
Carmélia Alves cantando baião no hotel Copacabana Palace (Reprodução: Arquivo Carmélia Alves)
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AMIZADES
Laços afetivos
Durante toda a carreira, Humberto Teixeira esteve rodeado de amigos. Deles partem as histórias do tempo em que o baião vivenciava seu auge e de quando o compositor transitava pelas rodas da boemia carioca. O jornalista Sérgio Cabral e a cantora Carmélia Alves são alguns dos que confessaram os episódios vividos ao lado do cearense
18/11/2006 15:10
Por trás das feições de homem sério e sisudo, Humberto Teixeira resguardava o típico bom-humor nordestino. Adorava sair com os amigos e rir das piadas contadas por eles. Também gostava de contar suas próprias histórias, como a de quando foi abordado próximo de sua casa, no Rio de Janeiro, e quase assaltado. Safou-se por conseguir se passar como ministro do Supremo Tribunal Federal e, com isso, amedrontar quem tentava lhe fazer o mal.
Esse é um dos episódios dos quais o jornalista Sérgio Cabral mais lembra. No início da década de 60, os dois se aproximaram devido ao ofício, à época das Caravanas Oficiais da Música Popular Brasileira comandadas pelo compositor no exterior. Ele era crítico musical do Jornal do Brasil e, mais tarde, ajudaria também a fundar o antológico jornal O Pasquim. Apesar de não terem sido amigos íntimos, os dois mantinham uma relação de confiança que garantia, pelo menos, bons papos. "Ele não era interessante apenas como artista, mas também como ser humano. Tinha um grande papo e era extremamente bem-humorado", lembra o jornalista.
Uma das recordações de Cabral é mantida até hoje em sua casa: uma carta endereçada por Teixeira ao jornalista, magoado com as críticas feitas a ele por um outro compositor numa revista de grande circulação nacional. "O fato de ele ter me escolhido para desabafar me deixou muito honrado. Me marcou muito ver que ele era aquele boêmio bem-humorado, um monstro sagrado da música brasileira, mas também um sujeito de certa simplicidade".
O desabafo foi motivado pela discordância de alguns artistas do direcionamento de Teixeira em relação a sua luta pelas leis de direitos autorais. Para ele, o método de arrecadação e de distribuição dos direitos daquela época era injusto, porque não considerava o valor de cada obra exclusivamente, mas apenas do conjunto da obra do artista.
Ele sempre fez parte da União Brasileira dos Compositores (UBC), instituição que costumava representar na luta contínua também pela profissionalização de seu ofício. "'Compositor tem que aprender que isso é uma profissão', ele disse uma vez pra mim", relata Cabral. De acordo com o jornalista, o sucesso de Teixeira era tanto que ele não corria o risco de ser "esquecido" pelas grandes redes de rádio por discordar de suas posições e brigar com elas.
Apesar da carreira política ter marcado a trajetória de Humberto Teixeira, as recordações dele mais caras à cantora Carmélia Alves são dos tempos de boemia e festividade, do auge do sucesso do compositor. Foi ela quem brilhou com o título de Rainha do Baião, por suas interpretações memoráveis da obra do cearense nos palcos do Copacabana Palace, onde trabalhava com seu marido, o crooner Jimmy Lester.
"Jimmy e ele se tornaram as duas pessoas mais importantes da minha vida. A gente não se separava. Toda noite a gente saía do Copacabana Palace e ia passear no Jaguar dele. Adeus Maria Fulô nasceu de uma dessas saídas, às 4 horas da manhã, com o Sivuca (músico pernambucano) bêbado que nem um gambá", relata ela. A cantora, de 83 anos, diverte-se ao lembrar das histórias com o compositor, a quem considerava um irmão do dia-a-dia e conselheiro-mor.
Kalu, composição gravada em 1952 por Dalva de Oliveira, também foi criada numa dessas noites. De cara, Carmélia não havia aprovado. "Ele disse 'vem cá, fiz uma música nova, você não quer gravar?´. Aí ele cantou um pouquinho, mas cantava ruim, ruim mesmo! Aí eu disse: 'Ih, Humberto, que coisa feia! Não gostei dessa história de 'Tira os ói de riba deu', não! Arranja outra música para eu cantar". Ele saiu dali e foi mostrando pra todo mundo e todo mundo tinha a mesma reação", conta ela. A música caiu nas graças de Dalva e do público e, de quebra, ainda foi gravada ao lado de Dono dos teus olhos, outra composição memorável de Teixeira.
"Vivíamos na casa dele ou na nossa até sair o Clube da Chave, o ponto de encontro de todas as nossas reuniões". O Clube nasceu privado, tocado pelas próprias mãos de Teixeira em meados da década de 50. Era um bar com um garçom e um piano de cauda e restrito à presença dos 50 sócios-proprietários e seus convidados. O problema é que, nessa lista de presença, estava o nome de gente do quilate de Dorival Caymmi, Paulo Gracindo e Oscar Niemeyer, o que contribuiu rapidamente para que se criasse o burburinho em torno das reuniões no lugar.
A Rainha do Baião esteve presente em três Caravanas da MPB pelo exterior. Com a música, ela foi à Europa, ao Méximo e chegou até a Faixa de Gaza, local de intensos conflitos entre árabes e israelenses já na década de 60. O risco de se apresentar ali foi real. O retorno dos artistas ao Brasil acabou atrasado porque o avião que os traria de volta ficou retido numa fronteira. "Eram aventuras boas aquelas. Era um calor desgraçado, 56 graus às três da tarde. Vi o Waldir Azevedo (compositor) ser cuspido por um camelo. Meu marido montou num outro e ficou insistindo para eu subir também. Acabei subindo porque já estava desesperada com os caras de lá atrás de mim pra me vender aquelas porcarias", relata ela aos risos.
"Apesar do dinheiro não ser grande, as viagens eram coisa de Primeiro Mundo. O Humberto fazia a coisa bem feita. A gente ficava nos melhores lugares, era atendido como grandes artistas brasileiros. Eu fui considerada uma grande estrela, me botaram nos píncaros da glória!", comenta a cantora. A presença do cearense no seu trabalho e em sua vida foi tamanho que, até hoje, ela revive os baiões do compositor em suas interpretações. "Só de cem em cem anos nasce algum Humberto Teixeira. Ele era um gênio". (AQ)
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