IMAGINE a realidade das pessoas antes do telefone, por exemplo
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RESENHA
Curiosidade mal satisfeita
A jornalista Bárbara Soalheiro escreveu Como fazíamos sem..., uma espécie de guia de curiosos com enfoque na história. O livro, destinado ao público infanto-juvenil, traz interessantes ilustrações de Negreiros e vem numa bem cuidada edição da Panda Books

Eleuda de Carvalho
da Redação

01/12/2006 22:51

Como é que as pessoas viviam sem internet, telefone celular, água encanada, comida enlatada, garfo, faca e colher? E sem sobrenome, sem televisão, sem calcinha, cueca e sutiã? Bem, viviam... A jornalista mineira Bárbara Soalheiro tira estas e muitas outras dúvidas no livro Como fazíamos sem..., editado pela Panda Books em parceria com a revista Aventuras na História, da editora Abril. Em texto ágil, gostoso de ler e numa caprichada edição, com ilustrações de Negreiros, a autora convida o público leitor - especialmente crianças e adolescentes - para um divertido passeio pela história. Bárbara Soalheiro esteve recentemente em Fortaleza, conversando com as crianças do projeto Circo Escola, do Conjunto Palmeiras.

O livro está dividido em tópicos: alimentação (água limpa, fósforos, geladeira e talheres, por exemplo); comunicação (avião, correio, internet, telefone, televisão); habitação (elevador, móveis, vaso sanitário, ventilador e calefação); roupas e acessórios (cuecas e calcinhas, ferro elétrico, máquina de costura, óculos, sabão e máquina de lavar); saúde e higiene (anestesia, banho, escova de dentes, papel higiênico e remédios), e sociedade (cemitério, dinheiro, divórcio, energia elétrica, escola, relógio, sobrenome). Claro está que um volume que desse conta de TODAS as curiosidades que estas aí suscitam, seria enorme. Este já dá pra deixar a imaginação viajar no tempo. Agora: para um livro destinado mais especialmente ao jovem leitor, algumas falhas tornam-se gritantes. Logo na página 16, um pronome oblíquo atravessa o samba: "encharcavam-o". Valei-me, professor Pasquale!

Cada tópico tem um texto principal e uns textinhos complementares alinhados à direita nas páginas ímpares, com mais alguma informação ou historinha curiosa. Aliás, a curiosidade é a palavra-chave que move a autora (e que deve instigar o leitor). Você sabia que o fósforo foi descoberto em 1669, quando o químico alemão Henning Brand tentava transformar metais em ouro? Tudo que fosse amarelo, pensava ele, poderia, alquimicamente, virar o metal precioso. Assim ele usou o xixi... Quando a urina decantou na retorta, restou um pozinho branco, altamente combustível. A descoberta não adiantou muito à época, até que, em 1827, o inglês John Walker resolveu colar o fósforo em um palito. Mas o danado pegava fogo até dentro dos bolsos do paletó! Em 1855, o sueco Lundstrom criou um jeito seguro de fazer fogo: foi só colocar o fósforo na lateral da caixa. Fiat lux!

Tem uma interessante expressão gaúcha, pra dizer sobre uma pessoa destemida, valente, audaciosa: tem a faca na bota. Pois era justo aí onde se guardava a faca, nos tempos medievais. Talheres não existiam nem na mesa dos ricos, e todo mundo, quando convidado para um jantar, tinha que levar sua própria faca para cortar a carne. E a comida era saboreada com as mãos, como minha tia costumava fazer lá no sertão, amolegando o alimento em bolinhos... Uma delícia! Agora, uma pisada na bola. No ano em que o Brasil e o mundo (menos os Estados Unidos) celebram o feito inédito do pequeno Santos Dumont, que embasbacou Paris voando no seu 14-Bis, dona Bárbara escreve, retirando o mérito pioneiro do nosso homem voador: "O que Santos Dumont fez antes de todos foi voar para uma comissão julgadora, em 23 de outubro de 1906". Ô, Bárbara!

Quando ela vai falar de internet, diz que o livro - tal como o conhecemos - é o "único veículo capaz de registrar a história". E o que vocês me dizem das pedras pintadas nas cavernas de Lascaux, na França, Altamira, na Espanha, ou na Serra da Capivara, no Piauí? Ou o que ela (não) diz sobre os griôs, os fabulosos narradores africanos que trazem, na cabeça, toda a enciclopédia com a história de uma pessoa, desde os seus antepassados? E os hieróglifos egípcios, na tumba dos faraós, os desenhos - apenas possíveis de ser vistos do alto, que os indígenas do Peru fizeram no deserto de Nazca? Em compensação, Bárbara fala de uma "cidadezinha chamada Almécegas, perto de Fortaleza", em que a energia solar permitiu o funcionamento de dez computadores. Você sabia disso? Almécegas é um distrito de Trairi.

O livro, a gente lê rapidinho. É bom mesmo, apesar. Ela faz algumas associações interessantes, como a linguagem cifrada dos telegramas do tempo da sua avó e a linguagem codificada das conversas pelo MSN e ICQ. Um dos melhores capítulos é sobre o rádio, e de como a população de Bagé, no Rio Grande do Sul, se revoltou porque o rádio acabou com a prática do assobio... E não se assombre o leitor com o anúncio retumbante, um reclame do século passado: "Chegaram hoje três mil bichas de Portugal". Bichas, no caso, são as sanguessugas (nada a ver com aqueles deputados ladrões investigados pela CPI que não acaba nunca, mas o verme sugador de sangue, utilizado na medicina do século 19, junto com clisteres - injeções de água no reto e os terríveis purgantes). Pra finalizar, outro deslize da autora, no tópico sobre energia elétrica. Ela escreve: "A vida de todo mundo foi completamente transformada pela invenção do inglês Thomas Alva Edison". O cara nasceu no dia 11 de fevereiro de 1847 em Milan, Ohio, Estados Unidos. Mais uma vez, uma consulta ao Google tirou a dúvida. Salve ele!


SERVIÇO
Como fazíamos sem... - Bárbara Soalheiro. Ilustrações de Negreiros. Edição Panda Books (em parceria com a revista Aventuras na História, da Abril). R$ 24,90.

 

 

 

 

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