MARIA Lucineide da Silva Costa é a parteira do local, pois a saúde de lá é algo esquecido pelas autoridades (Foto: Talita Rocha/Especial para O POVO)
MARIA Lucineide da Silva Costa é a parteira do local, pois a saúde de lá é algo esquecido pelas autoridades (Foto: Talita Rocha/Especial para O POVO)
A LUTA
A difícil vida de lá
Na segunda parte da reportagem, a parteira Maria Lucineide da Silva Costa fala sobre a luta pela sobrevivência em Lagoa dos Ramos. Sua sogra e tia, dona Eliotera Maria da Costa, é uma das moradoras mais antigas da comunidade de Goiabeiras

20/11/2006 02:54

Além da escassez de transporte e da falta de auxílio médico, a comunicação por telefone é inviável em Lagoa dos Ramos. "Só colocaram a carcaça do telefone público bem ali. Nunca vi esse telefone na minha vida. Quando alguém fica doente, só tem agente de saúde. Daqui a pouco vou ajudar a parir mais uma, que já tá com oito meses. Se alguém morrer na minha mão, não sou culpada", diz Lucineide. Os braços de Maria Lucineide guardam cicatrizes do trabalho diário árduo na roça. "Até que aqui tem sossego. Não tem violência. Mas trabalho aqui só se for de enxada. Tem gente que só volta à noite do roçado. Aqui tem manga, caju, banana. E quando o açude Catu Cinzenta enche, dá pra pescar peixe".

Para complementar a renda familiar que sustenta os oito filhos, Maria Lucineide borda colchas e toalhas de mesa para vender em mercados. "De primeiro, só tinha a roça. Agora nós faz uma renda, que dá pra ajudar. O bordado só é valorizado pelos turista. O pessoal daqui não compra não", diz. "O Bolsa Família também ajuda muito o pessoal daqui", acrescenta Lucielda de Freitas, 34, professora da única escola de Lagoa dos Ramos, a Escola de Ensino Fundamental José Raimundo da Costa. "Vocês sabiam que aqui é uma comunidade quilombola, né? Tem uma senhora aqui da região que pode contar tudo para vocês sobre esse período e como eles ainda mantém a cultura negra", orienta a professora.

A senhora é dona Eliotera Maria da Costa, 83, sogra e tia de Maria Lucineide. Eliotera com H? "Ora, num é ocês que sabe escrever?", retruca. Com os olhos arregalados, a moradora mais antiga de Goiabeiras recebe em sua casa a reportagem do O POVO com um longo suspiro. "Preste bem atenção! Minha mãe nunca contou nada de escravidão, de onde veio ou não. Num vou dizer nada, porque num era nem gente nesse tempo. Antes dos meus pais nascerem, aqui só tinha mato", diz, recusando a mira da câmera fotográfica. "Não faz retrato, não. Quase toda semana, vem gente aqui, pergunta tudo da minha vida e num traz uma xícara de café. Nem retrato. Desculpa vocês que nunca apareceram por essas banda de cá, mas eles é quem tem o mapa da escravidão". Eles quem, dona Eliotera? "Essa gente que vem aqui e pergunta dos meus pais, meus avós, onde estudou ou não. De mês em mês, chega gente na minha porta e pergunta sobre quilombola, carambola, isso ou aquilo outro. Leva e traz retrato. E ninguém nunca ajuda nada", diz.

Agentes de saúde, pesquisadores e jornalistas costumam aparecer em Lagoa dos Ramos para coletar informações, seja para mapear a região ou produzir reportagens. "Imagine gente que você não conhece xeretando o tempo todo a vida de vocês. Enche o saco! Meus avós nunca conversaram comigo sobre escravidão. Só sei que eram tudo preto e índio", afirma. Mãe de 14 filhos, dona Eliotera diz que Goiaberas melhorou em alguns aspectos e outros não. "Se eu trabalhar, tenho esperança de que tudo vai mudar. Com ajuda de muito custo e trabalho, Jesus me dá força. E aquele Deus que está lá no céu irá me ajudar" (Camila Vieira).


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