
(Foto: Talita Rocha/Especial para O POVO)
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CONSCIÊNCIA NEGRA
Nas pontas dos galhos
Em 20 de novembro de 1695, morria Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares, que virou símbolo da resistência negra. A data da morte de Zumbi transfigurou-se no Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado hoje em todo o Brasil. Para celebrar a data, o Vida & Arte visitou Lagoa dos Ramos, uma das 84 comunidades quilombolas do Ceará
Camila Vieira
da Redação
20/11/2006 02:54
"Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão..."
Trecho de A Canção do Africano, de Castro Alves
De todas as gerações de famílias que viveram no seu vilarejo, Maria de Lourdes Costa da Silva, 66, afirma estar "nas pontas dos galhos". "Somos os mais novos desse povoado, que é do tempo que só tinha mato". Conhecida pelos vizinhos como dona Maria Paca, ela nasceu, cresceu e convive até hoje na comunidade Lagoa dos Ramos. "Fico imaginando como tudo mudou muito. Quando era pequena, ajudava papai a plantar pé de milho e feijão. A safra era tão grande, que dava pra voltar até com seis racha (porção ou quinhão). Ninguém nunca comprou em bodega. Hoje em dia, tá difícil. Não tem nada e não colhe nada. Juntando tudo, não dá um mês", diz. Por causa da constante devastação do roçado e das "coisas caras", dona Maria Paca reconhece enfrentar dificuldades. "Tudo tá tão difícil, que não tenho nem dinheiro pra comprar óculos", afirma, referindo-se à hipermetropia, que começou a confundir sua visão há dois meses.
Lagoa dos Ramos é uma das 84 comunidades quilombolas (remanescentes de quilombos) do Ceará. Fica a 18,5 quilômetros do centro de Aquiraz que, por sua vez, se situa a 30 quilômetros de Fortaleza. Dona Maria Paca mora logo no começo da estrada de areia vermelha que dá acesso à comunidade. Na sua casinha de barro, os filhos José Hamilton, 26, e Raimundo Nonato, 30, lhe fazem companhia. Os outros três já estão "com a vida feita". Escorado no pé de ceriguela que dá sombra ao quintal da casa, José Hamilton diz que sua família sobrevive aos poucos. "Aqui acolá nós trabalha". Todos os meses, dona Maria Paca recebe aposentadoria de R$ 350,00 que dá para sustentar seus dois filhos, seus dois gatos e sua criação de galinhas. "Mas essas galinha come demais". Pelo menos, dá para fazer uma boa canja, né? "Não gosto de galinha de casa não, filha. Só de fora!"
Na peleja diária pela sobrevivência, dona Maria Paca confessa que pede auxílio a Deus. "Ele é minha paz. Senão, se acabou". Mas para melhorar a situação da Lagoa dos Ramos, a união dos moradores seria ideal. "Tem que se unir pra ir pra frente. Agora assim (levanta o dedo indicador), não dá não. Ou se une ou não acontece nada". Do período da escravatura, dona Maria Paca pouco ouviu falar. Mas se recorda do que sua mãe costumava dizer sobre escravos negros. "Mamãe falava que eles sofria como diabo. Era só mói de peia e amarrado no tronco. Quem se lembra dessa história é meu irmão Luiz. Vá lá falar com ele", diz.
Dono de uma mercearia vizinha à casa de sua irmã, Luiz José da Costa preferiu ficar calado. Da entrada da casa, seu filho de 15 anos, Luiz Filho da Costa, recomenda procurar o representante da comunidade e seu primo, Antônio José da Costa, que acabara de viajar. "É que hoje tem torneio de futebol e ele saiu pra ajeitar umas coisa pra partida". Atacante e artilheiro do time, Luiz Filho tem mais dois irmãos pequenos: Zilmara, 5; e Luiz Carlos, de apenas um ano e meio, que repousava no colo da mãe, Zilmar Chaves.
Estima-se que cerca de 100 famílias residam em Lagoa dos Ramos e na comunidade vizinha, Goiabeiras. A área ainda passa por processo de identificação e demarcação como território quilombola pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra-CE). Mesmo com acesso à energia elétrica há dois anos, as estradas estreitas e não pavimentadas dificultam a passagem de transportes em Lagoa dos Ramos. Próxima à única escola da comunidade, Maria Lucineide da Silva Costa, 54, esperava o ônibus chegar para voltar para casa. Parente de dona Maria Paca? "Não. Só se for de muito longe, dos antigos", sorri. Maria Lucineide é considerada a parteira da região. "Não é porque sei, não. Aqui não chega médico. Aí sou obrigada a socorrer as grávidas. Já ajudei bem uns dez partos. E sempre digo que não quero nada em troca", diz.
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