Cena do filme Amor do Palhaço, de Armando Praço, executado a partir de edital da Secult/FOTO DIVULGAÇÃO
Cena do filme Amor do Palhaço, de Armando Praço, executado a partir de edital da Secult/FOTO DIVULGAÇÃO
CULTURA ESTADUAL
Editais em alta formação em baixa
A descentralização das ações e a manutenção dos editais foram ações da Secretaria da Cultura do Estado consideradas positivas pelos produtores culturais e artistas, que agora cobram políticas de incentivo à formação e à visibilidade da produção cultural

Amanda Queirós
da Redação

21/12/2006 00:24

Após quatro anos à frente da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), a antropóloga Cláudia Leitão delegou à secretária-adjunta, Lúcia Cidrão, a missão de se despedir da pasta. Ela está na França de férias e só retorna no início de 2007 para transmitir o cargo ao próximo secretário. Apesar de ter enfrentado um início de gestão difícil, conturbado por fortes críticas da classe artística, Cláudia conseguiu driblar as queixas e insatisfações e virar o jogo a seu favor. Hoje, num balanço da gestão, os mesmos artistas que a haviam criticado inicialmente fazem elogios e torcem pela continuidade de algumas medidas implementadas no governo de Lúcio Alcântara, mas sem perder de vista a cobrança de novas ações para o próximo gestor.

A medida mais aplaudida da atual secretária diz respeito à descentralização da atuação da pasta, com o mapeamento dos patrimônios material e imaterial dos 184 municípios cearenses e a criação de eventos estruturantes nas macro-regiões do Estado, como o Festival de Música na Ibiapaba e o Festival de Dança do Litoral Oeste. A opinião favorável a essa ação é unânime. "O trabalho de estender a ação para além de Fortaleza foi o grande mérito da Cláudia. Ao descentralizar os eventos, ela atendeu a uma demanda antiga desses pólos de produção", afirma o ator e diretor teatral Ricardo Guilherme.

O diretor do Instituto de Fotografia do Ceará (Ifoto), Tiago Santana, concorda. "Apesar de ser apenas um começo, acho que foi um avanço importante e aponta para um rumo certo: o acesso de todos os municípios do Estado a ações da Secretaria da Cultura, valorizando as particularidades de cada região do Ceará, viabilizando o acesso das comunidades mais distantes a equipamentos e ações na área cultural", diz o fotógrafo. "A gente não tem que levar nada para o Interior, mas mobilizar as manifestações que já existem por lá, porque a cultura está em todo lugar", comenta o cantor Pingo de Fortaleza.

Outra política aprovada pelos artistas foi a manutenção e o fortalecimento dos editais, com a ampliação das áreas para as quais foram destinados recursos. "Na área audiovisual, acredito que houve uma evolução muito grande nesses quatro anos, principalmente na produção de curtas-metragens. Isso se deu, especificamente, pelos editais da Secult, que aumentaram as oportunidades de realização com o também aumento dos valores repassados", afirma o cineasta Tibico Brasil.

A presidente da Associação de Bailarinos, Professores e Coreógrafos de Dança do Ceará (Prodança), Marina Carleial, também endossa essa política. "Aprovamos os editais e queremos que esse método de escolha de projetos permaneça nas próximas gestões. Além das categorias de premiação serem interessantes, a gente entende que essa é a forma mais democrática, clara, aberta e transparente de apoiar quem faz dança no Estado", diz ela, que também destaca a abertura de diálogo da Secretaria com as entidades da classe artística.

No entanto, para os artistas ouvidos, a atual gestão da Cultura derrapou em alguns pontos. O mais grave deles foi a redução das políticas de formação continuada. As críticas resultam do trauma provocado pelo desmantelamento, logo no início da gestão, do Instituto Dragão do Mar, até então responsável pela manutenção de sólidos centros de formação como os colégios de Audiovisual, Dança e Design. "No momento em que se desfaz algo que estava dando certo, mobilizando os artistas e abrindo portas para muitos contatos, perde-se muito. A gestão que está se encerrando priorizou eventos pontuais, que são importantes, mas deixaram a formação a desejar", afirma Marina.

Segundo Ricardo Guilherme, essa foi a grande lacuna de Cláudia Leitão. "É preciso dar autonomia a esses novos pólos de produção através de políticas de formação que não sejam direcionadas da capital para o interior. A Secult devia dar o suporte intelectual e técnico para isso, incentivando a circulação interna da produção entre eles", diz. O quadrinista e artista plástico Weaver Lima aponta outra falha: a pouca assistência à cultura jovem do Estado. "O próximo gestor deveria ter algumas ações voltadas para quem gosta de quadrinhos, games e desenhos. O mercado de games é super-rentável e poderia gerar muitos empregos, mas não existe nenhuma política de incentivo para esse segmento. Essa produção não é vista no Ceará", pontua.

A falta de visibilidade da produção é ainda levantada pelo escritor Pedro Salgueiro. Para ele, os editais ajudaram a fomentar a produção, mas a circulação desses trabalhos acaba ainda tendo alcance restrito. "Houve alguns programas no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, como ciclos de palestras, lançamento de livros às quartas-feiras e a publicação de folhetos de autores iniciantes, mas tudo isso peca pelo pouco apelo de público. Uma solução seria a Secretaria trabalhar com uma divulgação mais arrojada. Talvez, se isso tivesse sido feito, haveria mais gente nesses eventos", comenta.

Na ausência de Cláudia à frente da pasta, as críticas dos artistas foram rebatidas por Pedro Domingues, coordenador de Ação Cultural da Secult. "Discordo da questão da visibilidade. Os eventos estruturantes tiveram grande público e ampliaram a cada ano o acesso à produção cultural", afirma. No entanto, para ele, houve realmente um déficit de programas de formação. "Nada acontece sem ônus. Acredito que houve um realinhamento de opções. Tivemos formação, mas de caráter inicial, como cursos de capacitação, até porque não compete à Secult o papel de Secretaria de Educação. Não podemos agir distanciados dos organismos que já trabalham com isso. O Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), por exemplo, absorveu a demanda do (extinto) Colégio de Direção Teatral com a abertura do curso de artes cênicas", explica.

Uma fala de Pedro Salgueiro resume o perfil desejado pelos artistas consultados para o próximo gestor. "Acho que deveria ser alguém do meio cultural com respaldo tanto entre os artistas jovens e os mais estabelecidos, mas também com preparo político. É preciso que ele esteja acima de qualquer grupo, com isenção moral, profissional e intelectual para exercer o cargo", conclui.


Meio cultural especula nome
Por hora, nenhum nome foi confirmado como novo secretário de Cultura. A lista do secretariado de Cid Gomes vem sendo discutida sigilosamente. A expectativa era que os nomes fossem divulgados na quarta-feira (20). Por enquanto, a especulação corre pelos meios culturais e aponta o vice-prefeito de Sobral, Clodoveu Arruda (PT), como um dos nomes com potencial para ocupar a pasta, devido à atuação dele como secretário de Cultura e Turismo deste município na administração de Cid Gomes (1996-2004). Clodoveu não quis se pronunciar sobre o assunto. Outra opção apontada pelos artistas foi Paulo Linhares, secretário estadual de Cultura de 1993 a 1998 durante os governos Ciro Gomes e Tasso Jereissati. Ele afirma não ter sido sondado para retornar ao cargo e que já está comprometido com outros projetos para 2007.

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