
CACIQUE João Venâncio: “E hoje, o que a gente não tem, é porque alguém tomou”/FOTO FCO FONTENELE
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TREMEMBÉ
Quando chora o canoé
Há 25 anos como liderança de sua comunidade, e com 15 de cacicado, João Venâncio fala sobre a luta dos tremembés pelo reconhecimento de sua etnia e demarcação de terras
18/12/2006 23:55
O cacique João Venâncio conta 25 anos de liderança em sua comunidade. Há 15 é cacique do aldeamento. "Uma luta muito pesada", diz. Venâncio também faz parte da coordenação da Apoime - Articulação dos Povos Indígenas de Minas Gerais, Espírito Santo e Nordeste. Além desta entidade, os tremembés fazem parte do Cita - Conselho Indígena Tremembé de Almofala, e da Copice, a Coordenação dos Povos Indígenas do Ceará. Sentado na sombra da varanda, ele conversa sobre a questão indígena, a natureza, a resistência tremembé. E diz que o inverno do próximo ano será melhor do que 2006. Experiência feita obsrvando a natureza. São indícios de boas chuvas, enumera, "o matapasto, quando fulora no verão; o canoé, quando chora". Canoé é um tipo de mangue que nasce em terra firme, fora da lama, e tem a capacidade de absorver o sal do mar. Ele diz que, antes, quando escasseava o sal, os tremembés temperavam a comida com a camada de sal retirada das flores do canoé.
O POVO - Aonde se distribui a comunidade tremembé, os aldeamentos?
João Venâncio - Começa da Almofala, e vem de lá pra cá, pega a Passagem Rasa, Varjota, Tapera, Batedeira, pega a pancada do mar e desce, Sítio Urubu, Mãe Guialto, Camboa, Saquim, Lamarão, Curral do Peixe, Barro Vermelho e Praia.
OP - Como o senhor vê a história de luta dos tremembés?
João Venâncio - Todos nós sabemos que Pedro Álvares Cabral não descobriu o Brasil, ele foi um invasor. Porque quando ele chegou aqui já encontrou os índios, com seus costumes, suas tradições, sua maneira de se organizar, sua maneira de viver, independente, sem precisar de ninguém. Foi a partir daí que começou a desordem. E hoje, o que a gente não tem, é porque alguém tomou, pra que o povo esquecesse sua cultura, que era pra dizer que não existia mais índio. Isto foi o que aconteceu e tá acontecendo. Antigamente, nascia uma criança na aldeia, você não tinha preocupação de batizar, nem registrar, nem nada. Hoje é uma querência, o menino quando nasce tem que ser pesado, tem que saber a cor do menino, a hora em que ele nasceu, quantos centímetros ele deu. Antigamente, o poder chamava-se palavra de honra. Hoje, quem não tem um documento, um CPF, uma carteira de identidade não compra nem uma passagem pra sair de um estado pro outro. Isto é o poder do papel. E mesmo assim, as coisas ainda não é resolvida, ainda não é feita, não é considerada e não é respeitada.
OP - E como está a questão da demarcação da terra tremembé?
João Venâncio - Isto já tem documento, já tá registrado. A luta continua, porque o processo de demarcação tá emperrado. Porque aqui a gente tem duas lutas travadas. Uma, foi o reconhecimento da gente como indígena. Segundo, a questão da terra. Tá emperrado por que? A doutora Germana de Oliveira Morais, da Justiça Federal, deu uma liminar a favor, e depois renegou, deu uma contra. E isto até hoje tá na justiça. Está-se esperando uma perícia antropológica, já saiu a pessoa indicada pra fazer mas até agora ainda não foi resolvido. Enquanto não sai esta questão, a gente tá trabalhando com outras coisas, a educação diferenciada, a saúde, o artesanato, a questão cultural...
OP - Esta é uma questão muito importante...
João Venâncio - É o foco de toda a história, porque aí tem a força da espiritualidade, dos nossos mestres, dos nossos encantados. Cada um de nós está sendo alumiado por esta coisa maior.
OP - Qual a importância deste Centro Cultural, que está sendo inaugurado hoje?
João Venâncio - Uma importância muito grande. Quem veio aqui tá vendo, está conhecendo uma riqueza imensa que o povo tremembé tinha consigo guardada e nunca tinha sido valorizado. E hoje tá aí, na prática, a importância disso. Principalmente pra nova geração. Infelizmente tem pessoas que negam sua identidade porque não convive na comunidade. Este distanciamento faz ele esquecer. Muitas vezes o jovem tem que ir pra cidade grande, pra procurar emprego. Tem muitas pessoas com a natureza fraca. Quando a gente é forte, aonde for, ele não sonega. Ele tem que dizer o que ele é, goste quem gostar. Porque tá no sangue, na veia.
OP - E quanto à questão ambiental, um assunto da maior importância pra todo mundo?
João Venâncio - A gente, como índio, respeita a santa mãe natureza. E os brancos, considerados, estão destruindo tudo. O que está em volta da gente é tudo sagrado. Quando você tem seu pai, sua mãe, toda de manhã você vai lá na casa do seu pai, da sua mãe, se morar perto, e toma a bênção. A natureza pra gente é um pai e uma mãe, sem ela nós não podemos viver. E pra gente ter ela, tem que zelar, tem que respeitar. Ela é viva, ela lhe ajuda, ela lhe potreje. Você vê o que a gente perdeu: aonde é esse coqueiral da empresa (Ducôco), era só frutas tradicionais, era mangaba, era guaiaba, merda-de-calango, puçá, ubaia, araçá, caju, todo tipo de fruta, várias espécies. Alimento e remédio. Hoje não tem mais, a empresa acabou. A visão deles é outra, completamente diferente. A gente não tem ambição, não tem inveja e nem tem olho grande pelas coisas. O branco, a primeira coisa, é a ambição, a inveja, a bufunfa. Tem uma coisa aqui mas ele não se conforma, quer ter mais e mais e mais. E com isso quebra a ligação com a natureza. E a gente, pra derribar um pé de árvore, tem que ir lá, conversar com ele, dizer o motivo porque ele vai ter que sair dali. A gente, quando corta um dedo, enquanto não sara, tá dilurido. Do mesmo jeito é uma árvore. Se você não conhecer, não respeita.
OP - Por que os tremembés resistiram à ocupação, enquanto outros povos se diluíram, se misturaram ou foram exterminados?
João Venâncio - Porque os tremembés foram muito estratégicos, muito vivos. Teve um período que fizemos de conta que aqui não existe ninguém, vamos ficar silenciosos, como diz a velha história: vamos ficar por baixo do fogo do monturo. Você bota areia, ele sai queimando devagarzim, sai lá na frente. Assim fez o povo tremembé. Teve um período que teve que ficar em silêncio, e chegou o momento, bom, agora é hora de nós falar, dizer que estamos aqui, ninguém acabou-se. Estamos aqui vivos, com nossa cultura, com nosso jeito diferente. Foi aí que botamos nossa história pra frente, e os parceiros que foram chegando foram ajudando a divulgar a história da gente.
OP - Século XXI adiante.
João Venâncio - E bote século!
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