Vida & Arte
ENTREVISTA
Os desafios de um autor erudito
Depois de cinco anos estudando e lecionando nos EUA, o músico e compositor cearense Liduíno Pitombeira retornou com o desafio de manter em alta seu nome no circuito internacional como autor. Uma peça inédita de sua autoria vai ser executada hoje no concerto de aniversário de 10 anos da Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho
Luciano Almeida Filho
da Redação
14 Dez 2006 - 23h54min
De certa forma, o concerto de hoje marca também o retorno de Liduíno Pitombeira à Fortaleza, este semestre, depois de cinco anos residindo nos EUA, onde foi cursar doutorado em composição e teoria na Universidade Estadual da Louisiana (LSU), instituição que o convidou para lecionar como professor visitante. Neste período, Liduíno conquistou o prestigiado prêmio 2003 MTNA-Shepherd Distinguished Composer of the Year (Compositor do Ano) com a obra Brazilian Landscapes nº1. Com os contatos travados no ambiente acadêmico norte-americano, este cearense de Russas expandiu consideravelmente seu nome entre os novos compositores eruditos, passando a ter obras suas integrando o repertório de orquestras e formações camerísticas de vários lugares do mundo, sendo inclusive gravado por intérpretes atuais.
Na bagagem de volta, Liduíno Pitombeira trouxe diversas encomendas de peças para autores e tem como desafio construir uma carreira de compositor internacional residindo no Ceará. Ele falou sobre suas conquistas no período residindo nos EUA, como encontrou o cenário da música erudita no Ceará, e seus projetos futuros.
O POVO - Este período nos EUA lhe foi bastante prolífico, para além do ponto de vista acadêmico. Isto é, você conseguiu dar uma dimensão bem mais global a suas composições e conquistou prêmios internacionais fundamentais. De todas as conquistas, qual aquela que te dá mais orgulho pessoal e aquela que mais lhe abriu portas?
Liduíno Pitombeira - Creio que o fato de ter lecionado por cinco anos numa escola do porte da Universidade Estadual de Louisiana (LSU). Foi lá onde conheci grandes compositores (como Chen-Yi) e intérpretes nacionais (como Dennis Parker) e internacionais (como Theophilus Sotiriadis) que levaram minha música para diversas partes do mundo. Por exemplo, está para sair um CD do violoncelista suiço Martin Merker onde tenho duas obras gravadas (Sonata para Violoncelo e Piano nº1 e Seresta nº15, esta última escrita especialmente para a gravação). O contato com este grande músico foi feito através de um colega professor da LSU, James Alexander. Sao inúmeros os contatos similares a este que acontecem naturalmente quando se trabalha num meio de intensa produção artística, onde, por exemplo, se realizam uma média de três concertos diários durante o semestre inteiro; isto numa mesma sala de concerto. Como a estatura de um compositor no denominado “primeiro mundo” é medida primeiramente pelo número de execuções e depois pelo número de prêmios, consegui obter uma projeção satisfatória, coisa que seria impossível no Brasil, porque aqui, infelizmente, um compositor parece ser medido pelo número de artigos que escreve. Ou seja, ainda estamos com aquela visão antiga de que o pensamento só produz ciência. Arte é lazer, brincadeira, algo para agradar e totalmente produto de um dom intuitivo. Se a mentalidade continuar assim, em breve teremos excelentes escritores de artigos e uma estrutura de produção músical falida. Ou seja, enquanto o Estado brasileiro não apoiar maciçamente o compositor da mesma forma que apoia o físico e o matemático, o caminho da composição tem que ser trilhado fora do país. Compor aqui é quase como praticar esporte no gelo e, ser o primeiro e, por enquanto, único doutor em composição e teoria do Ceará não significa absolutamente coisa alguma. Em outras palavras, resido aqui mas minha profissão é 90% exercida fora do Estado.
OP - Você acredita que, de volta ao Ceará e aqui residindo, será possível manter um nome no circuito internacional?
Liduíno - Se eu fosse um intérprete, a coisa seria bem mais dificil porque o intérprete, especialmente o de câmara, precisa conviver com outros músicos, precisa ter bons instrumentos e uma audiência mais educada para a música de concerto. Porém, um compositor sofre menos este tipo de “impacto ambiental”. Não que um compositor viva no vácuo, muito pelo contrário, mas porque é possível, especialmente hoje em dia com a internet, enviar o resultado de seu trabalho para os intérpretes em qualquer parte do mundo. Por exemplo, eu nunca falei pessoalmente com o violoncelista Martin Merker (a não ser cumprimentos formais depois de um concerto). Todo o contato foi feito via internet, utilizando PDF e MP3. Ou seja, se eu conseguir ter paz para trabalhar, é possivel, sim, manter um nome no circuito internacional. Através do violoncelista Martin Merker, além das duas peças que ele gravou, fiz o contato com a Camerata Bern e o Offenbuch Trio. Para este último, para dar um exemplo, escrevi uma peça chamada Amadeus, para trio de cordas, completando à minha maneira um trio que Mozart deixou inacabado, e esta peça circulou por vários países da Europa, agora no segundo semestre de 2006.
OP - Suas obras são intrinsecamente ligadas às raízes cearenses, à músicalidade popular sertaneja. Como é recebido no meio erudito este tipo de composição, especialmente nos EUA que é tido como um país avesso a manifestações ‘exóticas’ do Terceiro Mundo? Você sofreu algum tipo de discriminação/ preconceito por isso?
Liduíno - No meio erudito ainda existem remanescentes fortes do modernismo, esta corrente que busca furiosamente o novo e se apóia muito na direcionalidade e intelectualismo (Boulez, Stockhausen, Babbitt...). Tal corrente divide claramente a música em correntes antagônicas denominadas de popular e erudita (divisão boba e inexistente, como frisou muito bem o Hermeto Paschoal) e não vê com bons olhos a utilização de elementos populares e folclóricos, de elementos do passado e de elementos de outras culturas. Porém, graças a George Rochberg, David Del Tredici e aos minimalistas, esta ditadura de Darmstadt se enfraqueceu e hoje em dia, é possível compor com certo grau de liberdade sem medo de ser expulso do “clubinho”. Os Estados Unidos estão cada vez mais abertos a manifestações de outras culturas, pelo menos na música. Meu trabalho foi muito bem recebido em todos os centros e salas de concerto onde foi executado (basta dar uma olhada no meu website, http://www.pitombeira.com, e ver a lista de execuções).
OP - Durante sua estadia nos EUA, duas formações das quais você foi fundador se mantiveram como intérpretes de sua obra, o grupo Syntagma e a Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho, e para as quais você escreveu peças exclusivas. Como foi acompanhar à distância o andamento desses trabalhos?
Liduíno - Sempre estive em contato com os músicos do Syntagma e da Orquestra. Inclusive, participei do projeto de ida do maestro Marcio Landi para reger a Louisiana Sinfonietta, nos Estados Unidos, em 2002. A Eleazar e o Syntagma sempre executavam minhas peças, de forma que estive sempre presente na vida destas dois grupos.
OP - Em que pé você reencontrou o cenário da música erudita no Ceará? Mais conquistas ou mais retrocessos?
Liduíno - Pelo que vi até agora, mais conquistas, especialmente no sentido de levar a música para o interior do Estado. É pouco inteligente concentrar a cultura de um Estado com 184 municípios, como o Ceará, numa cidade com densidade demográfica desconfortavelmente imensa como Fortaleza. Já que o cearense imita tão bem o que vem de fora, com tanto nome de empresa em inglês e tanto Honda e Toyota circulando pela cidade, poderia tentar imitar os países ricos de onde vêm essa língua e esses carros, onde as cidades interioranas têm estrutura músical decente, comparável a das capitais, com orquestras sinfônicas e de sopros e escolas de música. Levar a cultura para o interior não resolve só o problema da cultura em si, o que já é grande coisa, mas resolve tambem o problema da segurança pública, da distribuição de riquezas, da saúde, do saneamento etc. Colocar um piano de cauda no Teatro da Ribeira dos Icós, por exemplo, como foi feito, integra esta cidade imediatamente num possivel circuito de música de concerto, viabilizando e acelerando a produção cultural e o turismo para o Estado como um todo.
OP - De volta, quais são seus projetos mais imediatos?
Liduíno - Contribuir com um trabalho na área acadêmica, isto é, tentar transferir formalmente meu conhecimento nas áreas de composição e teoria musicais, primeiramente aqui, mas se não der certo, em outras universidades do Nordeste com carência de doutores na minha área. A academia daqui parece que se interessa em me absorver, mas tem grande dificuldade burocrática em viabilizar minha permanência. É interessante e paradoxal como, para os burocratas acadêmicos e administrativos brasileiros, é mais simples integrar, ou reintegrar, aos quadros oficiais das universidades uma pessoa que estudou dando imenso ônus ao Estado (salário+bolsa) do que uma pessoa que estudou independemente, custeado por fontes estrangeiras, como é o meu caso e o da pianista Duda Di Cavalcanti. Mas como, infelizmente, o dinheiro para a pesquisa e desenvolvimento da música de concerto vem, em grande parte, das áreas científicas, é questão de sobrevivência integrar-se ao meio acadêmico e apresentar projetos artísticos com maquiagem tecnológica. Voltando à pergunta, os projetos composicionais, que são minha prioridade, estou conduzindo satisfatoriamente.
OP - Acredito que você tenha muitas encomendas de peças. Pode nos adiantar algumas delas? Especialmente àquelas já estão em processo de composição?
Liduíno - Eu trabalho em diversos projetos simultaneamente. Alguns deles são uma peça para a OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), para côro e orquestra, com poema de Alan Mendonça. Receber uma encomenda desta que é uma das orquestras mais importantes da América Latina é tão importante quanto ganhar o melhor premio internacional de composição; uma peça para côro misto a cappella que vai ser publicada nos Estados Unidos pela Cantus Quercus, com poema de Francisco Carvalho; uma peça para piano solo encomendada pela pianista Luciana Soares da Nicholls State University; um concerto para piano e banda sinfônica dedicado ao pianista Willis Delony e ao LSU Wind Ensemble; uma peça para o Heriberto Porto e a filha dele, a Matilde; uma peça para flauta solo, Brazilian Landscapes nº8, que vai ser executada na Convenção Nacional de Flautistas dos Estado Unidos, em agosto de 2007, pelo flautista Danilo Mezzadri. Há no minimo mais dez projetos, igualmente importantes e aos quais me dedico constantemente.
SERVIÇO
Orquestra de Câmera Eleazar de Carvalho: 10 anos - Concerto de aniversário da formação erudita cearense, sob regência do maestro Márcio Landi, que executará peça Concerto para piano, orquestra de cordas e percussão, OP. 115 (2006) com três movimentos, de Liduíno Pitombeira. Participação especial: Duda di Cavalcanti. Hoje no Theatro José de Alencar (Pça. José de Alencar, s/n - Centro), às 20 horas. Informações: 3101.1108. Entrada franca.
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