MIGUEL Sanches Neto é professor, poeta, romancista e cronista/FOTO DIVULGAÇÃO
MIGUEL Sanches Neto é professor, poeta, romancista e cronista/FOTO DIVULGAÇÃO
RESENHA
O strip-tease do escritor
O paranaense Miguel Sanches Neto, poeta e romancista, afiou ainda mais a palavra neste gênero ambíguo, meio literatura, meio jornalismo, que é a crônica. Em Impurezas Amorosas, o escritor mostra-se em todo seu vigor estético

Eleuda de Carvalho
da Redação

17/11/2006 23:01

Houve um tempo em que a crônica habitava a sala de visitas dos jornais. Literatura da boa, para ser degustada entre notícias. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos - eminentes cronistas, mais Carlos Drummond de Andrade, o poeta, para falar de uma tríade que pontificou cotidianamente no batente das redações. Não há como esquecer a presença feminina, destacando-se, entre outras, as romancistas Clarice Lispector e Rachel de Queiroz - esta, escrevendo até poucos meses antes de sua viagem para o lado de lá do espelho. Mas a crônica anda meio sumida dos periódicos, nestes tempos de texto apressado. Porém, bravamente, resiste. Que o diga nosso cronista Airton Monte, batendo ponto cinco dias na semana neste Vida & Arte. Entre o apuro estético da literatura e a ligeireza do jornalismo, o gênero não apenas resiste, como dito acima. Faz-se cada vez mais independente do veículo que o gerou. E está, à disposição do leitor, nas vitrines das livrarias. A editora Leitura (www.editoraleitura.com.br) percebeu bem este nicho no mercado, e lançou a coleção Crônicas Ilustradas, já no quarto volume: Escritos na água, do dramaturgo Alcione Araújo; O chapéu do seu Aguiar, do escritor mineiro Carlos Herculano; Os últimos lírios no estojo de seda, de Marina Colasanti, e, abrindo a coleção, o ótimo Impurezas Amorosas, de Miguel Sanches Neto (ilustrado por Thaís Linhares).

Na apresentação do livro, o próprio autor faz, em um texto do tipo "como me tornei cronista", uma crônica deliciosa. Sanches Neto afirma o poder de fogo do gênero, que ele diz ser "parede-e-meia com a poesia, o conto, a crítica e o aforismo". Seu primeiro livro, lançado em 91, era de poesia, claro: Inscrições a giz. Quase uma década depois, ele estréia em romance, com o intimista Chove sobre minha infância. A partir de 2002, Miguel Sanches Neto deriva sua escrita para a crônica, que ele define como um "streap-tease" do autor. O cotidiano, o comum transfigurado pela palavra com sentido estético - a substância da crônica, que ele, em outro saboroso aforismo, diz ser "um feriado da notícia". E quem é que não precisa de um feriado, para renovar as energias físicas e espirituais do ramerrame diário? O bom da crônica é que o leitor pode ler da maneira que quiser. Abrindo ao acaso, indo e voltando, começando hoje, deixando outras para depois... Mas, quando a leitura nos pega pelos cabelos, deixa a gente sem fôlego. E querendo mais. É o caso deste.

Primeira peça de roupa largada na cena, para atiçar o olho voyeur do leitor. Em Fidelidade, a crônica de abertura, Sanches Neto conta a história de um casal, casado há um certo tempo - tempo bastante para amornar a paixão. E como o amor pode-se renovar com a chegada de uma estranha morena de 20 e poucos anos. Um vestido usado, um bocado de bronzeador, e pronto. Ingredientes para aquecer a emoção. Em A terra dos homens calvos, o autor faz um mergulho na história antiga, um povo estranho citado por Heródoto, os argipenses, que viviam "na condição privilegiada de pobres", e mantinham um profundo sentimento de amor e de respeito pela natureza. Tudo isso para falar do incrível artista plástico Franz Krajcberg.

A crônica Casa no litoral leva o leitor à intimidade do escritor, a casinha em Ponta Grossa, com sua biblioteca, jardim florido, quintal com rede - onde recebe os poucos amigos para rodadas de cerveja. O tema do cotidiano está presente em diversas outras, a exemplo de A outra jardinagem, na qual entramos outra vez na casa com quintal, e na garimpagem que o autor faz dos muitos livros que lhe chegam. Gente feliz fala de tomar banho de chuva, e da infância reencontrada nas brincadeiras com a filha. O tema da casa, da família, da vida doméstica, do ritmo cotidiano também permeiam os textos Prolongando a praia e Dupla devoção.

Nas crônicas em que ele traz de volta a infância, na pequena Peabiru, os biscoitos mais finos de Miguel Sanches Neto. Natal na roça é pra gente ver que o sertão está em toda parte. Lá no Sul, também o povo costumava ir à Missa do Galo levando, embrulhada, a roupa nova que não podia se sujar. O enigma da pedra-lispe vem para confirmar, não há distância entre Peabiru, Taperoá, para entrar em cena o mestre Ariano Suassuna e o cavalo de seu personagem Quaderna. Mas o mundo rural, para quem era menino nos idos de 60, era uma aldeia de olhos na tevê, como se vê em Viagens interplanetárias. A crônica que dá título ao livro, Impurezas amorosas, fala do fim da infância, entre congas, frieiras e o frenesi da primeira paixão.

Um bom bocado das crônicas tem, como mote inspirador, a literatura, em si. Uma das mais saborosamente cruéis é Gostam de poesia?, que trata de noitadas no bar e do importuno "náufrago solitário", o cara que vende poesia de mesa em mesa. Quadrilha recria, de modo ferino e anti-lírico, o poema homônimo de Drummond, enquanto Calendário traz um eco de Vinícius de Moraes e As beatitudes faz uma contemporânea apropriação do Sermão da Montanha. Nesta temática, destaca-se a deliciosa crônica A difícil ciência de catalogar.

Outro tema recorrente é o tempo, inexorável. A consciência do envelhecer. Que pode se dar ainda na tenra idade dos 38 para os 40 anos. O rosto que vai despencando (e os pelos inúteis que vão surgindo nos lugares mais inesperados). A política também inspira o cronista, que trata o tema com a perspicácia de um Eça ou um Machado do século 21. Um dos mais curiosos é o fabuloso - no sentido de fábula, mesmo - Tomando a palavra, no qual um velho cachorro vira-lata invade o plenário da câmara e faz um discurso em defesa dos animais abandonados. E saiba porque a água com gás pode ser o princípio da roubalheira de nobres deputados, em Cardápio corrupto. E, em Roubo de motos, o rolo da restituição do imposto de renda...

A transversalidade do gênero crônica faz com que algumas deste livro sejam contos, quase. A exemplo de Substantivo concreto. Ainda mais fortemente em Fundo do mar, uma linda, humaníssima história de amor. A casa das aves, e a velha solitária alimentando pássaros. E temos também o conto-piada, de Aos que me carregarem (sobre o sujeito que fazia test drive de caixão de defunto), e mais ainda A pequena arte, sobre o cara que não perdia bocas livres. O ridículo do personagem dá lugar, no final, à compaixão.


SERVIÇO
Impurezas Amorosas - crônicas de Miguel Sanches Neto. O livro, ilustrado por Thaís Linhares, faz parte da coleção Crônicas Ilustradas, da editora Leitura. 188 páginas, R$ 28.

 

 

 

 

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