
Dyógenes Chaves: “A gravura é uma necessidade para a sobrevivência do artista” (Divulgação)
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ENTREVISTA
Caráter multiplicador
Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), o gravurista paraibano Dyógenes Chaves compreende a gravura como meio eficaz de democratização de acesso do trabalho de qualquer artista
16/12/2006 16:28
Seja pelo método tradicional ou com o auxílio de novas tecnologias, a gravura exige disciplina do artista. "Para fazer gravura, o artista precisa conhecer o material e, assim, poder tirar proveito das propriedades da madeira ou do metal. Há que se respeitar o material e os equipamentos", afirma o gravurista paraibano Dyógenes Chaves. Ele acrescenta que o trabalho coletivo na gravura acaba se tornando uma forma eficaz de divulgação da produção do artista no mercado de arte. "É a única categoria das artes visuais que tem sua produção em equipe, seja de artistas ou artesãos. Todos se ajudam, dão opinião, trocam informações. A gravura é uma necessidade para a sobrevivência do artista, para sua coletivização".
Além de membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), Dyógenes é vice-presidente do Clube da Gravura da Paraíba, fundado em 14 de outubro de 1984, em João Pessoa, como espaço para experimentação, pesquisa, preservação, divulgação e ensino da gravura, por meio de cursos, oficinas, ateliês coletivos, exposições, seminários e palestras. O Clube da Gravura procura aproximar-se de uma linguagem vanguardista, ao adotar métodos de impressão da gravura não convencionais, como a xérox. A experimentação também é forte nas obras de Dyógenes, que iniciou em abril o projeto "Gravura para todos: da galeria à escola", que procura divulgar a produção de gravura no Brasil para estudantes de escolas públicas. Em novembro, o gravurista esteve em Fortaleza, na II Bienal Internacional Ceará de Gravura, para debater o tema "Resistência ou não resistência da gravura", ao lado dos artistas plásticos Anico Herskovits e Mario Soro.
Para Dyógenes, fazer gravura no Brasil é o meio mais democrático e barato de sensibilizar as pessoas por meio da arte. Ele acrescenta que ainda existe incompreensão acerca do caráter multiplicador da gravura. "Chamar de múltiplo ou cópia, com sentido pejorativo ou não, é uma questão de semântica. O múltiplo, no mundo contemporâneo, já é uma questão fechada. Passar pela gravura, para o artista, é aprender disciplina e respeito. Colaboração e zelo vão gerar, no final, uma obra impecável. E não uma simples cópia", pontua. Em entrevista ao O POVO por e-mail, Dyógenes fala sobre os desafios de se dedicar à gravura, comenta que a xilogravura nordestina com a literatura de cordel deu "brasilidade" à gravura no País e aponta nomes de gravuristas brasileiros que se destacam no cenário da arte. (Camila Vieira)
O POVO - Poucos são os artistas hoje que se dedicam exclusivamente à gravura, que acaba sendo vista como um ato de passagem. Por exemplo, Rembrandt, Goya, Picasso e outros artistas renomados trabalharam com gravura em algum momento de suas carreiras, mas acabaram se aperfeiçoando em outras técnicas. O que a gravura representa para quem faz arte?
Dyógenes Chaves - Sempre houve o interesse dos artistas em usar a gravura para a divulgação e a democratização do acesso ao seu trabalho. Essa coisa de obra única, assinada somente por um artista, de supervalorização da obra única, no fundo, é uma imposição do mercado. Os artistas querem mesmo é mostrar o trabalho para que ele tenha sua valorização. Outra coisa importante é o fato de que, para se fazer gravura, é necessário ter acesso a equipamentos como prensas, que são máquinas pesadas e enormes, e materiais como papel, tintas, solventes, pedras e metais. E isso tudo, aliado ao trabalho em equipe. O artista necessita da ajuda de outra pessoa (que nem é preciso que seja também artista) para manusear a prensa ou, simplesmente, para a limpeza das pedras e metais. É a única categoria das artes visuais que tem sua produção em equipe, seja de artistas ou artesãos. Todos se ajudam, dão opinião, trocam informações. A gravura é uma necessidade para a sobrevivência do artista, para sua coletivização. Mas, principalmente, do ponto de vista do mercado (onde ele produzirá mais obras e, por isso, poderá comerciar por preços mais acessíveis).
OP - Em recente entrevista, o senhor afirmou que "todo artista deve passar pela gravura". Que especificidades a técnica da gravura oferece que fazem com que ela seja necessária para a pesquisa do artista?
Dyógenes - Fazer uma gravura não se trata de apenas reproduzir várias cópias de um desenho ou de uma pintura. Pode parecer que o artista quer apenas seguir uma linha de montagem de obras de arte, tal a indústria do consumo, para ganhar dinheiro. Não é nada disso. Para fazer gravura, o artista precisa conhecer o material e, assim, poder tirar proveito das propriedades da madeira ou do metal. Também, e por causa disso, há toda uma disciplina na produção de uma gravura. Há que se respeitar o material e os equipamentos. Como falei, é necessário pedir ajuda a alguém para passar a prensa ou conferir os registros. Tudo é muito rigoroso, há regras para a produção das cópias. As primeiras, geralmente são ainda uma prova, um caminho para a tiragem final. Depois, as cópias definitivas são assinadas e numeradas, sendo, o da esquerda o número de ordem e, o número da direita, o que representa o total das gravuras produzidas. Passar pela gravura, para o artista, é aprender disciplina e respeito. Colaboração e zelo vão gerar, no final, uma obra impecável. E não uma simples cópia.
OP - Nos primórdios da indústria gráfica, a gravura começou como arte meramente decorativa, reproduzindo imagens sacras, rótulos de produtos e ilustrações de livros. A partir de que momento, isso mudou?
Dyógenes - A gravura, na verdade, nasceu como ilustração para um texto. E o seu autor não era considerado artista, mas artesão (e de segunda classe). A gravura evoluiu junto ao advento da imprensa e da indústria gráfica. Diz o xilogravador José Altino que gravura é para ser vista na mão, dentro de um livro. E, por muito tempo, assim o foi. Durante a Idade Média a gravura teve grande popularidade por causa de seu caráter de reprodutibilidade que multiplicava imagens a partir de uma matriz. Isso respondia ao anseio de uma coletividade inteira que necessitava da gravura - de apreciar aquela imagem como uma jóia - ou de um texto político-religioso. Com a modernização da imprensa e a invenção da fotografia, a gravura foi virando obra de arte e deixando de ser apenas a imagem colada a um texto. A gravura passou a ser obra rara, produzida por grandes artistas preocupados em espalhar sua obra pelos quatro cantos.
OP - Por que a gravura brasileira ganhou força apenas no Modernismo?
Dyógenes - Coincidentemente, nesta época, chegaram ao Brasil, fugindo da guerra na Europa, vários artistas que já produziam gravura nos ateliês coletivos espalhados em Paris ou Berlim. Como exemplos, o russo Lasar Segall, a portuguesa Maria Helena Vieira da Silva e o austríaco Axel Leskoschek, que se instalaram entre o Rio e São Paulo. Outro europeu, Johnny Friedlaender, considerado um monstro sagrado em Paris, veio ao Rio de Janeiro exclusivamente ministrar um curso de gravura em metal. E, mais, vivíamos um debate sobre a brasilidade de nossa arte. Movimento Pau-Brasil pra lá e Antropofágico pra cá. Também havia um momento particular nas artes plásticas: da descoberta da xilogravura expressionista de artistas como Oswaldo Goeldi e Livio Abramo até o esmero da gravura em metal de Carlos Oswald, este, considerado um dos pioneiros da gravura no Brasil. Mas, definitivamente, foi a xilogravura nordestina, a partir da literatura de cordel, que deu força (e brasilidade) à nossa gravura. O resultado era tosco e expressionista por causa da qualidade da madeira (de fio) e por isso autêntico, curto e direto. Nesse campo da xilogravura, há que se resgatar a importância do pessoal da Lira Nordestina, do Juazeiro, e de cordelistas como Mestre Noza, Dila, Walderedo Gonçalves, José Costa Leite entre tantos outros.
OP - Pelo fato de ser uma técnica de reprodução em série de imagens, a gravura é vista como arte menor?
Dyógenes - Há muita polêmica sobre o caráter multiplicador da gravura. Muitas pessoas, inclusive artistas, afirmam que a gravura foi feita para ser reproduzida em série. Outras, que a peça única também significa a possibilidade de ser cópia de uma matriz - que é o caso da monotipia - e ainda ter o luxo de ser única. Na verdade, há muita discussão inútil e falta de conhecimento daqueles que olham atravessado para a gravura. Chamar de múltiplo ou cópia, com sentido pejorativo ou não, é uma questão de semântica. O múltiplo, no mundo contemporâneo, já é uma questão fechada. Ninguém fará questão da obra única. Tudo está sendo produzido em série: o automóvel, o CD, o livro, as roupas etc. Apesar de sempre buscarmos a originalidade - e isso é uma utopia - teremos, no final, uma cópia. Só não pode é ser uma cópia pirata. Tem de ser a partir de uma obra original e autorizada. Na verdade, foi o mau uso da produção de gravuras através de pessoas inescrupulosas que fez essa imagem distorcida de que a gravura é uma arte menor.
OP - Que importantes artistas desbravaram o caminho para a afirmação da gravura no Brasil?
Dyógenes - Para mim, os mais importantes artistas da gravura, responsáveis pela valorização da técnica no País, são Maria Bonomi, Oswaldo Goeldi, Livio Abramo e Fayga Ostrower. Maria e Fayga, que também estudaram no Exterior, revolucionaram a forma de apresentar a gravura e arrebataram inúmeros prêmios internacionais. Goeldi e Abramo, pelo pioneirismo da gravura. E foram grandes mestres.
OP - Na contemporaneidade, vários artistas agregam à gravura outras linguagens, com ajuda de novas mídias e tecnologias. Existem movimentos de resistência em prol da gravura como linguagem pura?
Dyógenes - Claro que os puristas torcem o nariz para as experimentações na gravura quando utiliza os meios eletrônicos de alta tecnologia. Prefeririam que sempre se mantivessem os preceitos da gravura clássica. Ora, isso é pura besteira. A gravura também é, e muito, um palco para pesquisas de novos materiais e maneiras. Com a tecnologia atual, se abrem muitas mais possibilidades para o artista visual, de uma maneira geral. O computador passou a ser mais uma ferramenta, apenas isso. Não se trata de promiscuir ou prostituir a gravura, a técnica. Mas, de se adequar aos tempos, ao porvir. Aliás, na forma como vejo gravura, apesar de uma técnica milenar, mesmo assim terá imensa utilização daqui para o futuro. Por um simples motivo: ainda é produzida pelas mãos humanas.
OP - Quem hoje no Brasil está fazendo um trabalho interessante e inovador com gravura?
Dyógenes - Ainda me encanto com o trabalho de Maria Bonomi. Ela sempre está à frente de seu tempo. Desde quando tirou as gravuras (imensas, o que não era comum para a época) das mesas para as paredes, na década de 50. Aliás, eram em mesas que se mostravam as gravuras e Maria foi das que ofereceram status de obra de arte à gravura. Depois, ela retirou a gravura das oficinas e levou para a arquitetura de edifícios e praças. Transformou gravura em matriz e daí em escultura. Ela ainda é a maior jóia de toda a gravura brasileira.
OP - Em João Pessoa , o senhor iniciou em abril o projeto "Gravura para todos: da galeria à escola", que consiste em divulgar a produção brasileira de gravura para estudantes de escolas públicas. Que experiências foram acumuladas ao conduzir o projeto?
Dyógenes - Na verdade, o objetivo deste projeto, que teve o patrocínio do Governo do Estado da Paraíba, era atingir os professores. Claro, a participação das crianças sempre é um estímulo e serviu para motivar e atrair o professor. Reconheço que o professor anda um pouco cabisbaixo, seja por baixos salários ou por poucas condições de trabalho. Mas, ele ainda é o motor que pode conduzir a educação de um País. Não adianta ter a maciça presença de alunos curiosos em aprender gravura. Precisamos transferir (ou dividir), a partir daí, a tarefa de introduzir o jovem no mundo da arte. Para este projeto, produzimos uma cartilha (distribuída gratuitamente) para motivar o professor a instalar uma oficina de gravura na escola. Trata-se de uma proposta simples. Afinal, tudo que tem um relevo e for entintado pode resultar numa gravura: uma tampa de plástico, uma moeda, o solado de um calçado, a digital do polegar... O ideal é que esta oficina de gravura seja um meio de levar o estudante a outros mundos além do mundo da arte, da gravura. No projeto, o mais importante foi a troca de informações já que cada etapa do projeto acontecia numa das regiões geo-políticas do Estado da Paraíba. E, tem mais, cada professor sempre acrescenta uma nova idéia. O lamentável é que a maioria não conhece a gravura com profundidade. Mas, o projeto foi vitorioso. Uma experiência única.
OP - Como artista e gravador, o que significa fazer gravura atualmente no Brasil? A gravura continua sendo sua principal atividade artística?
Dyógenes - Gravura é minha preferência. Tudo que faço, mesmo pintura, objeto ou instalação, tem alguma coisa realizada através de uma técnica de gravura. Fazer gravura ainda é o meio mais democrático de atingir as pessoas através da arte. E o mais barato. Por exemplo, quando há um concurso internacional nesta categoria, é mais acessível cobrir os custos para enviar as obras que, geralmente, vão acondicionadas em tubos de PVC. É, portanto, mais fácil de transportar. Talvez até seja a preferência dos turistas. Ele compra, coloca num tubo, viaja e, quando chegar em casa, manda botar em uma moldura. A gravura também é um excelente presente para um jovem casal ou um recém formado. Aliás, deveria haver mais estímulo ao colecionismo de gravuras. Exatamente, pelo custo inicial e facilidade de aquisição. Experimente. Em pouco tempo, você poderá ter uma bela coleção de importantes nomes de sua cidade ou do País. E um dia, se quiser se desfazer delas, haverá sempre alguém querendo comprá-las. Isso, claro, se antes você não resolver doar aos seus filhos...
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