ILUSTRAÇÃO: CARLUS
ILUSTRAÇÃO: CARLUS
SIMPÓSIO
Um pé na taba, outro na corte
A UFC, através do Instituto de Cultura e Arte, realiza de hoje a sexta-feira o II Simpósio Nacional Casa de José de Alencar - Campo e Cidade em Alencar. Conferências, mesas-redondas, oficinas, exposições e lançamentos evidenciam a ressonância atual da vasta obra do escritor, no lugar em que ele nasceu, a casinha histórica do sítio Alagadiço Novo

Eleuda de Carvalho
da Redação

21/11/2006 01:03

Quem passa em meio ao ruge-ruge da Washington Soares, talvez nem perceba a casinha de taipa, caiada, pequena e simples, do lado de lá da cerca de arame farpado. Ela faz parte de um dos equipamentos da UFC, talvez o mais significativo e importante, do ponto de vista histórico e cultural. Foi aqui, no dia primeiro de maio de 1829, que nasceu José de Alencar. Para refletir sobre o escritor, que viveu apenas 48 anos mas legou uma obra magistral, a UFC, através do Instituto de Cultura e Arte-ICA, realiza o II Simpósio Nacional Casa de José de Alencar, reunindo pesquisadores da obra alencariana de várias universidades brasileiras.

A diretora do ICA, professora Angela Gutiérrez, lembra que o primeiro simpósio, realizado nas dependências da Reitoria, "deflagrou o processo de revitalização da Casa de José de Alencar". O sítio histórico passou por duas importantes reformas, uma em 2005 (com verba suplementar conseguida pelo deputado João Alfredo, para reparos no casarão anexo) e outra este ano, quando a casinha passou por minucioso restauro coordenado pelo Iphan. Hoje, alegra-se Angela, o II Simpósio "é aqui realizado, iniciando um outro passo de revitalização do sítio histórico".

Mesas-redondas, conferências, oficinas, exposições e apresentações artísticas fazem parte da programação. O pesquisador Wander Melo Miranda, da Universidade Federal de Minas Gerais, faz a conferência de abertura, hoje, sobre o tema Heterogeneidade e conciliação em Alencar. Amanhã, Antônio Carlos Secchin, professor da UFRJ e representante da Academia Brasileira de Letras, fala sobre a ressonância de Alencar na literatura contemporânea, e na sexta, a professora Maria Cecília Queirós de Moraes Pinto, da USP, aborda o tema Alencar e o tamanho da sociedade fluminense.

As mesas-redondas começam hoje à tarde. A primeira traz o foco para a própria Casa de José de Alencar, na dinâmica visão de patrimônio histórico e cultural. Participam Angela Gutiérrez; a arquiteta Eveline Vasconcelos; o historiador e diretor do Museu do Ceará, Régis Lopes; o bibliotecário Jonatan Soares; a pesquisadora Neuma Cavalcante, coordenadora do Arquivo do Escritor Cearense; o diretor do Museu de Arte da UFC, Pedro Eymar, o arquiteto Romeu Duarte, do Iphan, e a diretora da Casa de José de Alencar, Vera Moraes.

Na quarta-feira, a mesa-redonda Alencar: visões da cidade do Rio de Janeiro conta com a participação de Angélica Madeira (UnB), que vai falar sobre as representações da Corte na obra do escritor. A historiadora da USP e da PUC do Rio de Janeiro, Mary Del Priore, conversa sobre o imbricamento entre história e literatura em Alencar. Fernanda Coutinho, da UFC, aborda as impressões do Rio na crônica alencariana. E Miguel Leocádio Araújo fala sobre o dramaturgo.

O tema de quinta-feira será Leituras e Leitores de Alencar, com as presenças de Marisa Lajolo, da Unicamp, e Nádia Battella Gotlib, da USP. Os demais convidados são Ivone Cordeiro (UFC), que apresenta a história social do sertão na obra do romancista; Vania Vasconcelos (UECE), que trata do mito da Donzela Guerreira em Guerra dos Mascates, e Vera Moraes, abordando a questão do feminino em José de Alencar. À tarde,o tema será Imaginário Alencariano, símbolos mitos e lendas. Participam Ana Remígio (Uece), com a fala Eros e Psiquê - encontros e desencontros amorosos em Alencar; e as professoras da UFC Meize Lucas (Primeiros anos - Alencar no cinema brasileiro), Odalice de Castro e Silva (Noções de região e nação em José de Alencar) e Wiebke Xavier (O imaginário alencariano e suas traduções européias).

Minicursos e oficinas, com a produção de alunos e mestrandos, vão ampliar o foco do debate, e acolher um público diferenciado. Uma das oficinas, com estudantes do programa Bolsa Arte de Literatura, do ICA, será exclusiva a crianças da escola pública. Para os vestibulandos, na quinta, a partir da uma e meia da tarde, acontece a exibição do filme O Guarani, seguido de debate com os professores Paulo de Tarso e Sueli Oliveira e a mestranda Fernanda Cardoso. Mas esta é só uma parte do cardápio. Há ainda uma vasta programação cultural e um quitute gastronômico...

Logo na sala de entrada do casarão, quem recebe o visitante é a índia imortalizada por José de Alencar e recriada pela imaginação ímpar do artista plástico Descartes Gadelha, 31 nanquins e bicos de pena da série Iracemas. Além da sala Iracema, serão inaugurados o Memorial do Escritor Cearense, coordenado pela pesquisadora Neuma Cavalcante, com os acervos pessoais dos escritores Moreira Campos e Natércia Campos. Também será aberta uma loja permanente das Edições UFC. Durante o simpósio, estarão disponíveis ao público livros de e sobre José de Alencar, das Edições UFC e também das editoras ABC, Saraiva, Cavalo Marinho, Arte & Ciência e Livraria Acadêmica. Dentre os lançamentos programados, a edição comemorativa Iracema, lenda do Ceará - 140 anos, volume organizado por Angela Gutiérrez e Sânzio de Azevedo; Entre Narciso e Eros: a construção do discurso amoroso em José de Alencar, de Vera Moraes; Iracema para crianças (textos e ilustrações de alunos do Programa Bolsa-Arte de Literatura e Bolsa-Arte de Estilismo e Moda); e os anais do I Simpósio Nacional, José de Alencar e a Cultura Cearense, do qual participam, dentre outros, Valéria de Marco e João Roberto Farias, ambos da USP. E também o romance histórico Luzes de Paris e o Fogo de Canudos, de Angela Gutiérrez.

A programação cultural conta com a participação do Coral do curso de graduação em Educação Musical, um recital do grupo poético Verso de Boca, e shows do Grupo de Flautas do ICA e da Camerata de Violões, além da apresentação solo da saxofonista Ana Cléria Rocha. Na varanda do casarão, em frente à Sala Iracema, exposição de orquídeas, promovoda pela Associação Cearense de Orquidófilos, que se reúne, aos sábados, na Casa de José de Alencar. Também estarão expostos à venda quadros e postais de Leda Freitas, alusivos aos romances de José de Alencar.

Para acolher melhor ainda os participantes, o Restaurante Universitário vai funcionar, todos os dias do simpósio, na Casa de José de Alencar. O cozinheiro Zé do Carmo já preparou dois panelões de doce de caju, "com os cajus de lá", gaba a diretora da Casa, Vera Moraes. O doce, em vidrinhos rotulados, será uma prenda aos professores convidados. Mas os participantes também vão se deliciar, garante Vera. A UFC vai disponibilizar transporte gratuito (em ônibus e vans), que sairão todos os dias do evento, às oito horas, do Museu de Arte da UFC - Mauc.


UM LUGAR PARA A MEMÓRIA
A Casa de José de Alencar, segundo Angela Gutiérrez, é uma verdadeira casa de cultura, contando com um valioso e variado acervo. Ali estão a Pinacoteca Artur Ramos, a Coleção Luíza Ramos e a Biblioteca Braga Montenegro. Uma comissão multidisciplinar, coordenada pelo ICA, está fazendo um "recenseamento de todos os acervos da Casa. Para torná-los vivos. E para que aqui seja, de fato, um centro de referência nacional nos estudos sobre José de Alencar", reforça Angela.

Agora, o equipamento recebe os dois primeiros acervos do Memorial do Escritor Cearense, que será sediado na Casa, reunindo os arquivos pessoais dos escritores Moreira Campos e Natércia Campos, devidamente organizados por Neuma Cavalcante, responsável pela catalogação do acervo de Guimarães Rosa.

Dentre as novidades para a Casa de José de Alencar, a diretora Vera Moraes destaca a parceria feita com o Governo do Estado, através do Prodetur, para revitalização do sítio histórico do Alagadiço Novo, com projeto do arquiteto Ricardo Bezerra. E a implantação do Museu e Biblioteca Casa de José de Alencar. "Nossas utopias se realizam", arremata Angela Gutiérrez.


SERVIÇO
II Simpósio Nacional Casa de José de Alencar - de 21 a 24 de novembro, na Casa de José de Alencar. As inscrições ainda podem ser feitas hoje, na abertura do evento. Investimento: R$ 10 (estudantes), R$ 20 (pós-graduandos) e R$ 30 (professores). Casa de José de Alencar: av. Washington Soares, S/N - Messejana. Inf.: 3229.1898 e 3276.2379 ou 3366.7437 (ICA/UFC)



PROGRAMAÇÃO

21, TERÇA
9h - Cerimônia de abertura, com as presenças do reitor da UFC, prof. René Barreira, e da diretora >do ICA, professora Angela Gutiérrez. Inauguração do Arquivo do Escritor Cearense
10h30 - Wander Melo Miranda (UFMG) - conferência Heterogeneidade e conciliação em Alencar
14h30 - Casa de José de Alencar, patrimônio histórico e cultural (com Eveline Vasconcelos, Régis Lopes, Jonatan Soares, Neuma Cavalcante, Pedro Eymar, Romeu Duarte e Vera Moraes)
16h - Abertura da Sala Iracema, com exposição temática do artista Descartes Gadelha


22, QUARTA
9h - Alencar, visões da cidade do Rio de Janeiro - mesa-redonda com Angélica Madeira (UnB), Fernanda Coutinho (UFC), Mary Del Priore (USP/PUC-RJ) e Miguel Leocádio Araújo
15h30 - Alencar e depois, conferência com Antônio Carlos Secchin (UFRJ e ABL)
17h - Lançamentos de publicações: Anais do I Simpósio; Iracema, lenda do Ceará - 140 anos (Org. Angela Gutiérrez e Sânzio de Azevedo); Entre Narciso e Eros (Vera Moraes), Iracema para crianças (texto e ilustrações de alunos dos programas Bolsa-Arte do ICA, de Literatura e de Estilismo e Moda)

23, QUINTA
9h - Leituras e leitores de Alencar - mesa-redonda com Nádia Battella Gotlib (USP), Ivone Cordeiro (UFC), Vânia Vasconcelos (Uece), Vera Moraes (UFC) e Marisa Lajolo (Unicamp)
13h30 - exibição do filme O Guarani, para alunos do ensino médio. Depois, debate com Fernanda Sousa, Paulo de Tarso e Sueli Oliveira
15h30 - Imaginário alencariano: símbolos, mitos e lendas - mesa-redonda com Ana Remígio (Uece), Meize Lucas (UFC), Odalice de Castro e Silva (UFC) e Wiebke Xavier (UFC)

24, SEXTA
8h30 - Vivências da Casa de José de Alencar: depoimentos de funcionários da Casa
9h30 - Alencar e o tamanho da sociedade fluminense, conferência com Maria Cecília Queirós de Moraes Pinto (USP)
12h - Cerimônia de encerramento

MINICURSOS E OFICINAS
(de 21 a 24, sempre às 13h30)
Alencar cronista (mestranda Ana Karla Dubiela)
O imaginário em José de Alencar (mestra Ednéia Gonçalves Quinto)
O herói do sertão na ficção alencariana (mestre Miguel Leocádio)
O projeto literário de Iracema (mestra Ana Cristina Caminha)
Oficina com alunos do Curso de Licenciatura em Educação Musical
Oficina do Programa Bolsa - Arte de Literatura (público-alvo: crianças da escola pública)

 

 

 

 

Copyright © 2001-2006 · www.opovo.com.br · todos os direitos reservados · 800x600 ou superior · ie6+