
O SAMBISTA possui mais de 350 trabalhos lançados, de discos de cêra em 78 rotações a vinis e os atuais CDs (Divulgação)
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ROBERTO SILVA
Só no sincopado
O carioca, conhecido popularmente como "o príncipe do samba", é atração de mais uma edição do projeto Vesperal Boticário Ferreira
Teresa Monteiro
da Redação
25/11/2006 00:57
Quem nasce em Copacabana parece ter um jeito único de levar a vida. Não seria diferente com Roberto Silva. O carioca, conhecido pelo País afora como "o príncipe do samba" trará seu gênero de estilo sincopado mais uma vez a Fortaleza, desta vez incluído na programação de novembro da Vesperal Boticário Ferreira, projeto gratuito da Prefeitura Municipal de Fortaleza que, através da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo - Funcet, casa-se com a proposta da Tarifa Social no Domingo Cultural - aquele dia em que as passagens do transporte coletivo caem para R$ 1 (inteira).
"Ô minha filha... Aqui tudo maravilha, graças a Deus! Como estão as coisas por aí?", a conversa começa fácil, via fone, direto da imobiliária de um dos seus sete filhos. Engato a prosa pelas músicas trazidas. "Já tenho o repertório formado. Mandei, inclusive, uma lista de 24 músicas pra vocês. É muito bom desse jeito, eu sempre trabalhei assim, porque de outro acho que desvaloriza os músicos locais, não é? Eu viajo e todos ficam felizes da vida. Conheço o Brasil inteiro! Só não gosto desses cantos assim, no exterior, o povo soltando bomba... Não! Já recusei vários shows pra fora. Me deixem aqui".
Roberto Silva deu o pontapé na carreira há 68 anos - o ano era 1938 - numa época em que o rádio era o principal veículo de comunicação e cantores de vozeirão firme como Orlando Silva, Sílvio Caldas e Vicente Celestino eram os que faziam as moçoilas suspirarem. "Quando você começa, é sempre influenciado por eles. Eu sou um cantor um pouco diferente porque, hoje em dia, as pessoas pensam que sambista só canta samba. Eu gravei em todos os gêneros, tá tudo aí na rua. Quando cheguei no samba me firmei, minha consagração mesmo foi em 1952. Nessa época eu trabalhava nas (Rádios) Associadas do (Assis) Chateubriant", disse. Wilson Batista, Raimundo Olavo, Ataulfo Alves listam alguns dos muitos compositores cantados pelo "príncipe".
Carlos Frias foi, assim, o responsável pelo título que carrega até hoje. "Eu, quando estava prestes a entrar no palco, ele anunciou: 'Agora com vocês, Roberto Silva, o príncipe do samba!' Eu, na hora, disse: 'O que é isso?!' O Paulinho da Viola, que é muito amigo meu, o conheci quando ele tinha 10, 12 anos de idade, porque o pai dele era violonista do regional. Eu me lembro que ele ia pro estúdio e ficava lá, quietinho, sentando no banco, só me ouvindo... Quando ele cresceu e se tornou o que é hoje, anunciaram que ele seria o novo príncipe do samba. Ele disse: 'Não, de jeito nenhum. O príncipe está vivo', referindo-se a mim. É muito bom, minha filha... Com o Zeca Pagodinho é a mesma coisa".
Entre idas, vindas e shows pelo Brasil, Roberto Silva destacou-se mesmo pelo samba chamado sincopado. "Eu e o falecido Ciro Monteiro criamos esse gênero, saiu praticamente de nossa mão", disse. Entre discos de 78 rotações, ele soma mais de 350 trabalhos. No formato bolachão (vinil), mais quarenta no currículo. Isso, sem contar as inúmeras coletâneas gravadas ao lado de bambas da atualidade, como os próprios Paulinho da Viola e Zeca, até Beth Carvalho e o baiano Caetano. "Gravamos, eu e Caetano, (a música) Juracy no CD Casa de Samba nº 4. Agora, no dia 1º de dezembro, estarei no Teatro Municipal comemorando não sei quantos anos de samba", adiantou.
"Sou uma pessoa que se cuida. Há trinta anos que deixei de fumar e, se eu disser a minha idade pra você, é capaz de não acreditar: tô com 86 anos, minha filha! As pessoas dizem: 'Pelo amor de Deus, não é possível!' Pois é". E os outros filhos, algum seguiu a carreira do pai? "Não, deram mais pra jogar futebol, tem um que até foi zagueiro do Bahia! Tenho sete filhos, 22 netos e 13 bisnetos, você acredita? E minha atual esposa, já estamos juntos há 12 anos", refere-se a Syone Costa, que também faz as vezes de produtora. Ela, segundo o próprio, é a principal responsável pela retomada da carreira de Roberto Silva.
"Agradeço a Deus e a ela por isso. Quando eu fiquei viúvo, fiquei muito quebrado, melancólico... Aí ela chegou, como quem não quer nada, porque ela também era casada e, depois de algum tempo, se separou. Mas nosso conhecimento já é de quarenta anos. Então ela chegou e trabalhou mesmo. Passou um, dois meses e, depois disso, ligaram pra mim já marcando pra eu gravar uns três, quatro CDs. Se não é essa sacudida... Então é isso aí. Tô por aqui, tô inteiro. Comigo não tem perna torta, não. Tô em pezinho, inteirinho!" O mais recente trabalho de Roberto Silva é o CD Volta Por Cima, "uma coisa maravilhosa", produzido por José Milton para a Universal Music.
À Praça do Ferreira, portanto, o intérprete carioca trará sucessos como Notícia (Nelson Cavaquinho), Normélia (Raimundo Olavo), Escurinho (Geraldo Pereira), Degrau da Vida, Falsa Baiana, entre outros mais, sempre de compositores que o acompanharam. Na abertura da tarde-noite de projeto - que reaviva com todo charme o local através da recriação de coretos e mesinhas - o bandolinista Macaúba, acompanhado de seu regional - a saber: Chiquinho do Cavaco (cavaquinho), Zivaldo Maia (violão de 6 cordas), Tarcísio Sardinha (violão de 7 cordas), Aloísio (pandeiro) e Fernando (surdo) - fará as honras da casa. Só no sincopado.
SERVIÇO
Vesperal Boticário Ferreira - Mais uma edição do projeto tendo como atrações o regional de chorinho encabeçado pelo bandolinista Macaúba, seguido cantor carioca Roberto Silva, considerado "o príncipe do samba". Amanhã (26), a partir das 17h30, na Praça do Ferreira (Centro). Informações: 3253.3861 / 3226.0838. Grátis.
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