ANO NOVO
Inquietudes humanas
30/12/2006 17:44
Antes que a internet viesse aproximar as pessoas, Hélio Rôla mantinha uma comunicação constante com os amigos através de postais - neles, o traço multicolorido e inquietante do artista plástico casava-se com pequenos textos, às vezes apenas uma frase, entre a ironia e a graça. De poetas, de filósofos, de cientistas. Agora, Hélio Rôla continua enviando seus petardos, via computador. "Trata-se de um contentamento, de uma identificação vigorosa com alguém que conversa conosco, que declara suas inquietações, que se move, participa da vida. E o faz sem perder o acento crítico ou o humor, sem enveredar pelo entretenimento ou pelos dilemas angustiados da criação, respectivamente. O que se passa é que Hélio Rôla está tão repleto de humanidade que não há como não compartilhá-la. É disto que somos feitos, afinal: humanidade. Não se trata do artista ou de sua obra, mas sim de uma semelhança compartilhada, que busca um diálogo aberto com quem se aproxime". Quem disse foi o poeta (e cúmplice) Floriano Martins, em entrevista que ele realizou com o artista para a revista eletrônica portuguesa TriploV. Hélio Rôla, ainda menino, fez parte da Scap - a Sociedade Cearense de Artes Plásticas. Mas começou a encarar a arte, mesmo, na década de 70, quando fazia pós-graduação nos Estados Unidos. Hélio Rôla compartilhou sete de seus postais virtuais com os nossos leitores.
1. Feliz Ano Novo - quem dá mais? " Assim como a ciência procura reconhecer como os fenômenos se produzem e não por que, da mesma forma ela chega a conceber de que maneira ela própria funciona, e não por quê. Seu objeto, este sim, é despojado de projeto. Um instrumento polivalente sem finalidade. Ela é livre. Por liberdade entendo não o mesmo que a política e a metafísica, mas o que a mecânica diz a seu respeito. Ou a linguagem ordinária. Da mesma forma que diz que uma mulher é livre quando não tem uma relação, ou quando não está mais apaixonada. Livre sem constrangimento para se prender. Polivalência sem projeto, sim, reduzida à finalidade sem objetivo, como uma arte, a ciência se oferece por todos os lados" (Michel Serres).
"Nós seres humanos modernos vivemos sob duas inspirações culturais básicas e difundidas: uma, segundo a qual o mercado justifica tudo, e a outra, de que todo o progresso é um valor que transcende a existência humana. Isto se expressa no fato de que praticamente tudo o que nós humanos modernos fazemos é feito em relação ao seu valor de mercado, e de que falamos e agimos como se fôssemos sendo arrastados por uma onda de progresso à qual devemos nos submeter" (Humberto Maturana).
Saudações da pARTE do hélio rôla (Fortaleza é nossa debilidade). a imagem digital final a partir de um desenho pastel/papel e os títulos, para criar um clima, e criam?, são de minha responsabilidade
2. Quem somos nós?
"Uns indiferentes. Existo e penso a partir de um lugar onde nada me diz respeito" (Michel Serres)
3. Ainda a dialética/ do macaco ao humano
" Se queremos construir uma convivência democrática, temos que assumir que a democracia se funda no respeito pelo outro e que o respeito se aprende na relação materno-infantil e se pode conservar se somos cuidadosos no desenvolvimento das crianças, de modo a que cheguem a ser adultos capazes de consciência social" (Humberto Maturana).
4. Passagens, caminhos e percursos
"Não há rito de passagem entre as ciências, ou entre as artes, ou entre as religiões. Agora as ciências se insurgem contra as religiões. Querem fundar um mundo baseado no ateísmo, como se elas também não fossem medidas essencialmente por uma fé cega. Logo em seguida entrarão em campo as artes, sabe-se lá reclamando o quê. Talvez um mundo sem constatação. A plenitude estética é também uma questão de fé. Chegaremos todos, ao final, o carvão já acabando no churrasco, a cerveja já congelada, à conclusão de que somente as religiões perduram e são mesmo a medida de todos os homens. Ou seja, as artes e as ciências não passam de pequenos momentos de fraqueza" (Floriano Martins).
5. Paisagem cinzenta
"O vulcão interior sacode a casa onde dormem as feras e as armas. Tem esporos de ansiedade e de preguiça no vão da porta trancada pela raiva. Uma mão busca o trinco no momento esperado do sinistro. O incêndio do álcool se aviva com lágrimas e roucos soluços de impotência. Soa o timbre do relógio. Falso alarme, é um telefone vizinho que insiste em despertar os adormecidos. O poeta atende a essa chamada que se extingue. Vozes inexistentes discutem em seu ouvido. Ausência de uma linha telefônica por falta de pagamento. Quanto custa viver em uma sociedade de morte? Pergunta ao oco de sua mão. Interferem os ruídos da rua e o zumbido do mosquito. Treme a noite e a paisagem. Caem cinzas de tabaco ao solo e voam pelos ares as garrafas. A pontapés, o poeta força a saída de emergência. A cidade aparenta sossego e doces sonhos. Uma poeira vulcânica maltrata sua garganta; desce silencioso até o esgoto" (poema de José Angel Leyva, tradução de Hélio Rôla).
6. Arcaico/contemporâneo? Aos mortos nos feriadões sagrados e profanos
"Um automóvel percorre o espaço, isso é natureza, e concorre para a vaidade do seu proprietário, isso é a cultura; postos juntos, esses dois veículos que são um só nos permitem, no fim de semana ou nas férias, aliviar nossa sede de sacrifícios humanos, aqueles que oferecemos, nas datas exatas e solenes das festas, a deuses que pensávamos esquecidos: máquina, objeto técnico, que acentua nosso domínio da extensão, que regula algumas relações grupais ou de psicologia viscosa, mas desce subitamente com essa sonda, ao fundo de uma antropologia formidável. Entenda esse adjetivo no sentido clássico de aterrador: mal ousamos olhar na direção desse sol... Você vê como se passa sem cesura da ciência - aqui a termodinâmica e a resistência dos materiais - à técnica, e desta à sociologia, depois à história das religiões, da qual acabo de dizer que ele se aproxima do núcleo ardente" (Michel Serres).
7. Política é osso. Siga a estrela
(Este postal não tinha texto nenhum. E nem precisa. O cão magro, espiando uma lua triangular sobre um cenário vermelho, é eloquente por si - eis o nosso uivo mudo).
PARA GOSTAR DE LER
"Tenho um amor profundo por Fortaleza. Digo que sou um bicho meio raro, o fortalezense de muitas gerações é raro. De certa forma, este livro é também uma declaração de amor a Fortaleza de hoje mas sobretudo àquela que meus pais contam, a que meus avós contavam. Aquela cidade mais amena. Fico com a consciência intranquila de ver a miséria, as crianças sem escola, na rua, este cinturão de pobreza e exclusão. Fico sonhando que Fortaleza pudesse se recuperar e ser uma cidade para todos e não para alguns. A Fortaleza daquela época tinha pobreza também, mas não tinha a miséria de hoje". Angela Gutiérrez fez esta elegia em prosa para sua cidade natal numa entrevista, à época do lançamento de Avis rara - um suave romance em que a cidade é um dos personagens principais. Professora da UFC, e há dois anos à frente do Ica - o Instituto de Cultura e Arte da universidade, Angela Gutiérrez cria seus romances no tempo que não lhe sobra: nas madrugadas insones. Foi assim que nasceram O mundo de Flora e Canção da menina, e mesmo o romance histórico lançado este ano: Luzes de Paris e o Fogo de Canudos. Angela Gutiérrez escreveu também Vargas Llosa e o romance possível da América Latina, sua tese de doutorado publicada há dez anos, e organizou, com Sânzio de Azevedo, a edição comemorativa Iracema, lenda do Ceará - 140 anos. "Solidária com os sonhos de nosso povo consciente de sua cidadania, desejo para todos os brasileiros: alimentação, moradia, educação, cultura, saúde, lazer, com justiça social e paz. Que livros poderiam expressar esses sonhos? Sugiro alguns (lembrando que deixo de citar outros importantíssimos pois esta lista é circunstancial) que desenham imagens do Brasil, permitindo-nos melhor conhecer nossos próprios sonhos para tentar realizá-los".
1. Nos meados do século XIX, um livro, publicado anteriormente em folhetins de jornal, e lido avidamente pelo povo brasileiro, tentava construir uma imagem de nação à moda romântica. Em 2007, este livro - O guarani (1857), do cearense José de Alencar - completa 150 anos. Reler o romance de Peri e Ceci pode ser uma experiência de prazer e uma forma de entender desejos e mitos que persistem no Brasil de hoje.
2. E já que estamos no Brasil Colônia, que tal a leitura do pouco conhecido O tetraneto Del-Rei (Francisco Alves, 1982), de Haroldo Maranhão, que, parodiando os romances históricos ortodoxos, encaminha o leitor à descoberta do outro lado da história, mesmo sob o disfarce da ficção, e a refletir, com humor, sobre nosso país?
3. Outro livro, escrito em 1971 e relançado este ano, Romance d´A Pedra do Reino (2006), de Ariano Suassuna, não pode faltar na estante do brasileiro que quer conhecer seu país através de nossas grandes obras literárias e pela voz do fascinante Quaderna.
4. Adéle Toussaint-Samson, que esteve na Corte brasileira por quase 15 anos, publica em 1883 seu texto Uma parisiense no Brasil (Capivara, 2003): olharmo-nos no espelho (mesmo que deformante) do Outro, do Estrangeiro ( e quantos estrangeiros mais famosos escreveram no mesmo século XIX sobre o Brasil: Agassiz, Bates, Derby, Hartt, Martius, Saint-Hilaire...), também é um modo de encontrarmos nossa própria face.
5. O romance Travesuras de la niÀa mala (Alfaguara, 2006), de Mario Vargas Llosa, publicado, no mesmo ano, em espanhol e em português, ao passear, com graça e picardia, pela história da América Latina e da Europa na segunda metade do século XX, confronta-nos com questões que também afligiram ou afligem o Brasil: ditadura, AIDS, tráfico de drogas, violência, entre muitos outros.
6. Através de Márcia Camargos que, em Villa Kyrial, crônica da Belle Époque paulistana (SENAC, 2001), recupera a história cultural de São Paulo, retratando Freitas Valle e sua casa, ponto de encontro de artistas e intelectuais da época, podemos reconhecer o nascimento de uma das facetas culturais de um país reconhecidamente de contrastes.
7. Mário de Andrade, com seu Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928; aos colecionadores: ver edição ilustrada por Rita Loureiro, de Villla Rica Editores, 1995) encerra nossa lista com uma obra (romance folclórico, rapsódia, ou o gênero que se lhe queira atribuir) plena de humor e imperdível para qualquer brasileiro. Não vou sugerir Grande sertão: veredas (1956), obra máxima da novelística brasileira no século XX, porque já o relemos em 2006, no cinqüentenário de sua publicação. Nem Os sertões (1902), de Euclides da Cunha, porque todo brasileiro já o leu e o releu no seu centenário, em 2002. Nem os livros de Capistrano, nem os de Câmara Cascudo, nem... enfim, a lista é de sete e um ponto final é preciso. Boa leitura em 2007 e um Brasil melhor!
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