
MANOEL Ricardo de Lima: o poema como resistência e experiência injustificável/FOTO DIVULGAÇÃO
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PALESTRA/CURSO
Literatura de risco
O escritor e professor Manoel Ricardo de Lima faz palestra hoje e ministra curso - de 19 a 23 de outubro - no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. A palestra tem por tema Poema e Catástrofe, e o curso abordará a idéia de Movimento e Peso do Texto. Os eventos fazem parte da programação elaborada pelo Núcleo de Literatura do Dragão do Mar
Eleuda de Carvalho
da Redação
17/10/2006 23:28
O poema: linguagem. Em tensão e corte, na pele do cotidiano. Além da palavra, o gesto. O risco. A nódoa e o nó. Densidade e leveza. Para inquietar, articular outras possibilidades de sentidos. Aguçados. Para começo de conversa, a conversa - palestra. Hoje: no auditório do Dragão do Mar. À mesa, repartindo o banquete, Manoel Ricardo de Lima. Mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC), cursa o doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina, onde também é professor. Publicou os livros Embrulho, Falas Inacabadas (com a artista visual Elida Tessler), As mãos, e o ensaio Entre Percurso e Vanguarda - alguma poesia de Paulo Leminski, além de fazer parte do conselho editorial das revistas de poesia Inimigo Rumor e Ficções. Também escreve para outras publicações e é articulista do O POVO.
"A vinda do Manoel Ricardo, com seu curso Movimento e Peso do Texto e sua fala na noite desta quarta, Poesia e Catástrofe, está dentro de um projeto maior desenvolvido aqui pelo Núcleo de Literatura do Dragão do Mar, chamado Literatura Contemporânea e seus Entornos. Um projeto que vem sendo desenvolvido desde meados de 2005 e que é uma tentativa de colocar a cidade dentro das discussões a respeito da literatura produzida hoje e, como o próprio nome já diz, tentar pensar essa produção em diálogo com outras linguagens, com uma densidade de pesquisa, com um aparato crítico que é extremamente importante para que a cidade crie suas próprias reflexões, que possamos formar novos interlocutores, novos rumos de pensamento", explica Carlos Augusto Lima, coordenador do núcleo.
Participaram desses encontros nomes que destronam os cânones e implodem a obviedade. Tais como: Carlito Azevedo, Marcelino Freire, Adolfo Montejo Navas, Ricardo Corona, Heitor Ferraz Mello, Verônica Stigger... "Cada um desses autores e pesquisadores puderam ministrar oficinas, cursos e, principalmente, trocar experiências com um público jovem formado por estudantes, artistas plásticos, novos autores e pessoas que desenvolvem pesquisas entre-linguagens. Essa talvez seja a programação mais extensiva, fora do eixo Rio-São Paulo, a respeito dessas discussões dentro do país. A questão é mesmo esta: colocar Fortaleza como uma referência, um ponto de partida para novas idéias", pontua Carlos.
Por e-mail, Manoel Ricardo contou sobre o rumo da prosa. Poesia. Sobre o poema, a desinvenção dele, sua demolição, o poeta escreveu: "Uma idéia de desmonte não seria estrutural, de forma, nem muito menos de conteúdo. Mas a minha questão é mesmo uma outra, porque 'desmontar' implica outra filologia, e ainda não pensei sobre isso. Mas a minha questão, para pontuar a crise, é tentar montar outro jogo, outra fronteira e, principalmente, outro limite ao poema (e quando falo poema procuro desfazer uma idéia de palavra, ou de palavra escrita na página, por exemplo, mas penso o poema como um ato de origem, radical e tenso da linguagem e com a linguagem). E isto, creio, é uma questão da política. Pensar o poema como aquilo além-aquém método, e não como um lugar canônico, não como uma sociologia simplista, nem muito menos como filiação, mas como aquilo que é alteração e perturbação à história. Uma espécie de experiência injustificável, ainda, do dizer. Uma resistência. O que fica, ficaria como se uma falha".
E qual seria, então, o lugar da palavra? O poema - vestígio e palimpsesto? Diz Manoel Ricardo: "Penso assim, que há no Brasil - e muito aqui no Ceará, porque a perspectiva de um olhar para a cultura ainda é paroquial, mandatária, cínica e dessa mesma forma um privilégio expandido a todo país, quase sem exceção - uma generalização monstruosa ao se afirmar coisas numa busca rígida de arbitrariedades identitárias, ou de períodos e de marcas de tempo, ou de questões de geração e de construção de filiações, depois pares, colunas e protocolos etc; e que esta generalização termina por desprezar algo legal que seria alguma noção de distância, deserto, vazio, buraco, fenda, abismo etc. Isto é principalmente o medo modernista de enfrentar a fenda. Daí, penso que uma linha tensa (e não um lugar) seria criar uma disposição para rever a própria idéia de lugar, e sair do que seria lugar conformado, esta alocação, para tomar a coragem de enfrentar o buraco, a falha. E por isso, não posso deixar de falar do trabalho de Carlos Augusto Lima a frente do Núcleo de Literatura do CDMAC, também como uma linha tensa, e talvez a única por aqui".
Manoel Ricardo traz em seu alforje umas tantas inquietações muito próprias e também umas sacadas de Italo Calvino (em especial, no livro Seis Propostas para o Próximo Milênio), e algumas contribuições do filósofo Walter Benjamin. Mas tem mais. Perguntei: quem mais você convoca para refletir sobre linguagem? "De quem possa me valer. E acho que esta fala de hoje e este curso (que começa amanhã) no CDMAC estão na temperatura dessas coisas. Tenho lido muito Joaquim Cardozo e Ruy Belo por causa da minha escritura da tese. Mas esta leitura já é método. E faço um esforço muito grande, Eleuda, para conviver com aquilo que eu não sei, com aquilo que possa desafiar qualquer idéia minha de saber. Aí, tanto faz se estou lendo Paolo Virno ou Jean Luc Nancy, ou se ainda estou tentando incorporar a dobradura violenta e desesperada do pensamento de Benjamin, ou se me esforço para esticar até Bataille, Derrida, Deleuze o que for, ou se mais perto releio um poema na radicalidade do pensamento de Camões como desconcerto e terremoto ou se me desequilibro com as peças de Richard Serra e mais perto ainda com o trabalho de Eduardo Frota. Tudo isso me interessa. E esta minha vinda pra cá, se pudesse resumir, seria isso: tocar (no sentido do tátil) a linguagem como intensidade, tocar a linguagem como um contra a fórmula da experiência repetitiva".
E o leitor, aonde se assenta neste banquete de signos? "Qual leitor ? Nesta hora penso num trechinho maravilhoso de uma crítica portuguesa que gosto muito, Silvina Rodrigues Lopes. Ela diz, falando desta herança modernista da percepção da arte como uma interpelação do outro, que ver é sempre já 'ver como', ou seja, é sempre já impor formas. Mas, ao olharmos o objeto de arte, este 'como' vacila e alude a um excesso da forma, a sua consumação, a sua cinza. Penso que o leitor seja este ente vacilante, este legente que erra. E aí podemos seguir Beckett: Nunca ter tentado. Não importa.Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor. Para sua pergunta: o leitor se moveria para falhar melhor. Não mais e não menos que isso".
SERVIÇO
Poema e Catástrofe - palestra com o escritor e professor Manoel Ricardo de Lima. Hoje, às 19h, no auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura .
Movimento e Peso do Texto - Curso de literatura com Manoel Ricardo de Lima. O curso acontece nos dias 19, 20, 21 e 23, na sala de aula do Dragão. Horário: 18h30 às 21h30. No dia 21, será de 10h ao meio-dia. Informações: 3488.8600 ou na internet - www.dragaodomarorg.br
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