma Secretaria da Cultura e um gestor.
Convite aceito, Auto Filho deve agora mergulhar nos números e nas ações deixadas pela antiga secretária, Cláudia Leitão, para só então começar a tocar as atividades da pasta. "Quero trabalhar em conjunto com a Comunicação, com as secretarias de Ciência e Tecnologia, de Turismo e de Trabalho e Desenvolvimento Social, além de investir na TV Ceará, mas tudo é ainda muito genérico", adiantou ele, por telefone, no domingo. No entanto, isso foi tudo o que o professor falou por enquanto. Ele preferiu não aprofundar a conversa porque ainda não não pôde discutir suas idéias para a Cultura com o novo governador, Cid Gomes (PSB). "Preciso sentar com ele e mostrar o que já pensei, mas antecipo que pretendo fazer uma gestão democrática e republicana, sem restrição a ninguém", disse.
Até o último sábado, quando a escolha de Auto foi divulgada à imprensa, o nome dele não figurava entre as apostas para a pasta. Os mais cotados eram Clodoveu Arruda, vice-prefeito de Sobral e ex-secretário de Cultura do município, Paulo Linhares, ex-secretário de Cultura dos governos Ciro Gomes e Tasso Jereissati, e o deputado estadual Artur Bruno (PT), indicado dias antes para assumir a pasta de Trabalho e Desenvolvimento Social.
Para uma parte dos artistas, o professor ainda é desconhecido. Para quem já acompanhava a atuação política e intelectual dele, a escolha foi bem recebida. "Auto Filho constitui-se em uma referência, um paradigma, por sua sólida formação intelectual, humanística, aliada a uma militânca política de esquerda que fez história nos movimentos populares do Ceará. É, por isso, e, sobretudo por exercer sempre a crítica com rara independência de pensamento e pertinência nas proposições, um homem cuja bagagem o credencia à Secretaria da Cultura", afirmou o teatrólogo Ricardo Guilherme.
Apesar de se mostrar surpreso com a indicação, Pingo de Fortaleza também aprovou o nome. "Acho que ele vai saber acompanhar e encaminhar coletivamente as discussões que nós, artistas, já temos acumulado nos últimos anos. Além disso, a pasta dele é privilegiada por receber um legado iniciado pela Cláudia Leitão (a ex-secretária), que é o trabalho estruturante no Interior do Estado", disse.
Auto Filho é um dos mais representativos intelectuais da esquerda cearense. Seguindo uma linha de pensamento marxista e atuando fortemente em movimentos sociais (como o Movimento dos Conselhos Populares, coordenado até então por ele), ele deve trazer alguns de seus posicionamentos como direcionamento para as ações da Secult. Segundo a também professora de Filosofia da Uece, Sylvia Leão, o nome do filósofo é representativo para a Cultura. "Acho que ele têm a condição fundamental para o exercício desse cargo, que não é somente o conhecimento da própria Cultura, mas a visão de buscar o desenvolvimento regional sem ficar relevando só folclore ou uma cultura para turista", comentou.
O gravurista Eduardo Eloy concorda. "Ele tem um perfil político, ligado tanto à cultura quanto à intelectualidade, e acompanha os movimentos sociais que giram em torno da cultura. As expectativas são boas". No entanto, ele aponta um desafio para o próximo gestor. "A Secretaria de Cultura cresceu e vem se implantando como uma referência importante para a sociedade, que cobra cada vez mais uma atuação eficaz dela". Outro desafio para Auto será trabalhar em um governo de coalizão, que inclui partidos das mais diferentes vertentes ideológicas. Eloy considera que a experiência e o traquejo do professor no trato político deve ajudá-lo a enfrentar a empreitada. "No mundo pós-moderno, as relações institucionais e políticas se perpassam, não vivemos mais em uma época de sectarismo e segmentação. Acho que Auto Filho vai saber dialogar bem com todos esses perfis", disse.
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