OBRA da artista plástica Leya Mira Brander que trabalha com gravura e metal desde 1993 (Divulgação)
OBRA da artista plástica Leya Mira Brander que trabalha com gravura e metal desde 1993 (Divulgação)
CONTEMPORÂNEO
Artesanal e contemporâneo
Apesar de ser uma técnica tradicional, a gravura também dialoga com as novas linguagens experimentadas pela arte contemporânea. A cearense Cláudia Sampaio e os paulistas Leya Mira Brander e Fabrício Lopez usam a gravura para extravasar suas poéticas

16/12/2006 16:28

Em maio de 2004, a artista plástica cearense Cláudia Sampaio começa a transformar sua casa no reduto de sua poética. Com lápis, caneta piloto, carvão, grafite, carimbos e cera de carnaúba, ela registra nas paredes linhas, pontos e frases, inspiradas em fragmentos de poemas de Hilda Hilst, Paulo Leminski, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e trechos de canções. Aos poucos, ela agrega objetos pessoais e de familiares, como fotografias e bilhetes. Com a ajuda de estiletes e martelos, ela abre fendas e rachaduras. "A arte da Cláudia Sampaio está em constante diálogo com a anscenstralidade da gravura, pois é como se ela gravasse nas paredes", explica o curador de Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar (MAC), Ricardo Resende.

Convidada pelo projeto Artista Invasor do museu, Cláudia transpôs para o cubo branco da instituição o exercício íntimo que começou em sua casa. Sua exposição Confissões é marcada pelo tom confessional de impressões e sentimentos pessoais da artista, que usa a parede como diário, em constante processo de mudança. "É como se a minha casa fosse uma grande matriz do que estou fazendo aqui no museu. A casa é o receptáculo do meu corpo. Alguém pode chegar aqui e ver tudo isso como pichação, mas é minha licença poética. Enquanto as pessoas expressam o que sentem com o psicólogo ou o terapeuta, eu escrevo nas paredes. Tenho 39 anos e comecei a saber viver com meus afetos ao realizar esse trabalho", afirma Cláudia.

Pregos, curativos, infogravuras e assemblagens ajudam a fazer a composição. De um lado da parede, objetos pessoais do tio de Cláudia, o cirurgião dentista Raimundo Mauro, que faleceu esse ano. "Ele tinha medo de morrer no anonimato. Ao colocar os objetos dele, estou o rememorando. São dores e perdas de entes queridos", afirma Cláudia. No outro canto, fotos de Greta Garbo e Salvador Dali. "Quer artistas mais introspectivos e misteriosos que Garbo e Dali?", questiona. Cláudia também cola nas paredes infogravuras, feitas a partir de fotografias de partes do seu corpo. "Estou o tempo todo remetendo ao meu próprio corpo. Tudo que preciso resolver está em mim". Além de ser registro do cotidiano, a palavra é pensada pela artista como imagem visual. "Não falo só de mim e não é vaidade. Enquanto represento meu mundo, as pessoas podem se identificar com ele. Eu me curo, mas você pode participar da cura também", diz Cláudia.

A palavra também exerce importância nas instalações da artista plástica paulista Leya Mira Brander, que trabalha com gravura em metal, desde 93. "As imagens aparecem acompanhadas da palavra escrita. Uma palavra relacionada com uma imagem (uma paisagem, um retrato) tem o poder de encantar. A literatura é um encantamento da realidade. Como se as palavras tivessem o poder de tornar verdade o que está escrito. Pelo menos por um momento", afirma. Com a gravura, Leya imprime matrizes antigas com recentes, recombinando-as. "É como se fosse um único trabalho que começou em 93 e continua até agora. Acho que o mais interessante na gravura é a possibilidade de imprimir uma imagem justaposta a outras, já que as imagens são gravadas em pequenas matrizes. Não faço tiragem. As provas são únicas. Cada vez que uma coisa se coloca do lado de outra coisa diferente, todas ganham novos sentidos", acrescenta.

Outros motivos que fazem Leya Mira Brander gostar da técnica da gravura em metal é o próprio cobre e os diferentes relevos que uma estampa pode ter. "Gosto também da mágica de ver a imagem impressa invertida. Para mim, a gravura não é um ato de passagem. Continuo aprendendo a respeito da técnica e sempre tenho coisas para descobrir". Sobre o diálogo entre a gravura e a arte contemporânea, Leya não vê impossibilidades. "Acredito que o fato da gravura ser uma técnica tradicional e artesanal não impede em nada sua contemporaneidade. Não é a técnica que diz o que é contemporâneo ou não e sim o que se pode dizer através dela".


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