GRAVURA com estilo bem contemporâneo da artista Cláudia Sampaio (Divulgação)
GRAVURA com estilo bem contemporâneo da artista Cláudia Sampaio (Divulgação)
ARTIGO
Um campo ampliado
A gravadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria do Carmo de Freitas Veneroso, busca o lugar da gravura na arte contemporânea e aponta os novos rumos da técnica em diálogo com outras linguagens

Maria do Carmo de Freitas Veneroso
Especial para O POVO

16/12/2006 16:28

A arte a partir da segunda metade do século XX tem se encaminhado em direção a um questionamento dos seus conceitos básicos. Não mais preocupada com a pureza dos veículos artísticos tradicionais, a arte recente se volta para as "impurezas textuais". O campo da arte mudou na medida em que as formas distintas de expressão (visual versus literária, temporal versus espacial), enraizadas em áreas separadas de competência, já não são mais obedecidas. Assim como não há mais um limite preciso entre o visual e o literário, também tempo e espaço se articulam e o que Hal Foster chamou de "impureza textual" pode se estender até a quebra dos limites precisos entre as diferentes linguagens.

A intenção dessa reflexão é buscar o lugar da gravura na arte atual, já que também o estatuto da gravura vem sofrendo modificações e podemos atualmente falar de uma "gravura no campo ampliado", pois a mesma, nas últimas décadas, tem ultrapassado seus limites tradicionais e tangenciado outras linguagens artísticas, como o desenho, a pintura, a escultura, a colagem e a fotografia.

A fim de conceituar a gravura é necessário pensar, em primeiro lugar, a impressão, que é um procedimento quase pré-histórico para fazer imagens, sendo, portanto, uma das formas mais antigas de representação plástica. A impressão não tem matriz, enquanto a gravura pressupõe a presença de uma matriz, que depois de entintada vai levar a forma impressa até o suporte, que pode ser o papel, o tecido, ou qualquer outra superfície imprimível. Essa impressão da matriz sobre o suporte dá origem ao múltiplo. A gravura não é a reprodução de um original, assim, ao se discutir o que vem a ser uma "gravura original", surge a questão se em meio a tantas cópias, será uma delas mais original que a outra.

A atitude dos gravadores nas últimas décadas tem abalado princípios básicos da gravura, como a reprodutibilidade. Assim sendo, a gravura, que desde o seu surgimento teve como pressuposto a possibilidade de reprodução, a partir da Pop Art transforma-se, mais que uma técnica, em uma linguagem. Quando artistas como Andy Warhol e Robert Rauschenberg introduzem a discussão sobre a cópia única, imprimindo sobre suas telas e combinando impressão e pintura a mão, eles atacam, portanto, um problema central da gravura. Essa questão está diretamente relacionada ao anacronismo da gravura: "a impressão nada tem de 'novo', sobretudo porque ela é anacrônica: pertencendo a um tempo que não o da história da arte". Com relação à possibilidade de reprodução da gravura ela já não é relevante, num momento em que se produzem milhares de cópias num curto espaço de tempo em técnicas como o off-set. Também o avanço da digitalização da imagem tem contribuído para o anacronismo da gravura. Assim sendo, definitivamente não é a possibilidade de reprodução da imagem o que move os gravadores. É a sua qualidade gráfica, a possibilidade do uso da imagem fotográfica e o diálogo entre a gravura e outras linguagens, entre outras coisas, que caracterizam a prática dos gravadores atualmente. A reprodutibilidade deixa, portanto, de ser um valor em si, fazendo com que a gravura se realize plenamente em meio e tangenciando as outras linguagens plásticas.

Ao se libertar da função ilustrativa, no Renascimento, a gravura começa sua caminhada rumo à desfuncionalização. Mais tarde, ao se libertar do uso comercial, quando mapas, cartazes, ilustrações, marcas, rótulos passam a ser impressos por outros meios, a gravura completa seu processo de desfuncionalização, ganhando autonomia. É também a autonomia da gravura que vai assegurar a ela a possibilidade de dialogar com outras linguagens. Nas últimas décadas pode-se notar a emergência de gravadores voltados para procedimentos que ora privilegiam a matriz como obra, direcionando a gravura para a exploração da tri-dimensionalidade, com a investigação do seu potencial escultórico, ora pesquisando as possibilidades dos papéis artesanais e das colagens, ou ainda utilizando os processos fotográficos.

O diálogo que vem se processando entre as artes, de uma maneira geral, e entre a gravura e outras linguagens, em particular, têm contribuído, na atualidade, para a quebra de antigos parâmetros, e para a criação de novos paradigmas de análise crítica do trabalho artístico, não mais por categorias estanques, mas por pressupostos conceituais.

Maria do Carmo de Freitas Veneroso é gravadora e professora do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde leciona Litografia, e coordena o Programa de Pós-Graduação em Artes. Ela realizou várias exposições entre elas Family Álbum (Pratt Institute/Nova York) e Prospecções: Arte nos anos 80 e 90 (Projeto Um Século de História das Artes Plásticas em Belo Horizonte), (Palácio das Artes/BH/MG).


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