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ARTES PLÁSTICAS

Quando o tempo desacelera

A coletiva Temporalidade reúne obras de oito artistas - cearenses, paulistas e alemães - que procuram pensar a desaceleração na contemporaneidade. A abertura da exposição acontece hoje, às 20h30, na galeria Vicente Leite


21 Set 2006 - 00h33min

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MARIA Vilares, artista plástica paulista: fios de seda para compor Nexus/FOTO EDMAR SOARES
No saguão de entrada da galeria Vicente Leite, quem visitar hoje à noite a abertura da exposição Temporalidade será convidado a percorrer um longo tapete de seda branca. Ao centro do tecido, o visitante pode usar os pés para estourar vários balões vermelhos inflados de água. O happening - performance artística com a participação do público - da artista plástica Bia Cordovil exercita um diálogo com a desaceleração proposta pela coletiva. A mostra também inclui o trabalho de mais oito artistas envolvidos com o projeto Câmera Lenta, que, desde a semana passada, ocupa galerias e museus espalhados pela cidade, em diálogo com artistas cearenses, paulistas e alemães. "Desacelerar é entrar em contato com elementos da natureza, como a seda do tapete, o látex do balão, a água. Há a metáfora do limpar o coração, no momento em que há interação com os balões vermelhos. A obra é viva, porque incorpora essas transformações que o espectador faz", explica Cordovil.

A delicadeza do suporte e o caráter íntimo da obra de arte também inspiram os objetos da paulista Maria Vilares, que parte dos fios e das teias para compor sua série intitulada Nexus. "Com fios transparentes de PVC e polietileno, vou criando tramas. Comecei a observar as teias de aranha na natureza e vi que o processo de entrelaçamento de fios é lento e delicado", diz Vilares, que pesquisa o tema desde 2001, com tricôs, crochês e agulhas grossas. Pequenas redes penduradas na parede com encaixes de chumbo e três gravuras de metal foram escolhidas para entrar na exposição. "O nexus do título é o enlaçamento, o nó, a ligação, que também evoca à comunicação atual. Existe uma trama rápida que o homem se deixa enlaçar demais. Meu trabalho aponta para a necessidade de pausa", acrescenta a artista, que já apresentou parte de suas obras em exposição em Nüremberg, no ano passado.

Bem mais próximo do social, o cearense Siegbert Franklin e a paulista Cláudia Villar criam a obra Brinquedos Perigosos. Trata-se de um grande painel com a fotografia de uma criança que carrega nas costas uma pipa com o símbolo do Comando Vermelho. No ano passado, o trabalho foi exposto dentro da Igreja de São Sebaldos, na Alemanha. "Fui o primeiro artista estrangeiro a expor lá. A idéia era criar um altar à criança brasileira. Na exposição daqui, a obra se agrega às colagens de Claudia Villar, com brinquedos e pequenos objetos infantis, como se fossem auto-retratos", diz Franklin, que se apropriou de uma fotografia encontrada no lixo para compor o painel. Segundo o artista, a temporalidade tem cunho social. "Para se aproximar de alguém que tem uma condição social e econômica diferente, é preciso desacelerar e esperar que o outro alcance o mesmo nível", explica.

A exposição Temporalidade inclui os diários de viagem de Coca Rodrigues, que relata suas passagens no Amazonas, com desenhos em papel com pó de grafite e cera. A instalação da alemã Annete Rolenmiler mostra pequenas caixas de produtos de supermercado, dispostas no chão, com telas e desenhos no teto da galeria. Os objetos feitos com silicone do paulista Chico Penteado reproduz pequenos animais pré-históricos, ao redor de raízes e pedras. "Procuramos dialogar com os artistas, sempre encontrando afinidades com exposições que costumamos fazer na galeria, que primam pela delicadeza", afirma o curador Dante Diniz.

A coletiva integra o projeto Câmara Lenta-Zeitlupe, desenvolvido há 12 anos pela organização não-governamental alemã Ponte Cultura, que estimula o intercâmbio cultural entre artistas europeus e brasileiros. A exposição resulta do trabalho de artistas cuja obra trata do tema central da curadoria: a necessidade da desaceleração da velocidade na vida contemporânea. A primeira edição do projeto foi realizada na cidade de Nüremberg, na Alemanha, em outubro do ano passado. Na ocasião, participaram 22 artistas, sendo dez brasileiros e 12 de várias partes da Europa, além do Canadá. "Algumas obras são as mesmas e outras foram incorporadas. Mas todas abraçam a temática da desaceleração com cunho filosófico e social, revendo certos valores sobre a vida", diz Franklin, que também é curador internacional do projeto.

SERVIÇO
Temporalidade - Dentro do projeto Câmera Lenta, a exposição apresenta obras de nove artistas. Abertura hoje, às 20h30, na Galeria Vicente Leite (Fa7 - Rua Maximiano da Fonseca, 1395 - Eng. Luciano Cavalcante). Às 19h, palestra com os artistas no auditório de prática jurídica da Fa7. Grátis. Info.: 4006.7600.


PROGRAMAÇÃO
DIA 25 (segunda)
Onde: Conservatório de Música Alberto Nepomuceno - 19h30 às 21h30
O quê: Apresentação e workshop do pianista Klaus Treuheit

DIA 26 (terça)
Onde: Galeria Casa D´Arte - 21h
O quê: Expressão, com obras de Siegbert Franklin, Clemens Heil, Renate Goekel, Gerlinde Pistner e Cláudio César

DIA 27 (quarta)
Onde: município de Guaiúba
O quê: Vivência e workshop com duração de quatro dias (de 27 a 30/9) com participação de artistas de Fortaleza e do grupo europeu / Apresentação e workshop do pianista Klaus Treuheit

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