
DONA Expedita Tremembé repassa às novas gerações a arte que aprendeu com os antepassados - colares, pulseiras e adornos feitos com sementes e búzios, colhidos na comunidade de Varjota, em Itarema/FOTO FCO FONTENELE
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CENTRO CULTURAL
Arte e resistência Tremembé
Na última sexta-feira foi inaugurado o Centro Cultural Tremembé, no distrito de Varjota, em Almofala, município de Itarema. A casa abriga ateliê de pintura, serigrafia, cerâmica e tecelagem. O espaço é fruto de articulação entre a comunidade e diversas entidades
Eleuda de Carvalho
da Redação
18/12/2006 23:55
O pajé Luís Caboclo, o cacique João Venâncio, o jovem Fernando Tremembé e uma moça da aldeia balançam o maracá, secundados por um grupo que toca triângulo, violão e caixa, no centro do terreiro de areia alva, encalcada pela pisada cadenciada do torém. A dança circular envolve todo mundo que veio para a festa, tremembés de longe e de perto, parentes pitaguaris e tabajaras, velhos e crianças, representantes do assentamento Lagoa do Mineiro, a doutoranda em antropologia visual Joceny Pinheiro, os demais convidados - gente do Senai, do Sebrae, da Fiec. No meio da roda, destaca-se a figura alta de Demócrito Dummar, presidente do O POVO. Dez da noite, e o torém segue animado, o pessoal de olhos acesos pelo azedinho mocororó, a tradicional bebida feita de caju dos tremembés de Almofala. Os cantos se alternam, são cantigas que lembram a ligação deste povo com a natureza ("Na nossa aldeia/ tem beleza sem plantar"), recordam o aldeamento jesuíta do século XVII ("Graças a Deus/ o Pai Tupã e nossa Mãe Tamaim/ que nos trouxe a luz") e a disposição guerreira desta etnia insubmissa ("Quem me vê, não me enxerga/ quem me enxerga, não me vê"). Bolos, macaxeira cozida, pratinhos de grolado (farofa de tapioca) com caranguejo passavam de mão em mão. Uma celebração de fraternidade e fartura, para marcar a inauguração, na última sexta-feira, do Centro Cultural Tremembé, no distrito de Varjota, município de Itarema, a 270 Km da capital.
Boquinha da noite, a casa cheia, o terreiro tomado, e era chegando gente. Lá pelas sete horas, a inauguração oficial. O mestre de cerimônia, um rapaz da comunidade, vestido de calça e camisa mas com um cocar de pena azul, chama o cacique João Venâncio, que dá as boas vindas em língua nativa. Ele fala: "Temos que lembrar, neste momento tão oportuno, que os tremembés não são fantasia, são índios de verdade". O prefeito de Itarema faz um discurso rápido, e logo o apresentador chama o jovem Cícero, que criou uma peça, "da minha cabeça. São duas famílias, uma indígena, outra não. É baseada em fato real". Em cena, uma espécie de Romeu e Julieta no sertão, com final feliz. Então, é chamada a falar Maria Amélia Leite, da Missão Tremembé, desde os idos de 80 envolvida na causa indígena. "Sei nem o que dizer... Mas achei tão bom voltar! Estou com vergonha de não ter vindo mais vezes. Mas fico tão feliz de ver que vocês conservaram as árvores, isto é uma coisa importante", diz, e nomeia os amigos de tanto tempo, saúda a comunidade de Camundongo, que acaba de chegar. Depois, outro momento de arte, com o reisado (ou "reso") do mestre Marciano. São sete meninos, de calça e camisa, as cabeças cobertas por máscaras enormes, o menorzinho deles fazendo a "velha" (personagem que se vê, igualzinho, no cavalo-marinho de Pernambuco: mostrando a identidade indígena, que extrapola os limites artificiais das fronteiras). Eles realizam um vigoroso trupé, ao som do baião.
Dona Wânia Dummar, vice-presidente do Instituto Fiec de Responsabilidade Social e uma das principais responsáveis por esta festa, fala - seu breve discurso é de agradecimento. Primeiro, às lideranças tremembés: "Ao Luís Caboclo, desde o início no projeto; ao Fernando Tremembé, da Copice - Coordenação das Organizações dos Povos Indígenas no Ceará. Esta casa foi feita com o dinheiro conseguido pela Copice. Quero saudar os parceiros, como Maria Amélia, da Missão Tremembé; o Guimarães, do Sesi - que doou os teares. Ao Sebrae, Banco do Brasil, BNB". Em seguida, uma outra apresentação, uma dança das mulheres. Algumas vêm com capuzes feitos de algodão, outras trajam saiotes de penas e de palha. Cantam a Ciranda, cirandinha (resgatando não apenas a memória indígena como também a cultura tradicional ibérica). Finalizam: "Somos índias, somos destemidas/ somos tremembés, campeãs do mar".
Quatro da tarde. O sol ainda vai alto, mas a Casa de Cultura já está animada. Na varanda, uma rodinha curiosa espia o kit desenvolvido por Sebastião Alves, da Fiec. Fotógrafo, escultor e inventor, ele desenvolveu o "kit furadeira e esmeril" para perfurar as sementes e polir os búzios utilizados pelas artesãs em colares, pulseiras e gargantilhas. "Fiz de acordo com as necessidades delas. É bem prático, bem funcional e bem baratinho. E independente de energia". A bateria, um no-break de computador. A máquina é feita com um cortador de batata, uma pequena furadeira, um esmeril de ventilador de radiador de carro, peças de alumínio para os moldes em silicone (de acordo com o tamanho das sementes) e uma base em madeira. Ele também adaptou um equipamento para o trabalho em serigrafia, desenvolvido pelos jovens.
Por toda a casa, beleza. Destacam-se os desenhos de dona Maria Rosa, falecida este ano, "dançadeira de torém, uma pessoa cheia de vida, de alma, uma conversa maravilhosa. A igreja de Almofala, branca, ela via com todas estas cores", mostra Wânia Dummar. No quarto do tear, dona Maria Francisca Cabral exibe sua habilidade. É tecelã "desde deste tamanhim", diz. "Antes, nós fazia era fiar no fuso. Mas aí, acabou-se o algodão". São, ao todo, dez mulheres trabalhando, "é uma tecendo, outra trifilando, outra dando os nós. A gente canta, a gente dança", ri-se. Fazem redes, bolsas, passadeiras, jogos americanos. As peças são decoradas com motivos criados pelos desenhistas, como Maria Rosa, Navegante e Francisco José, transpostos pela técnica da serigrafia. A pequenina Expedita, boca banguela e riso tímido, vem chegando com seus colares, feitos de sementes de pau linhaça e búzios miudinhos. Na ocasião, foram distribuídos exemplares do livro Arte Tremembé, publicado pelo Sebrae-CE, em parceria com o Instituto Fiec e a ONG Irmãos do Ceará, em 2005. O texto é de Roberto Galvão. Além do Centro Cultural de Itarema, pode-se adquirir a arte tremembé no Centro de Artesanato Luíza Távora.
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