ARTIGO
O insólito nas ruas de Fortaleza
Vicente Jr.
Especial para O POVO
28/11/2006 01:31
O homem é um animal literário. Entenda-se por literário o gosto que temos por todo tipo de narrativa oral ou escrita capaz de deleitar, entreter, informar e, principalmente, emocionar o ser humano levando-o à purgação, ao êxtase poético, à catarse propriamente dita. Quando não está inventando histórias acaba participando de alguma delas. Seja como demiurgo, narrador ou simples personagem, o ser humano é o motivo maior de toda a literatura, pois o costume de contar histórias tem início nos tempos mais primitivos quando, ao redor do lume, um ser desgrenhado, de clava em punho, contava aos outros, com sons guturais, como havia capturado o animal que estavam comendo. Seguramente, aumentou um pouquinho mais na ação, exagerou um tanto assim na intriga e nos socos desferidos... resumindo: mentiu descaradamente.
As lendas urbanas são produto dessa prática remotíssima e imorredoura. Advindas da tradição oral, da vertente popular do sistema literário, sem o ranço academicista dos gêneros maiores (a poesia, o conto e o romance) estas narrativas só existem, não são registradas por ninguém porque a ninguém pertencem. Surgem apenas e se espalham com uma rapidez assustadora. Agradam a leigos e especialistas, aqui ou em qualquer parte do mundo, sendo motivo até para grandes criações artísticas como o conto Nunca aposte sua cabeça com o diabo, de Edgar Allan Poe, mestre do conto fantástico, sobre a história de um homem que tinha o hábito de apostar tudo, inclusive sua própria cabeça.
Integrando, dentro das noções contemporâneas, o grupo das narrativas sobrenaturais, as lendas urbanas guardam em si o estranho (narrativas de medo com uma explicação ao final, O Lobisomem de Tabocal, de Batista de Lima), o mistério (narrativas de final aberto, sem explicação para o evento sobrenatural, As formigas, de Lygia F. Telles) e principalmente o fantástico (narrativas onde a ambigüidade dos fatos e a incerteza do evento são essenciais, A usina atrás do morro, José J. Veiga), lembrando o que faziam Alvarez de Azevedo, o próprio Edgard Allan Poe, Arthur Conan Doyle e, atualmente, autores como Pedro Salgueiro (Belisarina), Sânzio de Azevedo (A capa de chuva) e Dimas Carvalho (Cama de baleia), com textos que nasceram, seguramente, de algumas dessas lendas.
Originária do latim e popularizada em inglês, graças à Sétima Arte, aos satélites e à fibra ótica, a expressão "lenda urbana", urban legend, está cada vez mais atual. Pode-se dizer seguramente que a grande responsável por isso é mesmo a internet, pois uma história que antes passava de boca em boca, levando anos para cristalizar-se, para integrar o rol das folk tales, agora é passada para milhões de pessoas em poucos minutos. Em poucas horas, um monstro atravessa os continentes para integrar outra cultura ou destruir uma empresa de sucesso que pode ir à falência por uma "maldição" qualquer veiculada pela Internet.
Encontrada em qualquer dicionário, a palavra lenda, ao pé da letra, sem recorrermos a dicionários técnicos de termos literários, quer dizer: narrativa de acontecimentos fantásticos; história fabulosa, conto, tradição popular. No sentido figurado, pode significar mentira ou invenção. Em termos mais simples, é aquela narrativa que tem "um pé na ficção" e "outro na realidade", ou seja, versa sobre algo de que não se tem mesmo a certeza de que ocorreu, mas que possui um fundo de verdade, uma carga de verossimilhança especialmente assustadora.
Essa verdade oriunda não se sabe ao certo de onde, se da mídia, que as propaga sem oficializá-las, se do talento da pessoa que contou ou se do senso hiperbólico de quem ouviu e passou a reproduzi-la, atinge o mais alto grau de eficiência causando medo, estranhamento, asco, horror etc. causando óbitos nos mais fracos ou mesmo afetando grandes impérios comerciais e fazendo despencar o preço de ações nas grandes bolsas de valores.
As lendas urbanas possuem, como as demais narrativas folclóricas (o mito, a fábula, o apólogo etc.) características bem particulares. Geralmente não se sabe ao certo como nem onde elas surgiram, nem os nomes ou endereços das personagens envolvidas, principalmente das personagens afetadas pelo evento. Surgem, via de regra, a partir de fatos cujos participantes são desconhecidos, pois as testemunhas, se o foram, não sabem mais onde tais pessoas moram, o que delas foi feito. Mas sempre existe alguém que conheceu alguém que conheceu a pessoa que passou por tal experiência, mas o paradeiro é normalmente "ignorado", adoeceu, morreu ou foi embora.
A narrativa normalmente é breve nos moldes da anedota. A diferença é que a anedota prima pelo humor, enquanto a lenda urbana, pelo insólito, enaltece o estranho, o grotesco, em geral, o fantástico, propagando o medo, a advertência e a fragilidade humana à mercê de um cotidiano violento e assustador. As lendas urbanas assemelham-se muito ao gênero de horror, mas geralmente inserem-se no fantástico, dada a ambigüidade do fato narrado e a incerteza de sua efetivação em nossa realidade.
Com infinitas temáticas, as lendas urbanas são, em geral, boatos hiperbólicos, bordados talentosamente pela cultura popular, sendo dignas de elogio se não trouxessem em seu bojo a comoção popular, a indignação e o desvario, ao trocarem o patético naturalmente cultural e literário pela difamação de ordem comercial.
VICENTE JR. é crítico de Literatura, professor do Departamento de Letras da UFC e Coordenador do Grupo de Estudos de Literatura Fantástica - CE (GRELF)
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