CAIO Blat interpreta frei Tito de Alencar no filme Batismo de Sangue
CAIO Blat interpreta frei Tito de Alencar no filme Batismo de Sangue
CINEMA
Além da ficção
A história do cearense Frei Tito é o eixo principal do novo longa-metragem do cineasta mineiro Helvécio Ratton, intitulado Batismo de Sangue, baseado na obra homônima de Frei Betto. O filme será exibido pela primeira vez no Festival de Brasília, no próximo dia 25

Camila Vieira
da Redação

16/11/2006 02:05

Há quatro anos, o cineasta mineiro Helvécio Ratton ganhou do amigo Frei Betto o livro Batismo de Sangue, com a seguinte dedicatória: "A vida extrapola a ficção. Coragem!". Ao folhear as páginas do livro, Ratton mergulhou na história real de cinco frades dominicanos - Betto, Fernando, Ivo, Osvaldo e Tito - que enfrentaram a ditadura militar instaurada no Brasil a partir de 64. Aqueles acontecimentos soaram familiares ao cineasta. Ratton sofreu na pele a repressão dos anos de chumbo, quando militou em grupos guerrilheiros, chegando a ser exilado político no Chile. Foi durante o exílio que o cineasta teve dois encontros rápidos com o frade cearense Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, na década de 70. "Ainda era garoto quando entrei na luta armada. Sempre tive muita admiração por Tito e por seu comportamento firme", diz. Após 30 anos, o cineasta volta a se emocionar com a trajetória de luta de Frei Tito, relembrada por Frei Betto em Batismo de Sangue.

"O que mais me marcou na leitura foi a dor de Tito na prisão e seu sofrimento psíquico depois do exílio, que ele não conseguiu se livrar. É bastante doloroso pensar em alguém - que era alegre e com sentimento poético imenso - completamente destruído psiquicamente, sem conseguir se reencontrar", comenta Ratton. Com o apreço pessoal pelo livro, o cineasta decidiu adaptá-lo para longa-metragem, que será exibido no próximo dia 25 no Festival de Brasília e estréia nacionalmente em abril do próximo ano.

Escrito com colaboração da paulista Dani Patarra, o roteiro do filme passou por cerca de 10 revisões até chegar à versão final, cujo eixo principal é o drama vivido por Frei Tito, que foi preso em 69 e brutalmente torturado por três anos, junto com mais 12 frades dominicanos. Após ser banido do País e atormentado pelas recordações das torturas que sofreu, Tito enforcou-se aos 31 anos, no bosque do Convento de La Tourette em Lyon, onde viveu seus últimos anos. "Tito passou por um processo de destruição interna e de tamanha solidão, que chegou a escrever que já não acreditava mais nem em Cristo, Marx e Freud. Ele não via saída alguma", diz Ratton.

Para o cineasta, Frei Tito acabou antecipando um desencanto que acaba atingindo o jovem de hoje. "O sentimento do Tito foi premonitório e diz muito acerca da total descrença e perda das utopias do jovem contemporâneo", comenta Ratton. De acordo com o cineasta, dois elementos fazem de Batismo de Sangue um filme atual e que possa interessar o público jovem: o peso violento da tortura e a importância do engajamento político e social. "Se pensarmos na relação dos americanos com os iraquianos, ainda há tortura no mundo, como instrumento para arrancar informações. E após 30 anos, o engajamento dos jovens ainda é necessário, mas de outra forma", explica.

Foi o sonho por um Brasil melhor que uniu frades dominicanos aos guerrilheiros em uma só luta. "Além de ser uma visão de dentro da ditadura, o filme revela os sentimentos de compaixão e de fraternidade desses religiosos, que acabaram lutando contra a ditadura. Havia esse protagonismo coletivo, porque os cinco frades entraram juntos na militância". Entre a delicadeza do sonho e a realidade brutal, o filme pontua o envolvimento dos frades Betto, Fernando, Ivo, Osvaldo e Tito com o movimento Aliança Nacional Libertadora (ANL), liderado pelo guerrilheiro Carlos Marighella.

O ator Daniel de Oliveira interpreta Frei Betto. Para o papel de Frei Tito, Ratton chamou Caio Blat, que chegou a chorar no set, durante as seqüências de tortura. "O Blat passou por uma transformação física impressionante e acabou humanizando muito a figura do Tito. O filme traz intimidades do Tito, como cenas em que ele canta e toca violão". Para compor o personagem, Caio Blat visitou Fortaleza no ano passado, onde conversou com Nildes, a irmã de Tito, e pesquisou fotos e documentos no Memorial Frei Tito, no Museu do Ceará.

Helvécio Ratton revela que as cenas de tortura são retratadas de forma realista. "Como é a visão de alguém que viveu de dentro a ditadura, é preciso mostrar ao espectador que medo era esse. A tortura não é simplesmente ilustrativa. Ela é parte da estrutura dramática do filme. Trabalhamos com muito rigor nessas cenas, que irão impactar a platéia", enfatiza. Após o doloroso processo de recordação pessoal da ditadura com Batismo de Sangue, Ratton agora filma o longa-metragem Contos de Riso e Medo, voltado para o público infanto-juvenil. "Depois de Batismo de Sangue, decidi entrar num projeto menos duro. São quatro histórias dedicadas a crianças e adultos", adianta.


RECONSTITUIÇÃO NA TV

Frei Tito também é o personagem principal do Linha Direta - Justiça de hoje, que será exibido logo após A Grande Família. O programa da Rede Globo fez a reconstituição da história do frade cearense, interpretado por Guilherme Piva. Preso e barbaramente torturado pelo delegado Sérgio Fleury e outros miliatres, Frei Tito nunca conseguiu se recuperar dos traumas que viveu na prisão, mesmo depois de exilado. Solitário, deprimido e com perturbações psicológicas, ele se suicidou nos arredores de Lyon, na França, em 1974. Seu corpo só retornou ao Brasil em 1983, quando o País já vivia o processo de redemocratização. Somente há seis anos o governo brasileiro reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte de Frei Tito.

Caçula de uma família de 15 irmãos, Tito nasceu em 1945 em Fortaleza, mas se tornou frade dominicano em 1966, em Belo Horizonte. Mudou-se para São Paulo em 1968 e começou a estudar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). Ao longo de sua busca religiosa, Frei Tito envolveu-se com os movimentos de resistência ao regime militar. O frade foi um dos organizadores do famoso Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP), e foi membro da Juventude Estudantil Católica (JEC), grupo formado por frades dominicanos que pregavam a evangelização em consonância com o compromisso político e social.


SERVIÇO
Batismo de Sangue - Longa-metragem do cineasta mineiro Helvécio Ratton, baseado na obra homônima de Frei Betto. O filme será exibido no próximo dia 25, às 20h30, no Festival de Brasília. Estréia nacional em abril de 2007.
Linha Direta - Justiça - Reconstituição da história de Frei Tito, hoje, às 21h45, na Rede Globo.

 

 

 

 

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