CATAVENTO Toré, de Nhô Caboclo, de 1910. Na página anterior, destalhe do Vaso de Cariátides, proveniente de Santarém (PA) (Foto: Reprodução/Mostra do descobrimento)
CATAVENTO Toré, de Nhô Caboclo, de 1910. Na página anterior, destalhe do Vaso de Cariátides, proveniente de Santarém (PA) (Foto: Reprodução/Mostra do descobrimento)
CULTURA DIGITAL
Diálogos interculturais
O advento de tecnologias cada vez mais sofisticadas e a apropriação desses meios pela sociedade permitiu a interlocução e criação de novas de linguagens, além da individualização do consumo cultural. Esses são alguns reflexos da era da cultura digital

04/11/2006 16:27

Falar sobre cultura na contemporaneidade significa imergir num mar de pretensas dicotomias. "Pretensas" porque, apesar de antônimos, os termos do debate atual não conseguem se opor da mesma forma como acontecia até bem pouco tempo atrás com a cultura baixa e a cultura alta - a velha dualidade entre as chamadas culturas popular e erudita. A noção de hibridismo cultural ajudou esse dilema a ser superado, conferindo permeabilidade a esses conceitos e possibilitando um diálogo entre eles.

As novas "dicotomias" tratam de noções como o global e o local, o massivo e o individual, mas nunca as colocando em verdadeira oposição. Na verdade, elas se reúnem para criar novos conceitos, construídos na medida necessária para explicar o fenômeno da cultura nos dias atuais, profundamente impactado pelo desenvolvimento das novas tecnologias.

É essa revolução digital, baseada na convergência das mídias e na propulsão da cibercultura, que faz as idéias de Maria Lucia Santaella Braga fervilharem. À luz da semiótica, a professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) tomou como objetos de investigação a comunicação e a cultura. Ela é doutora em Teoria Literária pela PUCSP, além de livre-docente em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), e se dedica há mais de 30 anos a esses temas, tendo investido, mais recentemente, na influência das novas mídias nos processos culturais.

Em entrevista por e-mail ao Vida & Arte Cultura, a professora mostra que, ao invés de homogeneizar, o processo de globalização nos torna cada vez mais atentos às diferenças. "Em suma, cada vez mais se torna evidente que o processo de globalização está longe de produzir a uniformidade cultural", diz ela. O pensamento de Santaella se justifica com o conceito de "glocalismo" - uma junção das palavras globalização e localismo -, que explica a preocupação crescente do global em ajustar-se às demandas locais.

Ao invés de se apoiar na cultura de massas para justificar a formação de uma "aldeia global", a professora prefere explicar o fenômeno a partir da existência de uma cultura das mídias. "Essas tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem neles têm como principal característica propiciar a escolha e consumo individualizados, em oposição ao consumo massivo", afirma. Essa escolha de informações e produtos diversos, fragmentados e recortados ao gosto do consumidor, é um dos fatores que vêm transformando a relação da cultura com o indivíduo. Na entrevista, Lucia Santaella se debruça sobre essas e outras questões para esboçar, em poucas palavras um quadro do complexo momento vivenciado hoje pela cultura.(Amanda Queirós)


O POVO - Como é possível explicar a cultura na contemporaneidade?
Maria Lucia Santaella Braga - O conceito de cultura é muito complexo e, por isso, difícil de definir em poucas palavras. Para se ter uma idéia, em 1952, os antropólogos A. L. Kroeber e Clyde Kluckhohn puseram em discussão nada menos do que 164 definições de cultura. Em meio a essa diversidade de definições, há um certo consenso sobre o fato de que a cultura é aprendida, que ela permite a adaptação humana ao seu ambiente natural, que ela é grandemente variável e que se manifesta em instituições, padrões de pensamento e objetos materiais. Para se falar de cultura na contemporaneidade, é preciso levar em consideração que os fenômenos e processos culturais estão ocupando um espaço cada vez maior nas sociedades globalizadas. Nesta era de industrialização da cultura, a produção de bens simbólicos, como livros, jornais, revistas, filmes, vídeos, games etc, ultrapassa a produção e o consumo de bens materiais, especialmente porque todo consumo passa pela publicidade e esta coopera sobremaneira para inflar a dimensão da cultura. Um conceito hoje bastante disseminado para caracterizar a dinâmica cultural contemporânea - que não se solidifica em estruturas hierárquicas e estáveis, mas, ao contrário, flui e se desloca ao longo de rotas impossíveis de se prever de antemão - é o conceito de "culturas híbridas", tal como foi formulado pelo mexicano Nestor Garcia Canclini, no seu livro sob esse título.

OP - Que manifestações da cultura brasileira vêm respondendo melhor a essa definição?
Santaella - Esse conceito de hibridismo cultural nasceu justamente no contexto latino-americano. Embora seja um conceito capaz de se aplicar a quaisquer sociedades, a heterogeneidade, diversidade e as agudas diferenças sócio-econômicas e também culturais que caracterizam as sociedades latino-americanas dão a esta região do planeta uma aptidão maior para a circulação fluida e as articulações complexas dos níveis, gêneros e formas de cultura, para os deslocamentos e contradições, para os desenhos móveis da heterogeneidade pluritemporal e espacial que caracteriza as culturas pós-modernas, culturas fronteiriças, fluidas, desterritorializadas. Aspecto importante para se compreender o caldeamento denso e híbrido da cultura é o da simultaneidade de todas as formações culturais do passado sincronizando-se com as do presente. Para pensar essa sincronização, tenho utilizado uma divisão das formações culturais em seis grandes eras: a cultura oral, a escrita, a impressa, a massiva, a das mídias e a cibercultura. Embora essas formações culturais tenham surgido cronologicamente, uma depois da outra, a emergência de uma nova formação não leva ao desaparecimento da anterior. Todas as seis eras culturais, acima mencionadas, coexistem, convivem simultaneamente na nossa contemporaneidade, pois, na cultura, há sempre um processo cumulativo de complexificação, de modo que uma nova formação cultural vai se integrando na anterior, provocando nela reajustamentos e refuncionalizações.

OP - Qual a diferença entre a globalização cultural provocada pelos meios de comunicação de massa (a aldeia global defendida por Marshall McLuhan) e a globalização cultural provocada pelas novas tecnologias? Como o indivíduo lida com essas duas formas de globalização?
Santaella - Desde a publicação da primeira edição de meu livro Cultura das mídias, em 1992, tenho defendido a idéia de que a cultura digital ou cibercultura atualmente vigente não nasceu diretamente da cultura de massas, mas passou por uma fase intermediária que chamo de cultura das mídias. Esta não se confunde com a cultura de massas, de um lado, nem com a cultura digital ou cibercultura de outro. É, isto sim, uma cultura intermediária, situada entre ambas. Quer dizer, a cultura digital foi sendo semeada por processos de produção, distribuição e consumo comunicacionais que são distintos da lógica massiva e que começaram a se impor por volta do início dos anos 80, quando foram se intensificando cada vez mais os casamentos e misturas entre linguagens e meios, misturas essas que funcionam como um multiplicador de mídias. Estas produzem mensagens híbridas como se pode encontrar, por exemplo, nos suplementos literários ou culturais especializados de jornais e revistas, nas revistas de cultura, no rádio-jornal, telejornal etc. Ao mesmo tempo, novas sementes começaram a brotar no campo das mídias com o surgimento de equipamentos e dispositivos que possibilitaram o aparecimento de uma cultura do disponível e do transitório: fotocopiadoras, videocassetes e aparelhos para gravação de vídeos, equipamentos do tipo walkman e walktalk, acompanhados de uma remarcável indústria de videoclips e videogames, juntamente com a expansiva indústria de filmes em vídeo para serem alugados nas vídeolocadoras, tudo isso culminando no surgimento da TV a cabo. Essas tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem neles têm como principal característica propiciar a escolha e consumo individualizados, em oposição ao consumo massivo. São esses processos comunicativos que considero como constitutivos de uma cultura das mídias. Foram eles que nos arrancaram da inércia da recepção de mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento que desejamos encontrar. Por isso mesmo, foram esses meios e os processos de recepção que eles engendram que prepararam a sensibilidade dos usuários para a chegada dos meios digitais e da cultura ciberespacial cuja marca principal está na busca dispersa, alinear, fragmentada, mas certamente uma busca individualizada da mensagem e da informação.

OP - Ao mesmo tempo em que a cultura se apresenta cada vez mais global, percebe-se um movimento de retorno ao local. Há uma leva de filmes, programas de TV e livros que se dedicam a questões regionais, como numa constante busca por identidades. Como a senhora analisa esse processo?
Santaella - Conforme foi muito bem trabalhado por M. Featherstone em vários dos seus livros, a tendência, no plano global, não é a de integração e homogeneização cultural - por exemplo, como aparece nas noções de capitalismo multinacional, americanização, imperialismo da mídia e cultura de consumo que partem do princípio de que as diferenças locais estão sendo suprimidas por forças universalistas. Embora haja, de fato, intensos fluxos internacionais de dinheiro, bens, pessoas, imagens e informação que têm dado origem a "terceiras culturas" transnacionais e mediadoras entre as várias culturas nacionais, uma cultura global não aponta para a homogeneidade ou para uma cultura comum. Embora, de fato, os Estados Unidos ainda dominem a cultura e as indústrias da informação, existe um senso cada vez maior da multipolaridade e da emergência de centros competitivos, de modo que cabe muito mais o termo "glocalismo" para se referir a uma estratégia global que não procura impor o seu produto ou imagem padronizados, mas que, ao invés, se ajusta às demandas do mercado local. Em suma, cada vez mais se torna evidente que o processo de globalização está longe de produzir a uniformidade cultural. Conforme é muito bem lembrado por Featherstone, ele nos torna, isto sim, conscientes de novos níveis de diversidade.

OP - Atualmente, fala-se muito sobre a convergência digital. Por meio dela, a informação é destrinchada em vários pedaços e distribuída em diferentes plataformas. Como esse fenômeno interfere na arte e na cultura? A senhora poderia citar exemplos disso?
Santaella - Hoje, o novo senso comum é o processo digital. Via digitalização, todas as fontes de informação, incluindo fenômenos materiais e processos naturais, incluindo as nossas simulações sensoriais, como ocorre, por exemplo, nos sistemas de realidade virtual, estão homogeneizados em cadeias seqüenciais de 0 e 1, chamados de bits. Antes da digitalização, os suportes eram incompatíveis: papel para o texto, película química para a fotografia ou filme, fita magnética para o som ou vídeo. Atualmente, a transmissão da informação digital é independente do meio de transporte (fio do telefone, onda de rádio, satélite de televisão, cabo). Sua qualidade permanece perfeita, diferentemente do sinal analógico que se degrada mais facilmente; além disso, sua estocagem é menos onerorosa. Por isso mesmo, um dos aspectos mais significativos da evolução digital foi o rápido desenvolvimento da hipermídia que produziu a convergência de vários campos midiáticos tradicionais. Foram assim fundidas, em um único setor do todo digital, as quatro formas principais da comunicação humana: o documento escrito (imprensa, magazine, livro); o áudio-visual (televisão, vídeo, cinema), as telecomunicações (telefone, satélites, cabo) e a informática (computadores e programas informáticos). É esse processo que tem sido referido pela expressão "convergência das mídias".

OP - A cultura brasileira está conseguindo potencializar a sua atuação a partir da convergência? De que forma?
Santaella - Para responder essa questão há que se levar em conta que o poder da cultura de massas no Brasil continua gigantesco. Mas ao mesmo tempo, a explosão da cultura digital também está sendo significativa aqui. Basta olhar as estatísticas do uso da internet na última década e prestar atenção no fenômeno brasileiro do Orkut. Mas evidentemente, não há termos de comparação entre a penetração da cultura de massas e da cibercultura, visto que esta traz consigo, em nosso país, a problemática da exclusão digital, uma problemática muito complexa que vem sendo tratada, a meu ver, de maneira superficial. Mas esse é um assunto que nos levaria longe demais. Quanto ao gigantismo da cultura de massas, este é devido ao fato de que, no Brasil, saltamos direto da cultura oral para a cultura de massas. Nunca houve neste país a sedimentação de uma cultura letrada. Não passamos pela era de Gutenberg. Apesar da explosão desmedida de cursos universitários nos últimos anos, continuamos a ser um país que não lê. O trânsito das letras pelas universidades se faz muito mais através de xerox do que de livros. Há muitos alunos que saem da universidade sem ter lido um único livro inteiro. Por isso mesmo, a cultura de massas é poderosa. Continua tendo poucos competidores nas outras formas de cultura.

OP - A implantação da TV digital no Brasil vai ampliar a interlocução entre as manifestações culturais do País?
Santaella - A TV digital só cumprirá seu verdadeiro destino se ela se unir à cibercultura que é uma cultura interativa. Esta depende da ação do receptor na busca da informação que deseja. Portanto, uma busca que pressupõe que o receptor tenha noção da informação de que precisa, o que, por sua vez, pressupõe que tenha passado por um processo educacional bem fundamentado, exatamente o que nos falta neste país. Além disso, a interação no mundo digital pressupõe uma alfabetização semiótica, pois as linguagens da máquina são linguagens hipermídias, que envolvem som, imagens, vídeos, sinais, gráficos, enfim, uma mistura de signos. O que se pode dizer em relação a isso, em um país que ainda não conseguiu sequer alfabetizar sua população no mundo das letras?

OP - Diante desse quadro, dá para antever em que patamar a cultura vai estar daqui a alguns anos?
Santaella - Devemos ser prudentes com as profecias, especialmente em um mundo cuja transformação acelera-se cada vez mais. O que posso dizer, entretanto, é que espero que a tendência que se anuncia firmemente agora continue no futuro. Trata-se da confraternização geral de todas as formas de comunicação e de cultura, em um verdadeiro caldeirão imenso de misturas: a comunicação oral na fala humana que se dá na presença do outro, a escrita, no design, por exemplo, a cultura de massas que também tem seus pontos positivos, a cultura das mídias, que é uma cultura do disponível e a cibercultura que é a cultura do acesso. Quanto mais formas de comunicação tivermos a nossa disposição, mais ricos nos tornamos sensorial, mental e socialmente.



LEIA MAIS

MUNDIALIZAÇÃO E CULTURA
de Renato Ortiz

Nesta obra, o sociólogo supera o conceito de globalização para falar de mundialização. Para ele, esse é o fenômeno pelo qual a cultura vem passando nas últimas décadas, que nos faz sentir-nos, cada um, "cidadãos do mundo". Segundo ele, essa reflexão é que possibilita aos indivíduos de diferentes cantos do mundo partilharem hábitos e gostos idênticos.
Editora Brasiliense, 236 pg., R$ 39,80

CULTURAS E ARTES DO PÓS-HUMANO
de Lucia Santaella

No livro, a professora desenvolve a idéia de que a "cultura das mídias" - um processo intermediário entre a cultura de massa e a cultura digital - propiciou o desenvolvimento da cibercultura. Em sua reflexão, ela aponta as transformações nas relações entre humano e máquina na tentativa de esclarecer os significados de cultura e comunicação no século XXI.
Editora Paulus, 360 pg., R$ 41

O QUE É HISTÓRIA CULTURAL?
de Peter Burke

Ao responder a pergunta-título do livro, o professor inglês apresenta a transformação do olhar histórico sobre o cotidiano de cada indivíduo, a partir da década de 70, focando nos variados aspectos do comportamento humano. Isso possibilitou que diversas manifestações, como os hábitos e costumes do dia-a-dia de uma comunidade, fossem redescobertos sob o viés cultural.
Editora Jorge Zahar, 192 pg., R$ 28,50

CULTURAS HÍBRIDAS
de Nestor Garcia Canclini

Apesar de escrito em 1990, a obra do pensador mexicano já é considerada um dos manuscritos clássicos sobre as transformações vivenciadas nas últimas décadas pela cultura. A partir das manifestações culturais latino-americanas, Canclini reflete sobre o hibridismo cultural. O fenômeno explica como a cultura está cada vez mais baseada na mescla entre elementos tradicionais e a modernidade.
Editora Edusp, 426 pg., R$ 62

CULTURA
de Raymond Williams

As questões sobre a sociologia da cultura são o principal foco dessa obra do marxista inglês. A reflexão de Williams vai das instituições culturais aos processos de organização e reprodução da cultura, passando pelos meios de produção culturais. O princípio da convergência de abordagens norteia o autor.
Editora Paz e Terra, 240 pg., R$ 35


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