Vida & Arte
MEMÓRIA
O bem amado do palco
Ilclemar Nunes, aluno da primeira turma do Curso de Arte Dramática, recorda como conheceu e reconhece a memória de Paschoal Carlos Magno. Ele destaca as nuances da relação entre os dois, das primeiras aproximações à amizade. Entre a afinidade ao fazer teatral, Ilclemar destrincha a personalidade do amigo. E aponta seus adjetivos
Ilclemar Nunes
Especial para O POVO
02 Set 2006 - 16h35min
No início dos anos 60, ainda adolescente, eu era um dos alunos fundadores do Curso de Arte Dramática da Universidade do Ceará (CADUC). B. de Paiva, além de dirigir o CADUC, era também nosso professor de interpretação teatral. E foi através do B. que ouvi falar pela primeira vez em Paschoal Carlos Magno, um verdadeiro homem de teatro que, acima de tudo, amava o teatro e fazia um grande movimento teatral no Teatro Duse, construído por ele em sua casa de Santa Tereza.
Em 1964, dois anos depois de já estar morando no Rio, pra onde eu fora pra estudar e fazer teatro, eis que tive minha estréia carioca como ator na peça A Noite do Iguana, produção da Cia. Cacilda Becker. E foi com o coração aos pinotes que contracenei com Cacilda Becker, no palco do Copacabana Palace, com grande elenco sob a direção de Walmor Chagas, marido dela e também ator do espetáculo.
Se conto sobre minha estréia é porque foi também por causa dela que tive o prazer de conhecer parte do círculo de amigos que Paschoal Carlos Magno recebia em sua casa e que os cultivava com muito carinho até o final de sua vida. Mas, voltando à noite de estréia da peça, no (Teatro) Ginástico, depois dos aplausos, Cacilda e nós, os atores do espetáculo, subimos para a acolhedora casa de Paschoal, em Santa Tereza. A partir dali, a vida continuou sorrindo pro jovem ator cearense (Ilclemar) que, depois da temporada da Iguana, fez ainda na Companhia Cacilda Becker, O Santo Milagroso, depois pra Cia. Ruth Escobar, Julio Cesar; Ópera de Três Vinténs, Capitães d’Areia, etc...
E neste meio tempo, sempre trabalhando, eu encontrava Paschoal que ia ver os espetáculos e depois falava, dando toques sobre minha interpretação. Até que, em novembro de 1968, o ator cedeu vez e o autor surgiu com a peça Soninha Toda Pura que, além de premiada pelo Serviço Nacional de Teatro, foi montada, virou filme e o livro ficou morando nos porões da censura federal durante 11 anos.
Com o dinheiro dos direitos autorais de Soninha... no cinema, comprei apartamento no final da Rua Santo Amaro, no Catete, que subindo por ela chegava na casa do Paschoal. Na aprazível e cultural casa do Paschoal de saudosa memória. A casa, estilo antigo, tinha uns jardins em torno de onde se via a Baía de Gauanabara e a cidade se movimentando, lá em baixo. O famoso Teatro Duse ficava sob os salões cheios de antigüidades, livros, estátuas, santos, quadros famosos, principalmente, de São Francisco, de quem Paschoal era devoto e tinha verdadeira adoração pelo santo.
Paschoal tinha o mesmo dom da alegria e do bom humor que o santinho de Assis pregava e apregoava a todos os cantos. Os jornais da mocidade de Paschoal dão conta de que ele era um dos homens mais bonitos e elegantes do Brasil. E que com tanta belezura acabou tendo grandes romances e um deles, contam, foi com a primeira Miss Brasil, uma linda gaúcha.
Desde pequeno Paschoal gostava de escrever. E na adolescência andou acometendo poesias que virou livro cheio de elogios de intelectuais da época. Não parou mais de escrever. Teatro, fez letras de música, e ainda, escreveu o romance traduzido para o inglês, Sol sobre as Palmeiras. Às vezes, Paschoal me surpreendia fazendo visitas e, mais ainda, quando as irmãs cismavam em lhe tirar o sossego com pequenas reclamações ou proibições quanto a sua dieta. Sempre naquela noite, ele jantava o que queria e depois de muita conversa e riso, ele dormia no meu apartamento e não voltava pra casa, só de pinimba.
Paschoal nunca estava parado em casa, sem nada pra fazer. E ali, num imenso salão da casa, apinhado de livros nas estantes, em cima das mesas e poltronas, Paschoal quase sempre estava às voltas com caixas de recortes de jornal, inclusive do exterior que ele lia e selecionava , e, conforme seu humor, contava episódios ocorridos com aquela notícia.
Muitas vezes, eu o ajudava e ele até chegou a me propor pagamento pra eu ajudá-lo “oficialmente” a organizar aquele caos de notícias de sua vida de rapaz solteiro, bonito, inteligente e culto, metido com artes, diplomacia, política, e... ainda, muitos amores, inclusive, com estrelas internacionais do teatro e cinema daquela época, em Londres.
Seus sonhos muitos se tornaram realidade e alguns deles sobrevivem até hoje perpetuando ad eternitatem o espírito pioneiro de Paschoal, o homem que acreditava na causa do teatro e que, por ele fazia qualquer sacrifício.
Paschoal fazia parte do rol das celebridades que estavam sempre preocupadas com o bem estar das pessoas e mais ainda, com a educação e a cultura brasileira.
Generoso, ele gostava de ajudar quem batia em sua porta pedindo ajuda qualquer que fosse, financeira, ou mesmo, carta de apresentação, enfim, apoio pro fazer artístico. Um tema meio macabro que estava nas nossas conversas era a morte. A indesejada realmente nunca deixava de estar presente no seu dia-a-dia. Uma vez, brincando, ele reclamou que não agüentava mais ir pros cemitérios enterrar amigos da sua geração que partiam dessa pra outra. E curioso, me perguntava, como é que eu achava que seria o enterro dele. Sabendo que ele gostava desse papo meio lúgubre, eu exagerava. Dizia que pro enterro dele, iriam cegar caravanas de carpideiras, viúvas do Paschoal. E outros seres transcendentais pra fazer parte do grande cortejo fúnebre que, além do mais, também teria representantes das artes estrangeiros e outras bobagens que o fazia dar gargalhadas.
Como toda celebridade, Paschoal tinha suas queixas sobre o excesso de convites (inclusive missas do sétimo dia ) que diariamente chegavam a sua casa. Era convite pra tudo que é besteira, reclamava gozando. Dizia que chamavam ele pra tudo que era inauguração e outras chatices, menos pra ir tomar banho de mar, ir um cineminha de tarde e tal...
Muitas histórias engraçadas, acontecidas, assim espontaneamente, por causa da verve bem humorada de Paschoal e seu dom pra contar histórias absurdas e até mesmo, imitar algumas figuras que ele achava grotescas em suas pompas e cricunstâncias... Uma de suas vítimas eram as gordas cantoras do bel canto. Ele adorava imitar essas divas do canto lírico.
E ainda, na compulsão de sair de casa pra se divertir, ou seja, programas fora das inaugurações, fomos ver uma ópera no Teartro Municipal. A heroína da história era uma frágil mocinha, mas quem fazia seu papel era uma soprano bem gorduchinha e toda apertada por espartilhos. Isso chamou logo a atenção de Paschoal que se segurava pra não imitar ali mesmo a diva. Ele era assim, uma espécie de comediante muito engraçado em busca de platéia risonha.
Como eu vivia reclamando que na casa de Paschoal não tinha um som, nem de rádio, mais parecia um cemitério, pelo menos devia ter uma televisão “pra saber das notícias”, eu falei. Passou o tempo, e uma noite, mais ou menos por volta de uma da manhã meu telefona toca, atendo é o Paschoal, com aquele vozeirão mole dele. O que foi Paschoal ? Ele: “comprei uma televisão e não sei ligar...”
- Qual a marca ?
“Philips”. Aí eu disse que ela era igual a minha e tal.. Mandei ele ir mexendo nos botões até ligar... ele obedecia até que uma hora, meio impaciente, se vira e fala pra mim :
- Quer saber, não vou mais mexer nessa porcaria, não. Vai ver que eu erro e aí o Astro cai nos meus braços.
E nada mais disse e desligou o telefone na minha cara. Coisas do Paschoal. Ah, o astro era o Francisco Cuoco.
Quantas boas lembranças. Nos anos 80, deixei a Santo Amaro, fui morar na praia do Flamengo. Dei jantar no meu aniversário e convidei amigos mais velhos da televisão e teatro e mais jovens que faziam teatro infantil comigo. A festa foi dividida em dois ambientes: na sala ficavam os “mais cascudos” que chegavam e ali ficavam trocando idéias e bebericando. E quanto aos mais jovens que chegavam, eles davam boa noite e passavam batidos pro quarto.
O fato é que o quarto e a sala funcionavam cada um com seu público. Nisso, chegou o Paschoal, foi aquele alvoroço, beijinhos e abraços e tais... E de repente, Paschoal some e vai pro quarto. Ali, se estabeleceu e só saiu pra ir embora e, isso, só quando todos os adultos já tinham partido. Nem preciso dizer que ele sentado numa espreguiçadeira foi o rei da noite, naquele quarto, contando piadas e causos, onde fazia todo mundo rir e ficar encantado com o seu espírito jovem e cheio de alegria.
Na minha memória afetiva, para sempre vou guardar essa imagem risonha e bem humorada, meio moleque deste carioca que, como ninguém, soube cultivar a amizade e espalhar amigos, em nome da arte, pelo mais longínqüos rincões desse imenso país.
ILCLEMAR Nunes é ator, autor, professor e diretor de teatro
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