Chico César questiona sobre o existência de uma esperança crítica quando o assunto é a política brasileira/FOTO DIVULGAÇÃO
Chico César questiona sobre o existência de uma esperança crítica quando o assunto é a política brasileira/FOTO DIVULGAÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
Um sujeito descolado
Neste trecho da entrevista, Chico César fala sobre família, a infância no sertão, faz um balanço da carreira e se diz criticamente esparançoso com o governo de Lula

10/11/2006 01:01

O POVO - Domingo passado, vi uma matéria sobre uma expulsão de sem-teto, no Centro de São Paulo. E vi, certa vez, uma outra reportagem sobre uma ocupação lá, e lá estava seu irmão. Foi até preso. Ele é sociólogo (se não me engano) e apesar disso - brincadeirinha! - engajado organicamente com as lutas do povo. Você também, que vem sempre cantar nos encontros das juventudes do MST. Conta pra gente esta experiência sua, inclusive com os jovens assentados do Ceará.
Chico César - Com os jovens do Ceará, acho que nunca tive nenhuma vivência assim mais intensa. Lembro só de uma vez que fomos cantar, eu e minha banda, numa cidade linda no litoral cearense (Icapuí). Mas aí era diferente, com a esquerda no poder, o orçamento participativo, festival da juventude, coisas assim. Muito legal. Experiências realmente novas na administração pública. Meu contato com o MST sempre foi em São Paulo mesmo, onde sempre fiz shows e cheguei até a gravar um videoclipe dirigido pelo Lírio Ferreira com a música Pensar Em Você, e também com o pessoal do Pará, onde a barra é muito pesada. O meu irmão, o Gegê, na verdade não é sociólogo não. É militante do movimento social desde o fim dos anos 60. Uma espécie de herói real pra mim. Ele que me ajudou a formar minha consciência. Por causa dele é que sou menos alienado do que poderia ser, atuando numa área cheia de glamour e mentira que é essa do entretenimento.

OP - Poesia. O diferencial da sua arte: as palavras. Camadas de sentidos, trocadilhos, referências. Penso, especificamente, nas composições Mulher, Eu Sei (nem só o Chico Buarque sabe falar no feminino!) e Respeitem meus cabelos, brancos - em que uma vírgula dá nova roupagem a este belo samba-canção. O que você lê? Com quem dialoga, poeticamente?
Chico César - Aprendi desde cedo o valor da palavra pro homem nordestino. O peso e a leveza que a palavra pode ter, e tem. Com os cantadores, com os improvisadores, com a retórica dos políticos e dos padres do interior, com o cordel. Depois vêm Zé Limeira, João Cabral de Mello Neto, José de Alencar e José Lins do Rego no trato com o elemento nativo, as letras de música de Odair José e Vinícius de Morais e o diabo a quatro. Caiu na minha mão, tô lendo. Na verdade, já li mais. Na estrada, a gente acaba ficando cansado e vendo televisão, mesa redonda de futebol, pastor protestante, essas coisas... O meu poeta preferido, que sempre volto a ler, é um brasiliense chamado Nicholas Behr.

OP - Antes do show, você faz tarde de autógrafos na Desafinado. Como será este encontro com os fãs?
Chico César - Será um prazer pra mim, pois estou apresentando meu disco De Uns Tempos Pra Cá, meu livro Cantáteis - Cantos Elegíacos de Amozade e meu primeiro DVD, o Cantos e Encontros De Uns Tempos Pra Cá. Levo meu carinho pra quem inclusive não vai poder ir ao show e nem vai comprar nada. O importante, o mais importante é manter acesa essa chama que se cria entre os artistas e seu público, que depois de um tempo vira seu parceiro.

OP - Que balanço você faz de sua carreira?
Chico César - Olha, quem diria, já são 11 anos de carreira fonográfica sem contar os outros de andanças mil, da procura por um lugar ao sol e de um sol dentro de um lugar que é só seu, que é a ânima criativa. Nesses 11 anos fiz seis discos de carreira: na ordem são Aos Vivos, Cuscuz Clã, Beleza Mano, Mama Mundi, Respeitem Meus Cabelos, Brancos e De Uns Tempos Pra Cá. Fiz ainda pro mercado espanhol um disco em parceria com o violonista Zezo Ribeiro chamado Brincadeira, dois discos infantis de nome Amídalas e Marias do Brasil e um disco só com duas músicas, de nome Compacto e Simples, além de produzir dois discos de outros artistas, a amazonense Eliana Printes e o espanhol Luis Pastor. Criei meu selo, a Chita Discos. Tenho sido gravado por um monte de gente no Brasil e no exterior onde faço três, quatro turnês por ano. Não ter perdido o juízo, já é uma grande conquista. Me sinto feliz e tenho a sensação de permanência, de um trabalho estético plantado num chão ético que precisa ser irrigado todo dia. O DVD acho que mostra isso.

OP - E suas parcerias mais recentes?
Chico César - Meu parceiro mais recente é o Quinteto da Paraíba, desde a gravação do disco até as viagens pelo Brasil e pelo mundo. Tem sido uma vivência muito rica. Eles interferem diretamente no meu som, mostram nuances que sem eles não apareceriam de jeito nenhum. E há os músicos, como Swami Jr., Chico Pinheiro, Chico Saraiva e o Márcio Arantes, cuja primeira parceria nossa já foi inclusive gravada agora por Maria Bethânia e se chama Grão de Mar.

OP - O que você pensa sobre o Brasil, e o segundo mandato de Lula?
Chico César - O Brasil é tão maior que sua política, e as mudanças vêm tão lentamente que nós nos angustiamos, nos desesperamos. Mas elas estão vindo. Tem um vento norte soprando. É preciso que não desperdicem uma vez mais o desejo de construir de fato um país mais justo agora, no presente, senão o passado volta e se instala disfarçado de futuro. Existe esperança crítica?


A re(e)volução de Chico César

Luciano Almeida Filho
da Redação

Diferente do que o público de Fortaleza verá amanhã no BNB Clube de Cultura, o paraibano Chico César aparece em seu primeiro DVD mais do que bem acompanhado. O mote foi dado pelo último CD, De uns tempos pra cá, lançado no início do ano, que trazia Chico acompanhado pelas cordas geniais do Quinteto da Paraíba.

Nascida da Orquestra Sinfônica da Paraíba, há tempos a formação vem promovendo uma fusão da música erudita de câmara, com o musicalidade modal nordestina arraigada historicamente na cultura popular, via influência do Movimento Armorial. E vem dando maior visibilidade a isso através de trabalhos com cantores, como foi o caso do baiano Xangai, ou em trilhas sonoras para cinema (Central do Brasil, inclusive). Com Chico César, esta parceria alcança um patamar de excelência.

O DVD Cantos e encontros de uns tempos pra cá (Biscoito Fino) é, prioritariamente, o registro do espetáculo que Chico César acompanhado do Quinteto da Paraíba e mais Simone Soul na 'percuteria' (misto do kit de percussão e bateria) e Simone Julian nas flautas, realizado no auditório do Ibirapuera. Ele ainda contou com participação de Elba Ramalho no espetáculo. Chico se revela no melhor de sua forma. Menos pop, mais contemporâneo e incrivelmente mais nordestino.

Além das músicas do último CD, ouvir os arranjos do Quinteto da Paraíba para músicas mais antigas do repertório de Chico César é comprovar a evolução que esta parceria promoveu.

O próprio Chico se revela um melhor instrumentista. Além do show, o DVD traz como bônus (que Chico chama de 'com pacto') com as presenças de Ana Carolina, Maria Bethânia, Chico Pinheiro e Vange Milliet. E ainda traz um documentário sobre a preparação do espetáculo.


SERVIÇO
Cantos e encontros de uns tempos pra cá - Primeiro DVD do cantor e compositor paraibano Chico César. Participações: Quinteto da Paraíba, Elba Ramalho, Ana Carolina, Maria Bethânia, Chico Pinheiro e Vange Milliet. Produção: Swami Jr. e Chico César. Lançamento Chita Discos/ Biscoito Fino. 18 faixas (+extras). Preço: R$ 46,00.

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