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HOMENAGEM

Aos mestres, com carinho

O Museu da Imagem e do Som - MIS comemora os 40 anos de criação da Secult homenageando os 36 mestres da cultura popular já diplomados, através de painéis fotográficos e vitrines com objetos e peças dos artistas. A exposição será aberta hoje, com a presença dos mestres Zé Pio , Gerta e Dina

Eleuda de Carvalho
da Redação

24 Nov 2006 - 04h31min

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DINA Maria Martins, a mestra Dina é a Rainha dos Vaqueiros de Canindé: a vida em livro e filme/FOTO DIVULGAÇÃO
“A tradição autêntica não é a relíquia
de um passado, é uma força viva que
condiciona o presente. O que não for
tradição será plágio”
(Igor Stravinsky, músico erudito)

Eles vieram de todos os cantos do Ceará, trazendo na bagagem um balaio de encantos. São mestres da poesia, da música, da performance. Cantam, dançam, esculpem a madeira, modelam o barro, trançam a fibra, o cipó. Mulheres e homens que fazem uma ponte vital entre a tradição e a contemporaneidade, transmitindo às novas gerações o legado que receberam dos antepassados. Em sua arte, o hibridismo que mescla raças e culturas diversas, fonte viva para outros fazeres artísticos. Desde 2003, através da Lei dos Mestres da Cultura Popular Tradicional, a Secretaria da Cultura do Ceará- Secult vem diplomando uma parte deste tesouro vivo, através de um salário mínimo vitalício e a inscrição de seus nomes e saberes num livro de registros. Para celebrar os 40 anos da Secult, o Museu da Imagem e do Som - MIS acolhe uma exposição de fotografias e peças artesanais dos 36 mestres já inscritos. A abertura será hoje à noite, com a presença de três deles - o mestre Zé Pio, do bumba-meu-boi, a mestra Gerta (da caninha-verde do Mucuripe) e a mestra Dina, que canta aboios e preside a Associação dos Vaqueiros de Canindé.

A exposição é composta por 36 imagens dos Mestres da Cultura, realizadas por Gentil Barreira, Leopoldo Kaswiner e Patrícia Veloso. Estava programado para hoje o lançamento do livro Mestres da Cultura Tradicional Popular do Ceará, com biografias dos mestres e seus ofícios em texto e imagens feitos pelo escritor, pesquisador e professor Gilmar de Carvalho, adiado para o próximo dia 29, no Theatro José de Alencar. O diretor do MIS, escritor Gylmar Chaves, diz que a exposição será “uma celebração. Um brinde à cultura tradicional. Nesta noite, vamos trazer à tona toda a nossa emoção com a sabedoria e a arte que estas pessoas detêm e que merecem ser vistas e adoradas”.

Patrícia Veloso conta como pensou a mostra fotográfica, disposta na lateral do jardim interno do MIS. “A gente fez como se as fotos fossem estandartes, as imagens como móbiles, duas a duas, suspensas, o conjunto arrematado por fitas. Os mestres ficam soltos no ar, girando. É uma homenagem, um toque festivo para estes mestres da cultura tradicional. A estrutura da montagem lembra isso”. Por telefone, ela também conta de sua experiência em realizar algumas das fotografias da exposição. Por exemplo, seu encontro com a mestra do reisado Margarida Guerreiro. “Ela é uma guerreira, mesmo. Mestra Margarida está linda, numa apresentação em frente à igreja matriz de Barbalha. É uma energia muito emocionante ter contato com estas figuras, de uma simplicidade... Ela dançou, ela se pôs para a câmera. Para mim, a câmera é como se fosse um prolongamento de minhas sensações. Busco, na imagem, aquilo que me toca, como se eu quisesse registrar não uma figura, mas o sentimento”.

Seu encontro com Mestre Miguel, na casa dele, em Juazeiro do Norte, também foi marcante. “Ele fez a festa, pegou o pífano, tocou. Posou posicionado na porta da casa dele, com uma luz difusa vindo de trás. Comovente”. Patrícia Veloso fez ainda a fotografia do bacamarteiro Mestre Bigode. “Ele veio da casa dele, no topo de um morro, pra encontrar a gente. Andou bem uma hora, todo arrumado. Levamos ele de volta pra casa. Lá, ele e a mulher, dona Cecília, fizeram um espetáculo!”, diz, emocionada ao lembrar. Também leva sua assinatura a imagem de Raimundo Aniceto, da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto. “A gente marcou numa escolinha, no Crato. Ele juntou a banda e mandaram brasa. Perto deles, você vira uma coisa, babando. Para mim, a fotografia é a interpretação do que aquela figura representou naquele momento. Trabalho a composição, tem a técnica. Mas a foto vai além disso. Estou em busca do que aquilo traz de comoção”.

Além das três apresentações ao vivo, com Dina, Zé Pio e Gerta, a homenagem aos Mestres da Cultura vai mostrar, em vitrines, peças em cerâmica de Lúcia Pequeno, uma bandinha cabaçal em madeira de Manoel Graciano, pífanos dos Irmãos Aniceto, um chapéu de cipó-imbé do mestre Pedro de Guaramiranga, bonecos do mamulengueiro Gilberto, de Icapuí, e algumas das lindas jangadas criadas por seu Oliveira, de Aquiraz. Dos 36 mestres diplomados, alguns em idade bem avançada - como dona Tatai, de Juazeiro, com 80 anos - e que continua a tradição da lapinha Santa Clara, criada por sua mãe em 1912, dois faleceram este ano: o mestre xilógrafo Walderêdo Gonçalves e o brincante Juca do Balaio. A arte que eles deixaram, no entanto, prolonga sua memória no rumo da eternidade.


Cantiga de encantar
O canto, lento, denso, lindo, comove até o boi mais bravo. Que vai cair ao chão sob a agilidade do laço, jogado ao ar por mão de mulher. Dina Maria Martins Lima, a mestra Dina, é a Rainha dos Vaqueiros de Canindé, e sua fama há muito ultrapassou os limites de sua cidade. Sua história virou livro, filme, folheto de cordel. Toda encourada, com gibão, perneira, peitoral, chapéu de couro, ela domina o cavalo e o gado, num ofício que era exclusivo dos homens. E Dina faz tudo isso com suave força, potente delicadeza. A voz é muito bonita, tanto ao vivo quanto assim, por telefone. “Vim chegando do trabalho agora. Vim foi cedo”, diz Dina, do lado de lá da linha, quase às cinco da tarde. Uma vida de “corre-corre”, reafirma ela, que, além da lida com o gado, realiza um trabalho junto às crianças, faz parte do conselho da comunidade, e ainda dirige a associação dos vaqueiros. “A gente mexe com muita coisa”, diz ela, do seu jeito simples.

A primeira lembrança de sua vida como vaqueira é aos sete anos, “quando eu comecei”, conta. “Meu pai me prendia muito... Ele saía pra fazer compras, todo sábado, e pedia pra meus irmãos não me deixarem montar nos animais. Ele só voltava à noitinha, e dava tempo... Fui criando gosto”, conta ela, estripolias de menina, que ganhava o apoio dos irmãos mais velhos. Certa vez, ainda garota, um fazendeiro vizinho foi até a casa da família dela, procurando uma novilha desgarrada. O pai disse, “quem pode saber é Dina, que conhece todo o pasto”. Dina exultou: “Me achei uma pessoa sorteada! Vesti as perneiras de meu pai, chamei meus cachorros, o Perigo e o Perigoso. Lá na lagoa, estava a novilha. Corri na mata, consegui botar ela no chão, peei, levei pro dono. Meu pai ficou abismado. Foi minha primeira felicidade”.

O pai queria que a menina estudasse, “tivesse um futuro bonito”. Em 1970, Dina foi convidada para ajudar a organizar a primeira missa do vaqueiro de Canindé. Tomou foi a frente, cantou aboios, correu a vaquejada. Achou um admirador, Fernando, primeiro namorado, o “rapaz com quem me casei”. Estava com 17 anos. O casamento, lembra, “foi uma festa linda, linda, uma das maiores festas de casamento de Canindé”. Tiveram três filhos, mas logo Dina ficou viúva. Fernando faleceu ainda jovem, de um ataque cardíaco fulminante. Muitos tempos depois, permitiu-se um namorado, “um homem muito valente”. Não gostava nada, nada das artes de Dina. “Ele se desanimou, desvaneceu”. Azar o dele.

O grande parceiro do vaqueiro é o cavalo. Dina apegou-se ao Mimoso. “Com ele, tive muitas vitórias, ganhei muitos prêmios”. O primeiro cavalo que teve foi o Estrelinha, “um alazão com uma estrela na testa”, com o qual ganhou o primeiro troféu. Muitos outros prêmios vieram, Dina diz que já perdeu a conta. “Os amigos gostam, digo, leve pra você. O maior troféu está dentro de mim, sou eu mesma. Sou uma vitoriosa na vida”, arremata. (EdC)


SERVIÇO
Exposição Mestres da Cultura Cearense - painéis com fotografias dos 36 mestres diplomados, exposição de peças dos artistas e apresentação dos mestres convidados: Dina, Gerta e Zé Pio. Às 19h, no Museu da Imagem e do Som- MIS (av. Barão de Studart, 410-Meireles). A exposição fica em cartaz até o final de dezembro. Inf.: 3101.1200 ou 3101.1204.

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