Vida & Arte
ARTIGO
Um campo ampliado
A gravadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Maria do Carmo de Freitas Veneroso, busca o lugar da gravura na arte contemporânea e aponta os novos rumos da técnica em diálogo com outras linguagens
Maria do Carmo de Freitas Veneroso
Especial para O POVO
16 Dez 2006 - 16h28min
A intenção dessa reflexão é buscar o lugar da gravura na arte atual, já que também o estatuto da gravura vem sofrendo modificações e podemos atualmente falar de uma "gravura no campo ampliado", pois a mesma, nas últimas décadas, tem ultrapassado seus limites tradicionais e tangenciado outras linguagens artísticas, como o desenho, a pintura, a escultura, a colagem e a fotografia.
A fim de conceituar a gravura é necessário pensar, em primeiro lugar, a impressão, que é um procedimento quase pré-histórico para fazer imagens, sendo, portanto, uma das formas mais antigas de representação plástica. A impressão não tem matriz, enquanto a gravura pressupõe a presença de uma matriz, que depois de entintada vai levar a forma impressa até o suporte, que pode ser o papel, o tecido, ou qualquer outra superfície imprimível. Essa impressão da matriz sobre o suporte dá origem ao múltiplo. A gravura não é a reprodução de um original, assim, ao se discutir o que vem a ser uma "gravura original", surge a questão se em meio a tantas cópias, será uma delas mais original que a outra.
A atitude dos gravadores nas últimas décadas tem abalado princípios básicos da gravura, como a reprodutibilidade. Assim sendo, a gravura, que desde o seu surgimento teve como pressuposto a possibilidade de reprodução, a partir da Pop Art transforma-se, mais que uma técnica, em uma linguagem. Quando artistas como Andy Warhol e Robert Rauschenberg introduzem a discussão sobre a cópia única, imprimindo sobre suas telas e combinando impressão e pintura a mão, eles atacam, portanto, um problema central da gravura. Essa questão está diretamente relacionada ao anacronismo da gravura: "a impressão nada tem de 'novo', sobretudo porque ela é anacrônica: pertencendo a um tempo que não o da história da arte". Com relação à possibilidade de reprodução da gravura ela já não é relevante, num momento em que se produzem milhares de cópias num curto espaço de tempo em técnicas como o off-set. Também o avanço da digitalização da imagem tem contribuído para o anacronismo da gravura. Assim sendo, definitivamente não é a possibilidade de reprodução da imagem o que move os gravadores. É a sua qualidade gráfica, a possibilidade do uso da imagem fotográfica e o diálogo entre a gravura e outras linguagens, entre outras coisas, que caracterizam a prática dos gravadores atualmente. A reprodutibilidade deixa, portanto, de ser um valor em si, fazendo com que a gravura se realize plenamente em meio e tangenciando as outras linguagens plásticas.
Ao se libertar da função ilustrativa, no Renascimento, a gravura começa sua caminhada rumo à desfuncionalização. Mais tarde, ao se libertar do uso comercial, quando mapas, cartazes, ilustrações, marcas, rótulos passam a ser impressos por outros meios, a gravura completa seu processo de desfuncionalização, ganhando autonomia. É também a autonomia da gravura que vai assegurar a ela a possibilidade de dialogar com outras linguagens. Nas últimas décadas pode-se notar a emergência de gravadores voltados para procedimentos que ora privilegiam a matriz como obra, direcionando a gravura para a exploração da tri-dimensionalidade, com a investigação do seu potencial escultórico, ora pesquisando as possibilidades dos papéis artesanais e das colagens, ou ainda utilizando os processos fotográficos.
O diálogo que vem se processando entre as artes, de uma maneira geral, e entre a gravura e outras linguagens, em particular, têm contribuído, na atualidade, para a quebra de antigos parâmetros, e para a criação de novos paradigmas de análise crítica do trabalho artístico, não mais por categorias estanques, mas por pressupostos conceituais.
Maria do Carmo de Freitas Veneroso é gravadora e professora do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde leciona Litografia, e coordena o Programa de Pós-Graduação em Artes. Ela realizou várias exposições entre elas Family Álbum (Pratt Institute/Nova York) e Prospecções: Arte nos anos 80 e 90 (Projeto Um Século de História das Artes Plásticas em Belo Horizonte), (Palácio das Artes/BH/MG).
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