
Teixeira e Gonzaga reinventaram Nordeste além da literatura (Reprodução: Arquivo Denise Dummont)
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ENCONTRO
Parceria singular
Luiz Gonzaga não seria o mesmo sem Humberto Teixeira e vice-versa. A professora de Música Elba Braga Ramalho interpreta a parceria dos dois músicos como a responsável, na década de 40, pela divulgação de uma visão estética nordestina que conseguiu ir além da literatura. Isso só foi possível a partir das vivências e saberes de cada um deles
Elba Braga Ramalho
Especial para O POVO
18/11/2006 15:10
Dois indivíduos criadores, que se encontram. Ambos experimentaram processos de socialização distintos, embora fossem oriundos de espaços geográficos com característica similares. Gonzaga vive a infância na roça, numa família dedicada à agricultura de subsistência, mas enriquecida pelo dom musical que era alimentado pelas performances dos pais: Januário, com sua sanfona de Oito Baixos, espalhava alegria nos arrasta-pés das redondezas, e Santana, com voz afinada, plenificava os espaços reservados às novenas e aos festejos religiosos. O curto período de escolaridade de Gonzaga foi compensado com uma aguçada memória que lhe possibilitou a absorção de todo um aprendizado da tradição, intensamente vivenciado no seu cotidiano em Exu: aquelas impressões marcantes de uma vida doméstica do mundo rural que compreendia afazeres do dia-a-dia e diversões as quais eram preenchidas também com as obrigações religiosas.
Teixeira, por sua vez, nascido em Iguatu, fora cedo estimulado a estudar música, ocupando-se com o aprendizado da flauta e do bandolim. Piano, nem falar. Era instrumento de mulher, dizia seu pai. A vida lhes proporcionou uma revoada. O primeiro experimentou, por 10 anos, a lida no quartel. O segundo conquistou a formação acadêmica, e tornou-se advogado. Mas a música foi a portadora do encontro dos dois, no Rio de Janeiro, em 1945.
Como se sabe em declarações autobiográficas, Gonzaga tinha em mente o que queria fazer, mas não sabia de antemão como transformar suas idéias musicais e de conteúdo poético em objeto de arte. Necessitava de alguém que complementasse seu grande sonho: transformar em canção toda a bagagem cultural que guardava na memória. E até então, seus parceiros nem sequer alcançavam suas pretensões.
Foi o encontro com Teixeira que possibilitou a grande arrancada para a concretização de seu projeto. Uma parceria musical que possibilitou a realização de um projeto estético que revelou o Nordeste de um modo muito original: pela música, pela poesia, pelo canto, acrescidos do instrumental, do linguajar, da indumentária, da coreografia. Três canções tornaram-se ponto de partida para esse feito: Baião, No meu Pé de Serra e Asa Branca. A música Baião tem uma intenção didática. Ela ensina o ouvinte a dançar. Seu ritmo, oriundo das danças animadas do sertão nordestino, ganhou nova configuração com a complementação do zabumba, do triângulo e do acordeon que passaram a caracterizar o conjunto instrumental mais representativo da região. Asa branca, originalmente canção de trabalho dos apanhadores de algodão, cresce em elaboração poética de grande lirismo, e se transforma na canção por excelência de brasileiros migrantes e até mesmo dos exilados.
As impressões do encontro são relatadas por Gonzaga em depoimento a vários pesquisadores. Ele se admira com a destreza de Humberto em transcrever na partitura o que acabara de ouvir, e na rapidez com que criava a letra da música. Daí em diante, ambos se complementavam, ambos necessitavam um do outro.
Nada melhor do que a confissão de Humberto Teixeira a Nirez, publicado em 1995 pela Equatorial sob o título Eu sou apenas Humberto Teixeira, em que revela sutilezas dessa experiência.
"A nossa parceria [Humberto refere-se a Gonzaga], eu costumo dizer que não sei onde começa o poeta e onde termina o músico, é uma parceria indestrutível, muito amiga, muito fraterna. ... Eu nunca me incomodei muito com esse processo que atinge muito a todo criador de um modo geral, em qualquer manifestação artística. Nem sempre o que cria ou aquele que entra mais intelectualmente ou musicalmente ou o que seja, ou com a letra da coisa, é quem se beneficia do que aquilo pode render junto da massa, junto do público, na representação do que por ventura essa obra de arte, em qualquer manifestação artística venha a ter. Eu nunca me incomodei com isso porque eu sempre analisei de uma maneira muito fria. O baião, se tivesse sido feito só por mim, o que não foi, fui eu e o Luiz Gonzaga, ele continuaria sendo apenas um negócio inédito, ao passo que com o Luiz Gonzaga ele se tornou esse marco extraordinário dentro da música popular brasileira marcando uma década de sucessos fantásticos. De 45 a 57, quer queiram, quer não, os documentos, a história dos suplementos, das fábricas, as gravadoras, o rendimento autoral das sociedades, tudo era feito em torno do baião".
Para alcançar tamanha síntese poético-musical para a produção de pequenas obras primas do cancioneiro nordestino, urbanizado pela dupla, somente uma troca de experiências sem qualquer limite poderia explicá-la. As vivências e os saberes de cada um foram expostos e transformados em canções. Gonzaga com sua poesia e musicalidade in natura. Teixeira, o artífice da forma, o lapidador do diamante.
Gonzaga e Teixeira, é possível afirmar, expressaram a visão estética nordestina - à época deles somente abordada pela literatura - a todos os níveis sociais, em todo lugar do país.
Elba Braga Ramalho é musicóloga e professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Publicou, em 2000, o livro Luiz Gonzaga, a síntese poética e musical do sertão (Ed. Terceira Imagem), originalmente tese de doutorado defendida na Liverpool University.
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