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SHOW
Beiradeiro do planeta
O artista paraibano Chico César faz o show de aniversário do BNB Clube, amanhã à noite. Só voz e violão, relembrando composições e algumas do disco novo, De uns tempos pra cá. À tarde, autografa o novo CD, DVD e o primeiro livro, Cantáteis - Cantos Elegíacos de Amozade
Eleuda de Carvalho
da Redação
10/11/2006 01:01
De Catolé do Rocha para o mundo. Ou o contrário, porque tudo é relativo, como já dizia o Einstein. O caçula da família Gonçalves acostumou o ouvido à cantoria de viola e ao som eletrônico do Kraftwerk, sem sair do lugar - a cidadezinha do sertão da Paraíba onde nasceu, num fim de tarde de janeiro, em 1964. Quando inteirou 16 anos, Chico César pegou a malinha e foi pra capital. Em João Pessoa, além de estudar jornalismo, embebeu-se de poesia e novas possibilidades estéticas, experimentais (e o que mais desse na telha parabólica dos manos Paulo Ró e Pedro Osmar, do grupo Jaguaribe Carne - que continua sangrando, muito vivo, é bom dizer).
Que o diga, de outro modo, o próprio Chico César, neste texto assim sem maiúsculas e com vírgulas a menos, tal está no seu site oficial: “de onde venho há silêncio. pra preencher esse tipo de abismo os homens abóiam e as mulheres cantam benditos. às vezes é o contrário. por artes de diversão os adultos também atracam-se em noites de forró ou podem passar horas em torno de dois violeiros a fazer repentes. e as crianças brincam de roda, caí-no-poço, anel. mas também pode ser tudo misturado, gente grande e pequena sem diferença. e todos vêem televisão: jogo de bola, novela, programa de calouro. e ouvem rádio, em alto volume”. Com tudo isso e mais um pouco, o rapaz sem parentes importantes e vindo do interior pegou o rumo de São Paulo, aos 20 e poucos anos. Foi uma década de trabalho nas redações, que a música não garantia o pão e a cerveja. Então, em 91, Chico César cruzou o oceano pela primeira vez, para uma série de apresentações na Alemanha. Na volta, decidiu: ia mesmo viver de sua arte.
Pequenininho, cabelo pixaim arrumado no cocoruto, aberto em leque, um piercing no nariz, as roupas vistosas, meio parangolés. E aquela voz que Deus lhe deu, talvez um pouquinho parecida com a do Caetano, mas trazendo novidades no embornal - emboladas psicodélicas, aboios elétricos, tecno-xaxados: Chico César é um artista regional e universal, sem contradição nem paradoxo. O primeiro disco, Aos Vivos (com as lapadas Mulher eu sei, Mama África, Béradêro, Templo e Benazir, entre outras - todas tocando em tudo que era rádio), rendeu ao artista o prêmio Sharp Revelação, em 95. E tome gente boa gravando suas músicas, de letras fortes, marcantes, cheias de terceiras intenções. Pra citar alguns, a conterrânea Elba Ramalho, Daniela Mercury, Zeca Baleiro, Emílio Santiago, Gal Costa, Ivan Lins e Maria Bethânia - que caiu de amores por uma parceria de Chico César com uma até então desconhecida moça do Mato Grosso do Sul, a bonita Vanessa da Matta.
Na sequência, discos que não pararam nas prateleiras, o Cuscuz Clã (com regravações de Mama África e Benazir, mais Pedra de Responsa, À primeira vista, Anjo da vanguarda...); Beleza Mano - no qual se ouve a lírica Onde estará o meu amor, mais o forrozinho saboroso de Sanfoninha e esta elegia quase, Paraíba meu amor; Mama múndi - em que ele gravou Pensar em você, A força que nunca seca (em parceria com Vanessa da Mata) e Sou rebelde; Respeitem meus cabelos, brancos (de Sem ganzá não é coco, Pétala por pétala, Templo, Flor do mandacaru). O novo CD, De uns tempos pra cá, junta a pegada da banda Cuscuz Clã com o erudito Quinteto da Paraíba, com quem Chico César vem rodando o Brasil e a Europa. Ainda não é desta vez que teremos este show. Chico César faz um apanhado dos seus 15 anos de carreira num espetáculo intimista, voz e violão, apenas, em apresentação única neste sábado, no BNB Clube. Na abertura, o som do quarteto Marimbanda - Luizinho Duarte, Heriberto Porto, Miquéias dos Santos e Ítalo Almeida, com seu repertório de baiões, frevos, choros, jazz e bossa nova.
À tarde, Chico César vai estar na Desafinado do shopping Del Paseo autografando o CD novo, o primeiro DVD (Cantos e Encontros De Uns Tempos Pra Cá), e sua estréia em livro - Cantáteis - Cantos Elegíacos de Amozade. Antes de chegar à cidade, Chico César contou, por e-mail, um pouco de sua trajetória, falou sobre os artistas cearenses que ele, sempre que pode, volta a ouvir (Abidoral Jamacaru e Tiago Araripe, ambos do Crato, além do parceiro Ednardo), e comenta sobre o Brasil sob o segundo mandato de Lula. Com crítica esperança.
O POVO - O que você traz para este show de amanhã?
Chico César - Pena que ainda não é o show De Uns Tempos Pra Cá (que já apresentei em algumas capitais do país e também na Argentina e Portugal) e vem do disco novo com o Quinteto da Paraíba e também dá nome ao meu primeiro DVD. Mas é pra gente matar a saudade recíproca, apresentar algumas canções novas e relembrar outras tantas que a gente nunca se cansa de cantar.
OP - O show de abertura será da Marimbanda, um quarteto instrumental cearense bom pra danar. Como é seu diálogo com os músicos de Fortaleza? O que é que você escuta daqui? De alguma maneira, a música do Pessoal do Ceará fez/faz parte de sua vida?
Chico César - Infelizmente não é muito o que tenho escutado dessa cena musical sempre tão rica que o Ceará sempre teve. Sempre que visito o estado, o jornalista Flávio Paiva me dá uma penca de coisas novas e coisas antigas. Dos antigos eternos sempre que posso volto a ouvir Abidoral Jamacaru e meu parceiro Ednardo. Dia desses, me peguei ouvindo Belchior, um dos mais instigantes letristas da música brasileira. Dos mais novos, chegam pra gente, que mora em São Paulo, outras histórias como Karine Alexandrino e Cidadão Instigado, um lance diferente e divertido. Tem um disco lindo chamado Cabelos de Sansão, do Tiago Araripe, que já ouvi muito com Zeca Baleiro. Pena que não tenho CD disso, nem sei se saiu, e não posso mais ouvir. Esse disco é uma pedrada, antecipou muita coisa que nós e outros nordestinos faríamos depois. Grande Tiago...
OP - De volta ao começo... Lá em Catolé do Rocha, o que você, menino, escutava? Embora você tenha sua linguagem, única e própria, percebemos o apreço pela cultura musical do povo, em particular, a maestria dos cantadores de viola. E a Paraíba é o celeiro dos maiores poetas repentistas do Brasil.
Chico César - A cultura viva do Brasil nos oferece muita coisa mesmo, todo um imaginário e um imenso rigor estético. Escutei de vaqueiro aboiando pra cinco, seis vacas, até o grupo alemão Kraftwerk lá em Catolé do Rocha. Ambos demoraram muito a chegar no eixo Rio-São Paulo, o aboio e o lance eletrônico europeu. Então o pessoal ficou um pouco abobalhado quando viu e aí virou um pouco esse negócio de culto. Já existiam, já estava tudo aí. Como diz Paulinho da Viola, “as coisas estão no mundo, eu só preciso aprender”. É o que eu vivo tentando: aprender, me desprendendo ao mesmo tempo pra não ficar paralisado. Não poderia ser diferente minha relação com a cultura, pois meu pai dançava reisado junto com os irmãos dele e eu trabalhei dos cinco aos 8 anos de idade numa loja de discos que vendia de tudo, de Noca do Acordeon a Rick Wakeman.
SERVIÇO
Chico César - Show de voz e violão. Abertura com o quarteto Marimbanda. Neste sábado, a partir das 21h, no BNB Clube (av. Santos Dumont, 3646 - Aldeota). Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia e sócios). Mesas: R$ 80,00 (sócios) e R$ 120,00 (não sócios). Informações: 4006.7200 e 4006.7203.
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