
Uma xilogravura sendo talhada no ateliê do artista Sebastião de Paula: os detalhes podem fazer a diferença (Foto: Fco Fontenele)
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TRADIÇÃO
Diálogo xilográfico
Os artistas plásticos cearenses Francisco de Almeida e Sebastião de Paula revelam como suas produções artísticas dialogam com a xilogravura. O Vida & Arte visitou os ateliês dos dois gravuristas
16/12/2006 16:28
Para realizar xilogravura, Francisco de Almeida passa meses e até anos pensando e executando uma só obra. "Não faço gravura pelo modo conceitual, mas sim aliado a uma noção louca de tempo. Passei o ano todo só imprimindo. Só para fazer a matriz, já leva muito tempo, porque você também está gravando. Se alguém me propor uma exposição grande só com inéditos, tenho certeza que vou demorar uns 20 anos", brinca o artista plástico, que mantém ateliê há 11 anos no bairro Bela Vista, em Fortaleza. De 9h até meia-noite, Francisco de Almeida grava incessantemente. "Estabeleço um diálogo persistente com a gravura. Até agora não desisti, porque sou muito persistente. Quando uma gravura me consome por inteiro, aí prefiro abandonar por um tempo", afirma.
Francisco de Almeida encara sua produção artística como se fosse um jogo entre ele e a gravura. "Costumava dizer que a gravura ganhava o jogo, mas o que acontece é um diálogo. Preciso entender a necessidade da gravura. Não me considero artista, mas uma ferramenta da gravura. Ela está aqui. O que você precisa é observar o que ela está pedindo. A gravura já existe, apenas preciso entende-la", reflete. O gravurista compara seu ofício com o de um escultor, que "poda os excessos da matéria" para fazer arte. "Há algo constantemente lhe sondando e que você precisa estar aberto para sentir", acrescenta. Entre as inúmeras modalidades das artes plásticas com as quais teve contato, Francisco encantou-se pela gravura, que lhe possibilitou criar ferramentas e novos métodos de impressão "É um universo fantástico. Posso fazer gravuras a partir de fragmentos de matrizes e ainda colocar interferências. A gravura permite essa liberdade", afirma, apontando sua gravura O Eclipse, uma junção de duas matrizes com mais 12 anos.
Ao compor uma gravura, Francisco de Almeida procura estar aberto a experimentações. É o caso do estudo inicial do Jardim dos Anjos, uma gravura de 1,20 metro de altura que reúne impressões de várias matrizes, incluindo moldes de rendas e bordados feitos pela mãe do gravurista. A obra participou do Panorama da Arte Brasileira 2005, do Museu de Arte Moderna de São Paulo. "Observe que é apenas um estudo inicial. A partir dele, serão criadas outras gravuras. Faço o que vem na minha alma. A gravura não me deixa sossegado nunca. É preciso força, eficiência, coragem e responsabilidade. Dá trabalho, mas o resultado final recompensa e sinto como se a gravura fosse voar".
A identificação com a gravura também é marca da produção artística do cearense Sebastião de Paula. No começo da década de 90, o artista plástico Sebastião de Paula entrou em contato com a gravura por meio de uma oficina ministrada pelo gravurista Eduardo Eloy, no Museu de Arte da UFC. Até aquele momento, Sebastião fazia pinturas. "Minha vida mudou completamente com a gravura. Identifiquei-me com a linguagem e passei a me dedicar exclusivamente a ela", afirma Sebastião, que já trabalha há 15 anos com a técnica. O artista plástico esclarece que a gravura lida com múltiplos e não com cópias. "As impressões parecem iguais, mas são diferentes. Esse caráter múltiplo acaba gerando incompreensão dos leigos, que entendem a gravura como arte menor. Cada gravura impressa é assinada e numerada. Quanto menor o número, maior é o seu valor", pontua.
Como professor de gravura do curso de Artes Plásticas do Cefet, Sebastião de Paula absorve novas idéias a partir do convívio com seus alunos em ateliê montado na instituição. "Minha produção se reflete por meio da convivência com eles. Quando vejo que há algo bom sendo feito aqui, inconscientemente acabo aproveitando no meu trabalho. Essa troca de experiências é maravilhosa", afirma. De acordo com Sebastião de Paula, o mercado de arte para a gravura acabou se reduzindo, bem como a pintura e a escultura, afetadas pelo advento de novas modalidades, como a instalação. "Mas a gravura ainda continua sendo um dos meios mais baratos de fazer arte e isso a torna democrática. E ela se libertou da necessidade de ser produzida com material de qualidade. Posso fazer gravura, sem precisar de prensa e imprimir só com a colher. Às vezes, o que torna mais caro é o papel, que precisa ser bom para ser conservado. No entanto, essa escolha depende de cada artista. O importante é fazer gravura", comenta.
O gravurista explica que, ao longo da história da arte, vários artistas usaram a gravura como linguagem de aprofundamento estético. "A gravura trabalha com a questão gráfica. A cor impressa é diferente da pincelada. Além disso, a gravura permite experimentações com a possibilidade do múltiplo". Mesmo com o auxílio das tecnologias digitais, a gravura contemporânea não isenta o artista do processo de manipulação do material. "Ainda que o artista não tenha acesso direto ao material, ele ainda comanda com as mãos", diz.
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